Sebastián Marset.

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Sebastián Marset
    • Author, Gerardo Lissardy
    • Role, BBC News Mundo
  • Há 27 minutos

  • Tempo de leitura: 6 min

Sebastián Marset tinha apenas 22 anos quando foi detido pela primeira vez por tráfico de drogas em flagrante: transportava 172 quilos de maconha pelas tranquilas estradas de seu Uruguai natal, em outubro de 2013.

Esse cenário contrasta com o de sua captura nesta sexta-feira (13/3), na Bolívia, por meio de uma grande operação policial internacional.

Ele já figurava entre os cinco narcotraficantes mais procurados pela agência antidrogas dos Estados Unidos, a DEA, e foi preso numa operação em Santa Cruz de la Sierra, maior cidade boliviana com importante ligação com o Brasil.

No mesmo dia, foi extraditado para os Estados Unidos para responder por acusações de lavagem de dinheiro do narcotráfico.

Segundo investigações, Marset cultivou vínculos com grupos criminosos poderosos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) — em um vídeo postado nas suas próprias redes sociais, ele aparece com símbolos da facção.

Mas como ele chegou a esse posto e passou tantos anos escapando da polícia?

Quase 13 anos atrás, Marset entrou no radar das autoridades uruguaias como um contato local de Juan Domingo Viveros Cartes — tio do então presidente paraguaio Horacio Cartes — que havia sido preso depois de entrar no Uruguai em um avião monomotor com 450 quilos de maconha.

Mas até aquele momento, Marset era considerado uma peça menor da estrutura do narcotráfico internacional.

Tudo mudou depois dos cinco anos que passou em uma prisão uruguaia.

"Parece-me que é uma pessoa com uma inteligência considerável quando inicia sua trajetória criminosa e soube administrar muito bem os contatos que certamente fez na prisão", afirma Juan Rodríguez, ex-diretor de Investigações da Polícia Nacional uruguaia, que apoiou os esforços internacionais para capturar Marset.

"Ele conquistou confiança em comandos importantes de alguma organização da Bolívia e principalmente do Paraguai", acrescenta Rodríguez, que atualmente está aposentado e trabalha em operações de segurança privada, em conversa com a BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Após recuperar a liberdade em 2018, Marset mudou-se para o Paraguai e iniciou uma vida dupla, sendo um empresário-futebolista em público e traficante de cocaína de forma oculta.

Ele evitou prisões de maneira surpreendente e protagonizou episódios que abalaram governos.

"O reino de terror e caos de Sebastián Marset terminou", comemorou nas redes sociais o Escritório de Narcóticos Internacionais do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que oferecia até US$ 2 milhões (R$ 10,6 milhões) por informações que levassem à sua captura.

'Queria me assassinar'

Com 34 anos, magro, com tatuagens no pescoço e nos braços e frequentes mensagens desafiadoras às autoridades, Marset tornou-se um personagem peculiar do mundo do narcotráfico.

Segundo os investigadores, no Paraguai ele se vinculou ao clã de Miguel Ángel Insfrán, conhecido como "Tío Rico", para movimentar toneladas de cocaína provenientes da Bolívia rumo a diferentes mercados.

Sebastián Marset no momento em que preso pela polícia boliviana

Crédito, Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguay

Legenda da foto, Sebastián Marset foi preso pela polícia boliviana e enviado aos EUA

Paralelamente, Marset se apresentava como empresário do setor automotivo e produtor de espetáculos musicais para lavar os ganhos do narcotráfico.

Em 2021 chegou a se registrar como jogador de futebol profissional pelo Deportivo Capiatá, um clube da segunda divisão paraguaia, onde, segundo relatos, pagou US$ 10 mil (R$ 53 mil) para jogar com a camisa número 10.

Anos mais tarde, quando já vivia na Bolívia como foragido da Justiça, também jogou na liga de futebol de Santa Cruz. Fez isso usando uma identidade brasileira falsa, mas algumas de suas partidas eram divulgadas nas redes sociais.

Juan Rodríguez considera que, dentro da estrutura do narcotráfico, Marset atuava "mais no nível de coordenador logístico, e seguramente essa atividade e seu crescimento também o levaram a realizar investimentos ou financiar carregamentos" de drogas.

"Considero que é uma pessoa relevante para a organização da qual ele faz parte, que para mim está principalmente no Paraguai e na Bolívia. Os líderes dele certamente são dessa região", afirma o ex-policial.

As investigações, acrescenta, estabeleceram que Marset cultivou vínculos com o PCC e com a máfia 'Ndrangheta italiana, e que os carregamentos de cocaína que costumava enviar via Uruguai tinham como destino a Europa.

Cartaz dos EUA em inglês anuncia recompensa com foto do traficante

Crédito, Departamento de Estado dos EUA

Legenda da foto, Estados Unidos oferecia recompensa de US$2 milhões para prender Marset

O que acabou com as fachadas de Marset foi uma operação chamada A Ultranza Py (expressão que pode ser traduzida como "até a última consequência"), considerada a maior ação contra o tráfico de cocaína na história do Paraguai.

Nessa investigação, Marset foi responsabilizado pelo tráfico de enormes quantidades de cocaína, incluindo, segundo os Estados Unidos, quase 11 toneladas da droga descobertas em um carregamento de couro no porto belga de Antuérpia em abril de 2021.

A operação A Ultranza Py — na qual também foram presos Miguel Ángel Insfrán, seu irmão José Insfrán, que era político e pastor, e outros membros de sua organização — foi conduzida inicialmente pelo promotor paraguaio Marcelo Pecci, assassinado em 2022 durante sua lua de mel na Colômbia.

Marset tem sido frequentemente apontado como suposto responsável pelo assassinato de Marcelo Pecci, embora não tenham sido apresentadas acusações formais contra ele por esse crime.

Após a captura do narcotraficante uruguaio nesta sexta-feira, o presidente colombiano, Gustavo Petro, afirmou que ele "era muito amigo de pessoas da promotoria de alto nível que permitiram que seu nome fosse apagado dos autos do assassinato do promotor paraguaio Pecci em Cartagena".

"Esse senhor queria me assassinar no exercício do meu cargo como presidente da República", afirmou Petro, referindo-se a Marset, na rede social X.

'Muito inteligente para vocês'

Além de ter acusações pendentes nos Estados Unidos, na Bolívia e no Paraguai, Marset é suspeito de estar por trás de ataques violentos contra autoridades de seu próprio país, o Uruguai, embora até agora também não enfrente acusações formais por isso.

Um deles foi um ataque em setembro, com tiros e uma granada, contra a casa da promotora uruguaia Mónica Ferrero, que afirmou ter salvado a própria vida por 15 centímetros.

Caminhonete atravessa na rua durante operação em Santa Cruz de la Sierra

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, A operação aconteceu no bairro Las Palmas, em Santa Cruz de la Sierra.

As investigações, que seguem sob sigilo, apontam Marset como possível autor intelectual desse atentado.

Em 2021, Marset foi detido brevemente em Dubai, nos Emirados Árabes, por viajar com um passaporte falso, mas o Uruguai havia lhe emitido um passaporte autêntico, com o qual ele saiu em liberdade, apesar de já existirem indícios de sua participação no narcotráfico.

Esse caso desencadeou uma crise dentro do governo do então presidente Luis Lacalle Pou, que levou às renúncias de seu ministro do Interior e de seu chanceler em 2023.

No mesmo ano, Marset escapou por pouco de uma operação para capturá-lo em Santa Cruz de la Sierra e divulgou um vídeo desafiando a polícia boliviana.

"Sou muito inteligente para vocês — para não dizer que vocês são muito burros", afirmou.

Ele também lançou advertências às autoridades bolivianas: "Se eu abrir minha boquinha, a situação de vocês complica", disse.

Em outras mensagens públicas, protestou pelas condições de detenção no Paraguai de sua esposa e mãe de seus filhos, a uruguaia Gianina García, que está sendo investigada por suposta participação em lavagem de dinheiro — algo que ambos rejeitam.

O presidente boliviano, Rodrigo Paz,  em discurso junto a seus ministros

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, O presidente boliviano, Rodrigo Paz, disse que a prisão de Marset é um ponto de inflexão na luta contra o crime organizado .

Em outubro de 2025, Marset apareceu em um vídeo com armas longas ao lado de um grupo de pessoas encapuzadas, um símbolo do PCC e afirmou que estavam "preparados para fazer guerra com quem fosse".

O ministro do Interior do Paraguai, Enrique Riera, afirmou nesta sexta-feira que esse vídeo foi fundamental para descobrir o paradeiro do narcotraficante.

Marset admitiu publicamente que traficou drogas, mas negou ser responsável pela lavagem de dinheiro atribuída a ele pelos Estados Unidos ou pelo assassinato do promotor Marcelo Pecci.

"Quando falam de Sebastián Marset, dizem, dizem, dizem", afirmou em um programa de TV uruguaio em 2023. "Mas eu quero ver um dia", acrescentou, "se me capturarem, de tudo o que dizem (que mostrem) do que têm provas".

Esse dia finalmente chegou.