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- Author, Atahualpa Amerise
- Role, BBC News Mundo
Há 28 minutos
Tempo de leitura: 9 min
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, informou na sexta-feira (13/3) que seu país e os Estados Unidos iniciaram conversas em meio à grave crise econômica que atravessa a ilha, em um momento de pressão cada vez maior do governo Donald Trump sobre Havana.
O anúncio confirma as recentes informações sobre possíveis contatos entre os dois países, que trouxeram a público uma figura até então pouco conhecida.
Trata-se de Raúl Guillermo Rodríguez Castro, de 41 anos. Conhecido como "Raulito" e El Cangrejo ("O Caranguejo", em espanhol), ele é neto, braço direito e guarda-costas do ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos — e sobrinho-neto de Fidel Castro, líder da Revolução Cubana.
"Raulito" não ocupa nenhum cargo no governo Díaz-Canel, mas alguns órgãos de imprensa indicam que ele seria o interlocutor de Cuba em reuniões confidenciais realizadas com assessores do secretário de Estado americano, Marco Rubio. Havana não desmentiu explicitamente esta informação.
Raúl Guillermo Rodríguez Castro aparece sentado atrás de Díaz-Canel, entre funcionários do Partido Comunista, no vídeo do pronunciamento de sexta-feira. O mandatário declarou que o objetivo das conversas é "buscar soluções pela via do diálogo para as diferenças bilaterais que temos entre as duas nações".
Anteriormente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que seu governo está "conversando" com autoridades cubanas e sugeriu a possibilidade de uma "tomada amistosa" do controle da ilha, que, segundo ele, "não tem energia, não tem dinheiro" e enfrenta sérios problemas humanitários.
Os órgãos de imprensa que noticiaram supostos contatos antes da confirmação desta sexta-feira indicaram que um desses encontros teria ocorrido em fevereiro, à margem de uma reunião de líderes caribenhos em São Cristóvão e Névis, onde assessores de Marco Rubio teriam se reunido com o neto do histórico dirigente cubano.

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Do lado americano, o congressista republicano Mario Díaz-Balart declarou que o governo dos Estados Unidos conversou com "diversas pessoas do entorno de Raúl Castro", mas que não se tratava de negociações oficiais.
A menção do nome de Raúl Guillermo como interlocutor pela parte cubana colocou em evidência o peso do sobrenome Castro em uma opaca elite política, na qual os equilíbrios internos de poder continuam sendo um mistério.
Mas quem é Raúl Guillermo Rodríguez Castro? E qual é o seu papel na estrutura do regime comunista de Cuba?
O favorito de Raúl Castro
Fidel Castro (1926-2016) concentrou o poder em Cuba por décadas, como líder absoluto do sistema político comunista instaurado após a Revolução Cubana de 1959, que segue em vigor na ilha.
Oito anos antes de morrer, Fidel passou o poder para seu irmão mais novo, Raúl Castro.
"Fidel havia mantido a família bastante afastada", explica à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, o cientista político e historiador cubano Armando Chaguaceda.
"Fidel era ele e ponto. A família ficava de fora. Mas, com Raúl, os familiares adquiriram maior notoriedade."

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Raúl Guillermo Rodríguez Castro, o "Caranguejo", é filho de Déborah Castro Espín, a mais velha dos quatro filhos de Raúl Castro, e do ex-general de divisão Luis Alberto Rodríguez López-Calleja (1960-2022), uma das figuras mais influentes do regime cubano.
Rodríguez López-Calleja dirigia o conglomerado empresarial militar Gaesa, uma holding que controla amplos setores da economia da ilha, do turismo e do comércio varejista até as remessas financeiras e serviços portuários.
Seu filho Raúl Guillermo foi o primeiro neto de Raúl Castro. O ex-presidente manteve com ele uma relação especialmente próxima desde a infância, como revela à BBC seu primo do lado paterno, Carlos Rodríguez Halley, que é três anos mais novo.
"Por ser o primogênito dos netos de Raúl Castro, Raulito sempre foi muito apegado ao avô", ele conta. "Muito novo, quando tinha 11 anos e estava na sexta série, foi morar com ele."
A decisão foi importante dentro da família. Afinal, ela fez com que o jovem crescesse ao lado do então líder cubano e contribuiu para consolidar um vínculo que, com o tempo, facilitaria sua integração ao círculo de poder.
"Nem mesmo seu pai esteve muito presente", segundo o primo. "Seu pai trabalhava muito e, desde que ele era muito jovem, eles apenas se viam."
Raúl Guillermo seguiu uma formação que combinava educação civil e militar.
Ele estudou na escola conhecida como Los Camilitos, uma instituição que prepara os jovens cubanos para carreiras nas forças armadas. Posteriormente, ele cursou contabilidade e finanças na Universidade de Havana.

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Seu primo descreve "Raulito" como alguém que cresceu em uma bolha.
"Ele foi criado em um ambiente muito específico, sempre rodeado de jovens militares que eram trazidos do campo e doutrinados nas forças armadas", conta Rodríguez Halley. "Estes homens eram o seu entorno."
Ele destaca que, da mesma forma que os outros netos de Raúl Castro, Raúl Guillermo cresceu em entorno privilegiado, com pouco contato com a vida cotidiana de um país atingido por décadas de escassez e deterioração dos serviços públicos.
Seu apelido El Cangrejo surgiu quando ele era criança, dentro da própria família, por ter nascido com polidactilia.
"Ele nasceu com seis dedos", conta o primo. "Foi operado quando era muito pequeno e ficou uma cicatriz que, agora, quase não se nota."
Em termos de personalidade, Rodríguez Halley o descreve como um homem "tímido no seu ambiente mais fechado, mais familiar, mas que também projeta uma imagem pública de extroversão em certos ambientes".
Raúl Alejandro foi casado mais de uma vez e tem duas filhas, segundo fontes próximas.
O guarda-costas
Raúl Castro transferiu a presidência de Cuba para Díaz-Canel em 2018 e se retirou formalmente da primeira linha da política em 2021. Mas muitos analistas consideram que ele mantém intacto seu poder de decisão no aparato político e nas forças armadas.
O cientista político Chaguaceda destaca que, em um sistema fechado como o cubano, a proximidade pessoal com a figura que concentra o poder pode ser um fator decisivo.
"A elite está concentrada em um pequeno grupo de anciãos envelhecidos, militares ou civis, que fazem parte do setor político", explica ele. "E há um componente familiar, que é a família de Raúl Castro."
Por isso, a influência do "Caranguejo" teria origem, mais que em uma trajetória política própria, na mencionada proximidade com seu avô, segundo especialistas e fontes próximas.
Diferentemente do seu pai, um general que se destacou pela sua notável trajetória acadêmica e militar, Raúl Alejandro Rodríguez Castro não foi particularmente brilhante nos estudos nem na sua carreira no exército.
De qualquer forma, sua única ocupação conhecida é a de guarda-costas do próprio Raúl Castro.
"Os militares com quem ele cresceu eram sua referência, a ponto de ele próprio ter decidido que queria ser guarda pessoal do avô", explica seu primo.

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Diversas fontes posicionam Raúl Guillermo como alto funcionário do Ministério do Interior de Cuba, com patente de tenente-coronel ou coronel, sempre vinculado à segurança pessoal de Raúl Castro.
Relatos mencionados pelo BBC Monitoring (o serviço de monitoramento da BBC) indicam que seu avô o teria promovido em 2016 a chefe da Direção Geral de Segurança Pessoal, uma unidade chave do aparato de segurança cubano, encarregada de proteger os dirigentes do país.
Desde então, sua presença ao lado do ex-presidente se tornou habitual.
Fotografias e vídeos difundidos pela imprensa estatal cubana mostram frequentemente Raúl Alejandro ao lado do avô em atos oficiais, reuniões ou viagens ao exterior. Ele costuma aparecer vestido com uniforme verde-oliva e óculos escuros.
Em algumas ocasiões, ele é visto um passo atrás de Raúl Castro ou inclinado na sua direção, aparentemente transmitindo informações ou orientando o ex-presidente durante atos públicos.
Este papel o coloca em uma posição singular dentro do sistema político cubano. "Raulito" controla o acesso físico ao histórico ex-dirigente e participa da logística, segurança e organização dos seus deslocamentos.
Da mesma forma que os outros netos do ex-presidente, Raúl Alejandro também desperta atenção devido às informações que o vinculam ao privilegiado estilo de vida da elite governante de Cuba, diferente das dificuldades econômicas enfrentadas pela maioria da população da ilha.
Sua vida social nos últimos anos foi marcada, segundo fontes próximas, pela sua proximidade com a elite esportiva e cultural de Cuba.
"Como qualquer cubano, ele era fanático por beisebol", recorda seu primo.
"Mas, claro, ele não ia ao beisebol, como eu e você, para se sentar e assistir a uma partida. Ele andava com os melhores jogadores."
"No seu primeiro casamento, estavam todos os artistas da [banda] Charanga Habanera; também estavam Alexander e o outro músico do [grupo] Gente de Zona", ele conta, em referência a dois populares grupos musicais cubanos.
A falta de informação sobre Raúl Guillermo é um fato comum quando se tenta analisar o funcionamento interno do poder em Cuba.
"Sempre foi um sistema muito opaco e o que se sabe é pouco mais do que especulação", afirma Armando Chaguaceda.

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A aparente participação de Raúl Guillermo Castro nos contatos com Washington também trouxe de volta uma questão mais ampla: quem realmente toma as decisões em Cuba?
Fontes mencionadas pelo jornal americano Miami Herald indicam que os contatos do governo Donald Trump não se limitaram a um único interlocutor, mas sim a "diversas pessoas do entorno de Raúl Castro", incluindo familiares e altos militares.
Neste sentido, o presidente cubano, Díaz-Canel, afirmou na sexta-feira estar à frente dos diálogos por parte de Cuba, ao lado de Raúl Castro e de outros altos funcionários do Partido Comunista e do governo.
Díaz-Canel não detalhou quem faz parte da delegação americana.
O congressista americano Mario Díaz-Balart comparou estes diálogos com os contatos anteriores entre Washington e o governo da Venezuela, antes da captura do presidente Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro.
Segundo as mesmas fontes, não se trataria de negociações formais, mas de intercâmbios sobre possíveis mudanças econômicas e políticas na ilha.
Washington interrompeu o fornecimento de petróleo procedente da Venezuela, um tradicional parceiro e fornecedor do regime cubano. E ameaçou impor tarifas de importação aos países que fornecerem combustível para a ilha.
Paralelamente, setores da diáspora cubana em Miami, no Estado americano da Flórida, expressaram preocupações com a possibilidade de que Washington permita a manutenção da família Castro e seu entorno no poder.
Sobre esta possibilidade, Díaz-Balart afirmou que "o conceito de 'Raúl sem Raúl' não é aceitável para este governo". Ele faz referência à possibilidade de que outros membros da família, incluindo o "Caranguejo", continuem controlando o país após um possível acordo.

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