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- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
Há 17 minutos
Tempo de leitura: 11 min
"Tivemos ali uma química excelente e isso foi um bom sinal".
Foi assim que, em setembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, definiu seu primeiro encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante uma breve conversa, em Nova York.
O encontro surpreendeu quem acompanhava a tensão pública entre os dois até então, serviu para quebrar o gelo e deu início a uma relação que, até recentemente, os dois classificavam como boa.
Nesse período, os Estados Unidos reduziram parte das tarifas impostas a produtos brasileiros e retiraram as sanções econômicas impostas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e sua mulher, Viviane Barci de Moraes.
A coroação desse bom momento seria uma visita de Lula a Trump, em Washington, nos EUA, programada inicialmente para acontecer neste mês.
Lula chegou a dizer em uma entrevista que a expectativa era de que a reunião ocorresse neste domingo (16/3), mas a data jamais foi confirmada pelo Palácio do Planalto ou pela Casa Branca.
Nos últimos meses, no entanto, divergências entre os dois também se mantiveram evidentes.
Além disso, Lula criticou o Conselho de Paz, órgão criado por Trump para o qual o Brasil foi convidado e que, segundo especialistas, teria o objetivo de substituir a Organização das Nações Unidas (ONU).
Nesta semana, uma série de eventos voltou a levantar dúvidas sobre o atual estágio da relação entre os líderes das duas maiores democracias do hemisfério ocidental.
O movimento desagradou o governo brasileiro, que se mobilizou para tentar convencer os americanos a recuar.
Na quinta-feira (12/3), o governo norte-americano incluiu o Brasil em uma investigação sobre supostas práticas comerciais irregulares, juntamente com outros 59 países e blocos econômicos.
Na prática, a medida pode resultar em novas tarifas comerciais contra a exportação de produtos brasileiros.
Na sexta-feira (14/3), porém, aconteceu o episódio mais emblemático.

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A justificativa foi de que Beattie, quando pediu o visto às autoridades brasileiras, omitiu a informação de que ele pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena em um presídio como parte da sentença de 27 anos de prisão por crimes como tentativa de golpe de Estado.
Para o Itamaraty, a visita poderia configurar uma ingerência política indevida.
Em meio a esses episódios, a BBC News Brasil conversou com diplomatas e especialistas para entender: afinal, o que aconteceu com a "química" entre Lula e Trump? Será que ela diminuiu ou os episódios mais recentes nada têm a ver com a relação entre os dois presidentes? E caso a química tenha diminuído, quais as consequências disso para a relação entre os dois países?
Diplomatas brasileiros ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado divergem, em alguma medida, sobre o que está acontecendo.
Um deles afirma que o governo ainda diz que é cedo para crer no fim dos bons laços que teriam sido forjados entre Lula e Trump nos últimos meses.
Outro diplomata minimiza os os últimos episódios e atribuiu a tentativa de os EUA classificarem facções criminosas como entidades terroristas e a tentativa de Beattie de visitar Bolsonaro a grupos dentro do Departamento de Estado alinhados à direita brasileira que estaria tentando minar a relação entre os dois países.
Entre os especialistas, um deles diz apostar que as relações entre Trump e Lula não se deterioraram, mas que o foco de Trump na guerra em curso no Irã estaria abrindo espaço para que grupos contrários a uma aproximação com o Brasil atuem com mais independência.
Outro avalia que a tal "química" seria apenas um "gracejo" retórico e que, na prática, Brasil e Estados Unidos têm, hoje, interesses e agendas políticas distintas e que isso seria difícil de contornar.
Outro especialista ouvido pela BBC News Brasil também avaliou que não há elementos para crer que houve uma piora na ligação entre Lula e Trump, mas que, a crise no Oriente Médio e a proximidade das eleições no Brasil criam um cenário incerto sobre o futuro dessa relação.
Controvérsias e surpresas
A controvérsia em torno da possível designação do PCC e CV como entidades terroristas trouxe à tona, novamente, uma divergência entre Brasília e Washington sobre a forma de enquadrar as duas facções.
Se por um lado os Estados Unidos discutem essa possibilidade, o governo brasileiro defende que essas facções sejam tratadas apenas como organizações criminosas.
O temor brasileiro é de que essa designação possa ser usada politicamente contra o governo em um ano eleitoral, além de abrir brechas para futuras intervenções militares no Brasil, a exemplo do que os Estados Unidos fazem em outros países do mundo como no Oriente Médio, África e, mais recentemente, na América Latina.
O tema já vinha sendo debatido pelo menos desde o ano passado, quando um representante norte-americano veio ao Brasil discutir o assunto com autoridades brasileiras.
Mas a BBC News Brasil apurou que até mesmo integrantes da representação diplomática norte-americana teriam sido pegos de surpresa com o aparente avanço das discussões. A expectativa seria de que essa designação, se fosse ocorrer, aconteceria apenas em meados do segundo semestre deste ano.
Os rumores de que os Estados Unidos estariam prestes a designar as facções como entidades terroristas levou o governo brasileiro a se mobilizar.
Segundo relatos ouvidos pela BBC News Brasil, integrantes do Planalto e do Itamaraty tentaram fazer chegar ao presidente Donald Trump a avaliação de que a designação não contribuiria, na prática, para enfraquecer as duas facções.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, teve uma ligação no domingo (8/3) com o secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio.
A posição defendida por autoridades brasileiras foi a de que uma alternativa mais eficaz para o combate às duas facções seria aprofundar a cooperação policial e de inteligência entre os dois países, com foco em rastreamento de recursos, circulação de armas, rotas internacionais e lavagem de dinheiro.
O segundo foco de tensão da semana surgiu com a abertura, pelos Estados Unidos, de uma nova investigação com base na seção 301 da sua legislação comercial. Esta é o segundo procedimento do tipo aberto pela administração Trump contra o Brasil na área econômica. A primeira aconteceu em julho de 2025, em meio ao anúncio do tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros.
O procedimento inclui o Brasil e outros 59 países e blocos econômicos e busca apurar se esses parceiros deixaram de adotar ou aplicar de forma efetiva proibições à importação de bens produzidos com trabalho forçado.
Na avaliação de um interlocutor do presidente Lula ouvido pela BBC News Brasil, a medida pode ser lida como uma tentativa do governo norte-americano de retomar uma política tarifária contra produtos importados após a decisão da Suprema Corte norte-americana que derrubou a maior parte dos tarifaços impostos por Trump globalmente, inclusive contra o Brasil.
Outra fonte do governo brasileiro afirmou à BBC News Brasil, sob reserva, que a inclusão do Brasil nessa apuração não deveria ser interpretada, por si só, como um gesto dirigido especificamente ao país, uma vez que a investigação alcançou dezenas de outras economias ao mesmo tempo.
O professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel, avalia da mesma forma.
"Essa questão comercial não é algo contra o Brasil, especificamente. Isso também foi usado contra outros países. É o Trump querendo voltar a usar as tarifas como arma da sua política externa", diz.

Crédito, Governo americano
Mudança de foco
Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do grupo Eurasia, afirmou à BBC News Brasil que o contexto internacional ajuda a explicar os últimos lances da relação entre Brasil e Estados Unidos.
"A crise no Irã deixou Trump focado em outro tema e abriu espaço para que assessores que não gostaram da aproximação dele com Lula pudessem agir novamente. Esse é o contexto da nomeação de Beattie como assessor sobre o Brasil, a sua visita a Bolsonaro e a imposição de condições difíceis para o Brasil na negociação de uma possível reunião bilateral com Trump", diz Garman.
Para o analista, apesar de esses movimentos dificultarem as relações entre Brasil e Estados Unidos, ele diz não acreditar que a ligação entre Lula e Trump esteja afetada.
"Não acho que a relação se deteriorou. Acho que uma ligação telefônica entre os dois pode colocar as coisas nos trilhos novamente. O que segura é que ainda temos um presidente Trump com uma boa relação com Lula. Ele vê o Brasil como estratégico por conta das terras raras. Não creio que vai haver uma escalada de tensão", diz o analista.
Stuenkel faz uma avaliação semelhante.
"Não diria que há uma crise na relação bilateral", diz o professor.
Segundo ele, no entanto, a atual gestão Trump seria muito centralizada e isso cria obstáculos para saber quais serão os próximos movimentos da Casa Branca.
Na avaliação de Garman, a crise no Irã, no entanto, favorece decisões e iniciativas que complicariam a relação bilateral, especialmente quando ainda não houve a visita de Lula a Trump.
O caso envolvendo Darren Beattie ampliou essa percepção. Conselheiro do Departamento de Estado para assuntos relacionados ao Brasil, ele já havia feito declarações públicas críticas ao julgamento de Bolsonaro e ao ministro Alexandre de Moraes.
Em uma dessas manifestações, classificou Moraes como figura central de um suposto sistema de censura e perseguição ao ex-presidente brasileiro. Para integrantes do governo brasileiro, esse histórico político aumentou a sensibilidade em torno da visita planejada para a próxima semana.
A crise se agravou depois que os advogados de Bolsonaro pediram ao STF autorização para que Beattie o visitasse na prisão. Em um ofício enviado ao Supremo, o Itamaraty avaliou que a visita poderia ser entendida como um gesto de ingerência política em assunto interno brasileiro.
De acordo com o documento, Beattie havia solicitado visto sob a alegação de que viria ao Brasil para participar de um fórum sobre minerais críticos e reuniões com autoridades brasileiras, sem menções ao encontro com Bolsonaro. O Itamaraty disse, no entanto, que Beattie só teria procurado fazer contato com autoridades brasileiras depois que sua visita a Bolsonaro foi autorizada.
Na quinta-feira (12/3), Moraes revogou sua decisão e proibiu a visita de Beattie a Bolsonaro.
Na sexta-feira (13/3), Lula comentou publicamente o caso.
"Aquele cara americano que disse que vinha aqui visitar o Jair Bolsonaro foi proibido de visitar, e eu o proibi de vir ao Brasil até que eles liberem o visto do meu ministro da Saúde", disse o presidente em um evento no Rio de Janeiro em menção ao fato de que o governo norte-americano cancelou os vistos de viagem do comandante da pasta da Saúde, Alexandre Padilha, e de membros de sua família.
Um interlocutor do governo brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que Brasília ainda tenta entender se os episódios recentes são resultado de uma mudança mais ampla na orientação da política externa da Casa Branca feita diretamente por Trump, ou se refletem ações isoladas de integrantes do Departamento de Estado contrários a uma aproximação com o governo Lula.
Segundo essa fonte, esse grupo estaria mais próximo de setores ligados ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive atualmente nos Estados Unidos.
Essa fonte afirmou que a tentativa de Beattie de visitar Bolsonaro foi entendida pelo governo brasileiro como uma provocação. Ele ponderou, no entanto, que ainda não há elementos para concluir que o alto comando da diplomacia norte-americana tivesse conhecimento prévio do plano.
Segundo ele, o Brasil continua trabalhando para viabilizar uma visita de Lula a Trump.
Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dawisson Belém Lopes, a ideia de "química" entre os dois presidentes deve ser relativizada.
"Isso foi um gracejo. A tensão entre os dois países nunca deixou de existir", diz Lopes à BBC News Brasil.
Para ele, a aparente aproximação de Trump com Lula se deveu ao suposto fracasso da tentativa norte-americana de fragilizar o Brasil durante o tarifaço.
"Lula e Trump chegaram a um bom termo porque a estratégia de Trump de sufocar a economia brasileira não deu certo. As exportações subiram, Lula se mostrou forte politicamente. Mas em nenhum momento as engrenagens da política externa em relação ao Brasil pararam de funcionar. Não é como se estivéssemos no inferno, ido ao paraíso, e voltássemos ao inferno. Não é assim que as coisas funcionam".

Crédito, EPA
Riscos elevados
Os analistas ouvidos pela BBC News Brasil pontuam que, apesar de não haver indícios de uma ruptura entre Trump e Lula, o ambiente político doméstico e internacional cria riscos para o futuro dessa relação.
Garman avalia que a proximidade das eleições parlamentares de meio de mandato nos Estados Unidos e as eleições gerais no Brasil elevam os riscos.
Nos Estados Unidos, Trump vai usar seu capital político para tentar manter sua maioria no Congresso.
No Brasil, Lula buscará a reeleição diante de uma provável candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro.
"Mesmo não vendo uma crise, o relógio está correndo. Seria importante para o Brasil que essa reunião acontecesse logo. Quando as eleições no país começarem, o ambiente será contaminado e essa reunião pode não acontecer", diz.
Stuenkel diz que o governo brasileiro precisa considerar a possibilidade de uma eventual ação dos Estados Unidos durante as eleições.
"É evidente que o governo brasileiro precisa se preocupar com a possibilidade de interferência eleitoral por parte dos Estados Unidos. Isso virou regra. Ele fez isso na Argentina e em Honduras. Como as pesquisas apontam um cenário apertado para Lula, isso eleva o incentivo de Trump de tentar interferir", afirma.
Há algumas semanas, um interlocutor do presidente Lula tratava a visita a Trump e o processo de aproximação com o norte-americano como uma espécie de vacina para minimizar possíveis interferências externas durante as eleições.
"Aumentaram os riscos. Se Trump levantar o tema das facções criminosas ao vivo, ao lado de Lula, isso pode ser um problema porque as pessoas imaginam que classificar as facções como terroristas pode ser uma solução. Já se sabia que essa reunião seria difícil, mas agora o desafio ficou um pouco maior", diz o professor.
Para Oliver Stuenkel, o atual cenário vai demandar habilidade para a diplomacia brasileira e para Lula tanto para realizar a reunião, quanto durante ela.
"Os eventos desta semana reforçam que Lula vai ter, realmente, que reacender a boa química que pintou com Trump em Nova York", conclui ele.

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