O reality show Big Brother Brasil coloca participantes em uma situação única: três meses sem acesso a celular, redes sociais e internet. Enquanto milhões de brasileiros assistem ao programa, uma pergunta interessante surge: o que exatamente acontece com o cérebro humano após tanto tempo desconectado do mundo digital? As mudanças são positivas ou negativas? Para entender os impactos neurológicos e emocionais dessa experiência, o TechTudo conversou com os psicólogos Luiz Mafle, professor de Psicologia e Doutor em Psicologia pela PUC Minas e Universidade de Genebra, e Brunna Dolgosky, hipnoterapeuta e pós-graduada em arteterapia.
O especialistas explicam como o cérebro reage à ausência prolongada de redes sociais, desde os primeiros dias de adaptação até o momento do retorno ao mundo online. A seguir, descubra o que a ciência diz sobre essa "desintoxicação digital" forçada.
O especialistas explicam como o cérebro reage à ausência prolongada de redes sociais — Foto: Sandra Mastrogiacomo/TechTudo O cérebro sai do modo de hiperestimulação
Após cerca de três meses sem redes sociais, o cérebro passa por uma transformação significativa relacionada ao nível de estímulos que recebe. Segundo Luiz Mafle, o órgão tende a sair de um estado de hiperestimulação, no qual a pessoa fica buscando informações constantemente. "Há uma redução da ativação contínua dos circuitos de alerta e de recompensa imediata, especialmente aqueles ligados à busca por novidade", explica.
Essa mudança favorece uma regulação mais estável do sistema nervoso, com menor sobrecarga cognitiva e emocional. Pesquisas recentes da National Geographic mostram que o uso constante de redes sociais mantém o cérebro em um ciclo de busca por dopamina, criando um estado que especialistas chamam de "déficit dopaminérgico". Nesse estado, precisamos de cada vez mais tempo online apenas para nos sentirmos normais, não necessariamente felizes.
Quando esse ciclo é interrompido por um período prolongado, como acontece no confinamento do BBB, o cérebro começa a recalibrar seus sistemas de recompensa. Muitas pessoas relatam uma sensação de mente mais silenciosa, maior percepção do tempo e a recuperação do ritmo interno de atenção. "As pessoas conseguem ficar mais atentas ao que acontece ao redor", destaca Mafle.
Estudos da Universidade da Carolina do Norte identificaram que adolescentes que checavam redes sociais mais de 15 vezes por dia desenvolveram uma hipersensibilidade a feedbacks sociais, com mudanças visíveis na estrutura cerebral ao longo de três anos. O processo inverso, de ficar sem esse estímulo constante, permite que o cérebro volte a processar informações de forma mais profunda e menos fragmentada.
Cérebro reduz ativação de circuitos de alerta e recompensa após período sem redes sociais — Foto: Reprodução/Gemini IA Menos notificações, menos ansiedade - mas há um porém
A relação entre ausência de notificações e ansiedade não é linear. Segundo Mafle, na maioria dos casos, a ausência de notificações reduz bastante a ansiedade, especialmente aquela ligada à antecipação constante de mensagens, curtidas e informações. "No entanto, nos primeiros dias ou semanas, pode surgir um estresse de adaptação, com inquietação, sensação de vazio e tédio", alerta.
Esse fenômeno tem explicação neurológica. O cérebro estava habituado a estímulos frequentes que ativavam o sistema de recompensa. Pesquisas de Harvard mostram que a dopamina liberada ao receber uma curtida ou comentário em redes sociais é comparável, em termos de intensidade, à dopamina liberada durante o uso de drogas como cocaína. Quando esses estímulos são subitamente removidos, o cérebro entra em um estado de abstinência.
Estudos sobre abstinência de redes sociais documentam que os primeiros três a sete dias são os mais difíceis. Usuários relatam sintomas físicos reais, incluindo aumento da frequência cardíaca, sudorese nas mãos e até pequenas elevações na pressão arterial. Esses são marcadores fisiológicos da resposta ao estresse do corpo, semelhantes ao que ocorre em outras formas de abstinência comportamental.
No entanto, passado esse período inicial crítico, tende a ocorrer uma estabilização emocional significativa. "Em um primeiro momento, pode surgir um desconforto emocional, uma inquietação ou sensação de vazio, que não é causada pela ausência em si, mas pela retirada de um hábito que funcionava como regulador emocional externo. Esse período é transitório e costuma dar lugar a maior clareza mental", explica Dolgosky.
Ausência de notificações reduz ansiedade após período inicial de adaptação, segundo especialista — Foto: Reprodução/Freepik Atenção e concentração melhoram sem interrupções constantes
Um dos benefícios mais notáveis de ficar sem redes sociais por três meses está relacionado à capacidade cognitiva. Mafle observa que é comum notar melhora da atenção sustentada e da capacidade de concentração em tarefas mais longas. "A memória de trabalho também tende a se beneficiar, já que há menos interrupções externas", explica. Brunna também observa essa mudança em seus pacientes: "Estudos e observações clínicas mostram melhora progressiva da atenção sustentada, maior capacidade de concentração profunda e redução da dispersão cognitiva."
O motivo para essa melhora está no funcionamento cerebral. Com o uso constante de redes sociais, o cérebro opera em modo de multitarefa contínua, alternando rapidamente o foco entre diferentes estímulos. "Com menos interrupções, há um fortalecimento dos circuitos neurais ligados à aprendizagem e ao pensamento reflexivo", afirma a psicóloga.
Além disso, os psiclogos apontam que a ausência de interrupções digitais permite que o cérebro consolide memórias de forma mais eficaz. Pesquisas mostram que quando documentamos experiências nas redes sociais enquanto elas acontecem, nossa memória do evento real fica comprometida. O cérebro recebe a mensagem de que não precisa reter informações que estão armazenadas em outro lugar, resultando em déficits de memória tanto de curto quanto de longo prazo.
Atenção sustentada e capacidade de concentração melhoram sem interrupções constantes das redes — Foto: Reprodução/Freepik Memória se beneficia da pausa digital
A relação entre redes sociais e memória vai além da simples distração. Os especialistas explicam que o bombardeio constante de informações nas plataformas digitais pode sobrecarregar recursos cognitivos, dificultando a capacidade do cérebro de codificar memórias de forma eficaz.
Quando ficamos três meses sem redes sociais, como no caso dos participantes do BBB, o cérebro tem a oportunidade de processar experiências de maneira mais completa. Sem a interrupção de pausar momentos para fotografar ou postar, a atenção fica totalmente direcionada à experiência em si, permitindo melhor consolidação da memória.
Memória de trabalho se beneficia quando há menos estímulos digitais competindo por atenção — Foto: Reprodução/Freepik O cérebro reduz a dependência da "dopamina rápida" das redes
Um dos aspectos mais interessantes de ficar três meses sem redes sociais é como o sistema de recompensa do cérebro se recalibra. Mafle explica que as redes sociais estimulam picos rápidos e frequentes de dopamina associados à novidade e à validação social. "Quando esse processo é interrompido por um período prolongado, o cérebro reduz a dependência dessas recompensas imediatas", diz.
Esse processo de recalibração não acontece imediatamente nem é confortável. Em um primeiro momento, pode gerar sensações de apatia e falta de motivação. "Mas, com o tempo, tende a abrir espaço para prazeres mais estáveis, como conversas em que a pessoa está mais presente, atividades físicas, leitura e momentos de reflexão", destaca o psicólogo.
O conceito de "dopamina rápida" refere-se a recompensas instantâneas que não exigem esforço significativo. No mundo moderno, estamos expostos a uma "mangueira de incêndio de dopamina" através de redes sociais, açúcar, streaming de vídeos e outras fontes de gratificação instantânea. "A dopamina deixa de ser liberada em picos artificiais e passa a responder mais a experiências reais, internas e duradouras. Emocionalmente, isso pode gerar inicialmente uma sensação de tédio ou apatia, mas depois favorece maior prazer em atividades simples, relações humanas, criatividade e presença.", explica Dolgosky.
Essa abundância de estímulos dopaminérgicos cria um desequilíbrio no sistema prazer-dor do cérebro. Com uso repetido, precisamos de doses cada vez maiores apenas para nos sentirmos normais, não necessariamente felizes. Após três meses sem redes sociais, o cérebro começa a encontrar satisfação em recompensas que exigem trabalho inicial, como tocar um instrumento musical, cozinhar uma refeita elaborada ou praticar um hobby. Essas atividades liberam dopamina de forma mais gradual e sustentada, mantendo o equilíbrio geral do sistema de recompensa. O resultado é uma sensação de bem-estar mais estável e menos dependente de estímulos externos constantes.
Confinamento versus detox digital: diferenças importantes
Embora o confinamento do BBB resulte em abstinência de redes sociais, é importante reconhecer que esse ambiente apresenta desafios únicos que não existem em um detox digital voluntário. Mafle alerta que o confinamento prolongado pode gerar efeitos negativos no corpo mesmo sem redes sociais.
"O confinamento prolongado pode aumentar os níveis de estresse físico e psicológico, especialmente quando há privação de privacidade, conflitos interpessoais, alterações do sono e redução da autonomia", explica. Mesmo sem redes sociais, o corpo pode reagir com tensão muscular, alterações hormonais, fadiga e oscilações de humor.
Essa observação é fundamental para entender que a ausência de redes não elimina automaticamente todos os fatores de estresse. "O próprio confinamento gera outros pontos de pressão", destaca o psicólogo. No caso do BBB, os participantes estão sob vigilância constante de câmeras, convivem 24 horas por dia com desconhecidos que se tornam competidores, e não têm controle sobre aspectos básicos da rotina.
Além disso, o confinamento limita o acesso a estratégias comuns de regulação emocional, como caminhadas ao ar livre, contato com a natureza ou tempo sozinho para processar emoções. No BBB especificamente, a competição constante e a necessidade de estar "sempre ligado" para as câmeras podem criar um tipo diferente de hiperestimulação, substituindo a das redes sociais.
Portanto, enquanto a ausência de redes sociais traz benefícios cognitivos e emocionais claros, os participantes de reality shows enfrentam uma situação complexa onde esses benefícios podem ser parcialmente contrabalançados pelos estresses únicos do confinamento. É uma experiência bem diferente de alguém que escolhe fazer um detox digital voluntário enquanto mantém sua rotina normal de vida.
Confinamento prolongado pode gerar estresse mesmo sem redes sociais, alerta psicólogo — Foto: Divulgação/TV Globo O choque do retorno: quando o celular volta às mãos
Um dos momentos mais críticos neurologicamente é quando o participante volta a ter acesso ao celular depois de três meses sem usar. Mafle descreve esse retorno como "um impacto psicológico intenso e imediato, quase como um retorno ao uso de uma droga".
Pode surgir uma sensação de sobrecarga, porque o cérebro passa abruptamente de um ambiente com pouco ou nenhum estímulo digital para um volume muito alto de informações, notificações, mensagens e demandas sociais. "Isso pode gerar ansiedade, dificuldade de concentração e uma sensação de desorientação", alerta o psicólogo.
No caso específico de participantes de reality shows, esse impacto tende a ser ainda maior. Eles não apenas retornam ao uso do celular, mas passam a receber um volume exponencialmente maior de mensagens do que recebiam antes, já que estão agora mais expostos e conhecidos publicamente. Podem ter ganhado centenas de milhares ou até milhões de seguidores durante o confinamento, criando uma pressão social sem precedentes. "O cérebro, mais sensível após o período de recalibração, pode reagir com sobrecarga, ansiedade ou sensação de invasão", complementa a psicóloga.
O especialista também explica que também pode surgir um impulso ou uma compulsão pelo uso do celular, como checar redes sociais de forma ininterrupta e sentir uma necessidade constante de atualização. "Os circuitos de recompensa são reativados rapidamente após esse período de abstinência, o que leva à busca por validação social", diz Mafle.
Além disso, há um fator emocional adicional único para participantes de reality shows: o confronto com a imagem pública construída enquanto estavam dentro da casa. "Eles não sabem exatamente o que vão encontrar: críticas, elogios, memes e julgamentos. Esse choque pode provocar forte impacto emocional, oscilações de humor, queda de autoestima em alguns casos ou, em outros, uma euforia excessiva", explica Mafle.
A transição abrupta do confinamento total para a hiperconexão digital, combinada com a exposição pública intensa, cria uma tempestade perfeita de estressores neurológicos. Por isso, muitos programas de reality show ao redor do mundo começaram a oferecer suporte psicológico especializado para participantes durante esse período de readaptação, reconhecendo que o retorno ao mundo digital após meses de abstinência não é trivial. "Com algum nível de reflexão, esse retorno pode se tornar mais seletivo, crítico e saudável", conclui Dolgosky.
Retorno ao celular após três meses gera impacto psicológico intenso, comparável a recaída em comportamento aditivo — Foto: Reprodução/Freepik Como aplicar esses aprendizados na sua vida
Mesmo sem participar de um reality show, é possível se beneficiar de alguns insights sobre a relação entre redes sociais e saúde cerebral. Especialistas recomendam que períodos estratégicos de detox digital podem trazer benefícios significativos para o bem-estar mental. Pesquisas mostram que até pausas curtas fazem diferença.
Se um mês sem redes sociais parece muito desafiador, comece com estratégias menos radicais mas efetivas. Desligue notificações de apps sociais, estabeleça horários específicos para checar redes (por exemplo, apenas às 12h e às 18h), e crie barreiras físicas, como não manter o celular no quarto durante a noite. Substitua o tempo de tela por atividades que liberam dopamina de forma mais saudável: exercícios físicos, contato com a natureza, hobbies criativos e interações presenciais.
O objetivo não é necessariamente eliminar redes sociais permanentemente, mas desenvolver uma relação mais consciente e equilibrada com essas plataformas. Afinal, como demonstra a experiência dos participantes do BBB, nosso cérebro é notavelmente adaptável. Três meses podem parecer uma eternidade no mundo hiperconectado de hoje, mas representam uma oportunidade fascinante de observar como o cérebro humano se comporta quando dado tempo e espaço para operar sem a estimulação digital constante.
Especialistas recomendam pausas estratégicas de redes sociais; duas semanas já trazem melhorias mensuráveis — Foto: Reprodução/Freepik
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