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- Author, Paula Rosas
- Role, BBC News Mundo
Há 9 minutos
Tempo de leitura: 10 min
Trump não é o primeiro presidente americano a intervir na região.
Seus antecessores, George Bush (pai e filho) e Barack Obama (2009-2017), já haviam intervido na região, derrubando Saddam Hussein no Iraque ou Muamar Gaddafi na Líbia, autocratas cuja queda não trouxe democracia ou liberdade a seus países, mas um período de guerra civil e instabilidade que dura até hoje.
Na Síria, os EUA ajudaram a derrotar o autodenominado Estado Islâmico, mas, após a queda de Bashar al-Assad em 2024, outros grupos islamistas tomaram o poder sem participação direta americana.
Enquanto isso, no Afeganistão, o regime do Talebã voltou ao poder em 2021, após quase duas décadas de intervenção americana no país.
Em um artigo famoso de 2015, Philip Gordon, diplomata e assessor de segurança durante o governo Obama, resumiu assim as intervenções dos EUA na região:
"No Iraque, os EUA intervieram e ocuparam o país, e o resultado foi um desastre muito caro. Na Líbia, os EUA intervieram, mas não ocuparam o país, e o resultado foi um desastre muito caro. Na Síria, os EUA não intervieram nem ocuparam o país, e o resultado é um desastre muito caro."
Caro não apenas para os próprios EUA, mas para toda a região, afirmam os especialistas.
"A instabilidade na região se deve em grande parte às intervenções externas", explicou Ibrahim Awad, professor de Assuntos Globais da Universidade Americana do Cairo, no Egito, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Embora Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria e Iêmen fossem países com graves problemas de governança ou regimes autoritários, esses não eram problemas que, na opinião de Awad, "pudessem ser resolvidos por uma intervenção estrangeira".
Nas últimas décadas, os EUA intervieram militarmente em vários países do Oriente Médio e do norte da África, às vezes como principal ator e outras com um papel mais limitado ou como parte de uma coalizão mais ampla.
Relembramos aqui as principais.
Iraque (1991 e 2003–2011)
Nas últimas décadas, os EUA realizaram várias intervenções militares no Iraque.
Quando o país, liderado por Saddam Hussein (1937-2006), invadiu o Kuwait em 1990 para assumir o controle de seus recursos petrolíferos e fortalecer sua posição regional, uma coalizão militar liderada pelos EUA e apoiada pela Organização das Nações Unidas (ONU) mobilizou sua enorme superioridade militar na chamada Operação Tempestade no Deserto.
Com uma intensa campanha aérea e uma rápida intervenção terrestre, a coalizão conseguiu libertar o Kuwait e expulsar os iraquianos em poucas semanas.
Hussein permaneceu no poder, mas o país passou a enfrentar sanções e um período de instabilidade interna que aumentou tensões sectárias.
A operação foi considerada um sucesso militar que restabeleceu o direito internacional.
Por ter sido a primeira após a queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da Guerra Fria (1991), a Guerra do Golfo (1990-1991) também inaugurou uma nova era de intervenções militares dos EUA, estabelecendo uma ordem mundial em que os EUA não tinham rival.
Em 2003, outra coalizão liderada pelos EUA e pelo Reino Unido invadiu o Iraque alegando que o regime possuía armas de destruição em massa e tinha vínculos com o terrorismo internacional. Essas armas nunca foram encontradas.

Crédito, Scott Nelson/Getty Images
No entanto, o país mergulhou em uma profunda crise de violência, alimentada pela insurgência, pela disputa sectária entre sunitas, xiitas e curdos e pelo surgimento de grupos extremistas que levaram à criação do autoproclamado Estado Islâmico, que entre 2014 e 2015 chegou a controlar um terço do território do Iraque e metade do da Síria.
A falta de um plano sólido para o período após a invasão, somado a erros estratégicos como o desmantelamento do Exército e das forças de segurança iraquianas, que deixou milhares de homens armados desempregados, muitos dos quais se juntaram à insurgência, contribuiu para a instabilidade que ainda afeta o país.
Segundo o projeto Iraq Body Count, que registra as mortes no país desde 2003, pelo menos 300 mil pessoas morreram, entre civis e combatentes, como consequência direta da violência. Outras organizações consideram que o número é ainda maior.
A intervenção dos EUA "resultou em uma fragmentação do Iraque em linhas comunitárias, que negam um sistema político democrático, moderno e laico, e em uma guerra civil na qual centenas de milhares perderam a vida e na qual surgiram organizações como o ISIS (Estado Islâmico)", resume Awad, da Universidade Americana do Cairo.
Afeganistão

Crédito, Universal History Archive/Universal Images Group via Getty Images
Em 2001, os EUA lançaram no Afeganistão, em coalizão com outros países membros da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a Operação Liberdade Duradoura contra o regime do Talebã.
Os EUA decidiram invadir depois que esse movimento fundamentalista islâmico, que havia assumido o controle do país em 1996, se recusou a entregar Osama bin Laden, líder do grupo Al Qaeda responsável pelos ataques de 11 de Setembro contra as torres gêmeas de Nova York e o Pentágono.
A intervenção derrubou o regime comandado pelo Talebã em poucas semanas e instalou um novo governo apoiado pela comunidade internacional, mas isso não pôs fim à guerra.
O conflito se prolongou por mais de duas décadas porque membros do Talebã, longe de desaparecer, conseguiram se reorganizar e continuar combatendo as tropas dos EUA e da Otan.
Em 2020, com muito território já perdido, os EUA negociaram com lideranças do Talebã sua retirada do país, iniciada em maio do ano seguinte e acelerada após a tomada de Cabul, capital do Afeganistão, pelos islamistas em agosto de 2021.
A guerra no Iraque, iniciada em 2003, desviou muita atenção e recursos militares americanos do Afeganistão.
Além disso, o objetivo principal passou de combater a Al Qaeda para um projeto de "construção nacional", para o qual, como também ocorreu no Iraque, a intervenção não tinha uma estratégia clara nem consenso sobre como realizá-lo.
O novo exército e a força policial criados após a queda do regime então comandado pelo Talebã eram muito frágeis e dependiam do financiamento e do apoio das forças ocidentais. Por isso, colapsaram rapidamente quando essas forças se retiraram e não conseguiram conter o avanço dos fundamentalistas, que voltaram o poder.
Mais de 176 mil pessoas morreram (entre civis, militares afegãos, combatentes do Talebã e tropas ocidentais) como resultado direto dos 20 anos de intervenção americana e da violência ligada a esse conflito, segundo o projeto Costs of War, da Universidade Brown, dos EUA.
Esse cálculo não inclui mortes por doenças ou fome relacionadas à instabilidade, que, segundo outras estimativas, seriam ainda maiores.
Líbia

Crédito, Mario Tama/Getty Images
O então líder da Líbia Muamar Gaddafi foi outro ditador derrubado após uma intervenção militar da qual os EUA participaram em 2011.
Sua queda ocorreu no contexto da Primavera Árabe, quando protestos populares contra o regime que Gaddafi liderava com mão de ferro desde 1969 foram reprimidos com violência.
Isso desencadeou um conflito entre as forças do regime e grupos rebeldes, que se espalhou por todo o país.
Em resposta, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma zona de exclusão aérea e os EUA se uniram a uma coalizão, que também incluía aliados da Otan como Reino Unido e França, para ajudar os rebeldes, proteger a população civil e bombardear tropas do regime.
Os rebeldes conseguiram tomar Trípoli, capital da Líbia, e capturar e depois matar Gaddafi em outubro de 2011. Mas, como ocorreu no Afeganistão e no Iraque, o conflito não terminou ali.
A queda de Gaddafi deixou um vazio de poder para o qual a coalizão não tinha uma solução. Também facilitou o surgimento de vários grupos armados e milícias, incluindo grupos extremistas como o Estado Islâmico.
As tropas internacionais, que não queriam uma nova intervenção longa e custosa, encerraram as operações de combate após a morte do ditador e passaram apenas a oferecer apoio e treinamento, com ataques aéreos pontuais contra extremistas.
Para Awad, da Universidade Americana do Cairo, a intervenção na Líbia foi feita "sem qualquer plano para governar o país, o que também resultou em conflito interno", e com sérias repercussões econômicas, porque a Líbia era um país exportador de petróleo e receptor de migrantes.
Hoje, o país segue dividido e instável, com um Governo de Unidade Nacional em Trípoli, reconhecido internacionalmente, mas sem controle total do território, fragmentado entre diferentes estruturas de poder.
Síria

Crédito, DELIL SOULEIMAN/AFP via Getty Images
A Síria também foi sacudida pela Primavera Árabe, a onda de protestos populares que buscava democracia e o fim de regimes autoritários em vários países árabes em 2011.
O regime de Bashar al-Assad reprimiu protestos pacíficos com violência, desencadeando uma guerra civil que durou mais de 15 anos e que, apesar da queda do regime, ainda não terminou.
O conflito se transformou em uma guerra complexa com atores internos e externos.
Uma constelação de grupos distintos, como milícias aliadas do regime, rebeldes moderados, forças curdas e grupos fundamentalistas islâmicos como a Al Qaeda e o Estado Islâmico, disputaram o território, mudando constantemente o mapa de poder do país.
Mas eles não estavam sozinhos: Rússia e Irã apoiaram militarmente o regime de Assad, enquanto a Turquia armou e treinou grupos rebeldes sunitas em sua luta contra as forças governamentais.
Em 2014, os EUA também entraram no conflito com o objetivo principal de combater o Estado Islâmico, que chegou a controlar metade da Síria e um terço do Iraque, onde treinava terroristas que depois cometeram atentados na Europa e em outros lugares.
Os bombardeios americanos enfraqueceram os extremistas, que perderam o controle territorial da Síria e cujas forças, embora não tenham desaparecido completamente, ficaram muito debilitadas.
Os EUA também prestaram apoio a grupos rebeldes, principalmente às Forças Democráticas Sírias, no Curdistão.
Durante o primeiro mandato de Donald Trump, inclusive, foram realizados ataques pontuais em 2017 com mísseis Tomahawk para punir o governo de Bashar al-Assad por supostos ataques químicos contra a população civil, embora não tenham buscado diretamente derrubar o regime.
Em contraste, anos antes, Obama foi criticado por não agir com mais firmeza quando o regime sírio ultrapassou as "linhas vermelhas" estabelecidas pelos EUA e usou armas químicas contra sua própria população em 2013.
Obama também foi criticado por não ter sido mais duro com o líder sírio, que, graças ao apoio da Rússia, conseguiu permanecer no poder até que, no fim de 2024, o grupo rebelde Hayat Tahrir al-Sham, liderado por Ahmed Sharaa, chegasse a Damasco, capital da Síria, e o regime colapsasse como um castelo de cartas.
Os EUA estabeleceram relações com o novo governo interino liderado por Sharaa, um ex-líder da Frente Nusra (ou Jabhat al-Nusra), antiga filial da Al Qaeda, da qual depois se separou, e por quem os EUA chegaram a oferecer uma recompensa de US$ 10 milhões (cerca de R$ 50 milhões).
Apesar da redução da violência, o país permanece profundamente dividido e em um equilíbrio muito frágil.
Iêmen

Crédito, Getty Images
Os EUA também intervieram várias vezes no Iêmen com operações antiterrorismo contra Al Qaeda na Península Arábica desde os ataques de 11 de setembro.
O país mergulhou em guerra civil em 2014, quando os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, tomaram a capital, Sanaa.
Em 2015, uma coalizão de países árabes liderada pela Arábia Saudita interveio contra os rebeldes. Os EUA venderam armas e forneceram apoio logístico e de inteligência, embora não tenham enviado tropas.
O movimento xiita houthis controla hoje cerca de 30% do território do país, onde impuseram um regime fundamentalista acusado de violações de direitos humanos.
No contexto da guerra em Gaza, o grupo lançou ataques contra navios no Mar Vermelho. Em resposta, os EUA, em coordenação com aliados como o Reino Unido, bombardearam posições e infraestruturas militares houthis para proteger o transporte marítimo.
O Iêmen é o país mais pobre do Oriente Médio e enfrenta uma grave crise humanitária agravada por anos de instabilidade.
Até 2023, mais de 377 mil pessoas haviam morrido, segundo a organização Campaign Against Arms Trade, a maioria por causas indiretas da guerra, como fome, doenças e falta de acesso a serviços básicos.
Quase 80% da população depende de ajuda humanitária para sobreviver, e mais de 4 milhões de crianças estão fora da escola, segundo dados da ONU.

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