Embora pareça inofensivo, o ato de bloquear e desbloquear contatos no WhatsApp, especialmente quando acontece repetidamente, pode revelar dificuldades de lidar com conflitos emocionais. Do ponto de vista de especialistas, esse recurso tem seus prós e contras. Enquanto por um lado, é encarado como uma medida de proteção e segurança, evitando (ou limitando) contatos indesejados — extremamente útil principalmente diante de relações tóxicas e abusivas —, por outro, revela uma estratégia rápida e impulsiva de aliviar tensões. Para entender como isso se tornou um gesto emocional, o TechTudo conversou com o psicólogo especialista Luiz Mafle, professor de Psicologia e Doutor em Psicologia pela PUC Minas e Universidade de Genebra. Entenda a seguir.
Bloquear e desbloquear contato no WhatsApp pode se tornar ciclo vicioso — Foto: Reprodução/Canva Por que bloquear alguém no WhatsApp virou um gesto emocional?
O bloqueio no WhatsApp é um recurso que pode ser feito e desfeito instantaneamente, sem muitos segredos. Tal função pode ser extremamente útil para fins de privacidade e segurança, impedindo contatos indesejados, seja vindo de pessoas desconhecidas ou daquelas que deseja que não tenham mais acesso — pelo menos virtual — a você. No entanto, essa possibilidade de bloquear e desbloquear quando bem entende pode perder a mão e se tornar um ciclo vicioso, permitindo e impedindo virtualmente que pessoas façam parte da sua vida.
Essa decisão está biologicamente relacionada à forma que nosso cérebro reage a frustrações. Diante dessas situações, o córtex pré-frontal, região responsável por regular o comportamento e as decisões, fica parcialmente desligada. “Por isso, bloquear alguém pode parecer uma reação automática para aliviar a tensão, mesmo que depois traga arrependimento”, complementa. O psicólogo explica que trata-se de uma estratégia de alívio rápido, “mas, se não vier acompanhada de reflexão, tende a gerar mais ansiedade, arrependimento e dependência emocional”.
Esse gesto também tem relação com o estilo de “apego ansioso”, explica Dr. Luiz: “Pessoas com apego ansioso tendem a ter relações mais intensas e instáveis, sempre marcadas pelo medo da rejeição. O bloqueio pode surgir como uma tentativa de proteção e, por outro lado, também como uma forma de testar o outro, como se dissesse: “vamos ver se essa pessoa vem atrás”. Já o desbloqueio reflete o medo de perder o vínculo, numa oscilação entre afastamento e busca de reconexão”.
Bloquear e desbloquear no WhatsApp pode ter relação com o estilo de “apego ansioso”; entenda — Foto: Reprodução/Mariana Tralback O que especialistas apontam como sinais de alerta
O ato de bloquear serve para se proteger de certas situações, mas não deve ser feito por impulso, mas, sim, de forma ponderada e calculada. Além disso, por mais que seja possível fazer o desbloqueio em caso de arrependimento, a pessoa bloqueada pode guardar ressentimento e a relação nunca mais voltar a ser a mesma.
A comunicação deve ser o primeiro caminho, mas caso não funcione, para evitar o desgaste da relação, o bloqueio pode ser uma saída. Porém, isso deve ser feito com cautela e intenção. Esse ciclo tóxico de bloquear e desbloquear repetidamente não deve ser usado como uma arma para atacar pessoas aplicando a “punição do silêncio”, pois isso reflete imaturidade emocional.
Quando pode ser saudável?
A funcionalidade de bloqueio no WhatsApp e demais redes sociais tem seus prós e contras do ponto de vista emocional. Como já pontuamos acima, é uma ferramenta poderosa para impedir interações digitais indesejadas e até mesmo para proteger sua paz de espírito.“É bem possível fazer esse bloqueio de uma forma saudável, especialmente se você estiver dentro de uma relação que é muito abusiva ou tóxica, e na qual esse bloqueio pode ser a única maneira de você se ver distante da pessoa, para que ela não tenha acesso a você, para que ela não tente te manipular mais”, pontua Mafle.
Porém, quando o ato de bloquear é usado para atingir outra pessoa pode se tornar uma armadilha psicologicamente tóxica para ambos lados, estando intrinsecamente relacionado à impulsividade (de não saber se controlar diante de frustrações) e de abuso de poder (pois você silencia outra pessoa sem lhe dar o direito da comunicação). Até existe a possibilidade de resolver a situação com um desbloqueio, mas nunca se sabe se será tarde demais ou se a outra pessoa estará disposta a retomar o contato.
Mas, de todo modo, segundo o especialista, o diálogo sempre é a melhor escolha e o bloqueio deve ser usado como último caso. “Ainda é saudável fazer um diálogo, se é uma pessoa que vale a pena ter uma conversa para chegar a melhores acordos. É melhor não utilizar esses artifícios”, conclui.
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1 mês atrás
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