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O que há num sobrenome?

Empate técnico. As pesquisas sugerem que a candidatura de Flávio Bolsonaro, lançada como ferramenta de controle da direita pelo Bolsonaro sênior, tornou-se competitiva. Como decifrar seu significado para a democracia brasileira?

Joel Pinheiro argumentou que a democracia precisa de "um bolsonarismo moderado". Depois, opinou que a candidatura do 01 poderia representar tal entidade. Numa réplica, Celso de Barros apontou no fracasso da "estratégia da direita brasileira" de moderar o bolsonarismo a fonte da coroação do filho pródigo. "Flávio é golpista", cravou.

A palavra "moderado", bem como sua antítese, "radical", turvam o olhar. As democracias estáveis comportam correntes "radicais" sem entrar em colapso –e, aliás, têm o hábito de moderá-las. Veja-se, na direita, Milei (Argentina), Kast (Chile) ou Meloni (Itália). E, na esquerda, Mujica (Uruguai), Boric (Chile) ou Tsipras (Grécia). Além disso, o bolsonarismo não é moderado nem radical, mas reacionário. O termo, no caso, sintetiza um diagnóstico histórico preciso, não uma ofensa.

A pergunta relevante: como fica a democracia diante da candidatura reacionária do Bolsonaro substituto? Ou, de modo mais brutal: Flávio é golpista?

O discurso militante tem a resposta pronta, assentada sobre critérios peculiares: o objetivo de anistiar a quadrilha golpista, a pretensão de promover o impeachment de juízes do STF ou o alinhamento internacional com Trump. Nesse passo, a análise política cede lugar à campanha eleitoral.

A Constituição atribui ao Congresso a prerrogativa de anistiar –e, ao contrário do que alegou um outro Flávio, o criativo Dino, não exclui o perdão por crime de golpismo. Uma anistia seria um grave erro político, mas não um golpe. O Senado tem o direito legal de impedir ministros do STF. Numa deliberação desse tipo, votariam juntos senadores imbuídos de motivação "republicana" ou do desejo de "vingança" (para usar os termos escolhidos por Celso de Barros). Quanto ao mais, lamentavelmente, inúmeros governantes de países democráticos da América Latina perfilam-se atrás de Trump.

É golpista? Lula não é golpista por adorar ditadores "companheiros", chamem-se Castro, Maduro ou Putin. Os testes legítimos sobre o 01 não giram em torno de ideologia, mas de sua postura diante do edifício institucional e legal da democracia.

Flávio tem o direito de apresentar um projeto de lei para trocar as urnas eletrônicas pelo "voto impresso auditável", assim como poderia propor a substituição da luz elétrica por lampiões a querosene. Mas, se o Congresso recusar a ideia piramidal, deve curvar-se aos resultados. Tem, ainda, o direito de trabalhar pelo impeachment de juízes de capa preta no foro do Senado. Não pode, porém, nem de brincadeira, ameaçar o STF com a mobilização de "um cabo e um soldado". E, sobretudo, precisa aceitar que as Forças Armadas não desempenham nenhuma função política.

Sobrenome é destino? A resposta, de interesse nacional, não cabe a Joel ou Celso, mas a Flávio. Se o 01 seguir os rastros do 00, seu destino, cedo ou tarde, será compartilhar as instalações que abrigam o progenitor. Mas ele dispõe de livre arbítrio: não é escravo de uma maldição ou alguma "lei da História". Demorará pouco para conhecermos sua resposta.

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