2 horas atrás 3

O que muda quando há mais mulheres na sala de aula?

Eu estive em Barbados na semana passada. A ilha, colonizada pelos ingleses e cercada pelo mar do Caribe, apresenta diferentes tonalidades de verde e azul, do verde-água ao azul-turquesa, até os tons mais escuros. A temperatura da água remete às praias do Nordeste brasileiro. Em uma das noites, estive em um mercado de peixes frequentado por turistas e moradores locais. Entre barracas de peixe, pequenos restaurantes e estabelecimentos comerciais, formou-se uma pista de dança. Foi bonito ver os casais dançando ao som da música local, o spouge.

Participei de uma conferência sobre gênero e família na University of the West Indies, organizada pelo comitê de Mulheres Economistas na América Latina e no Caribe (WELAC) da Associação de Economia da América Latina e do Caribe (Lacea). Apresentei um artigo acadêmico e assisti a diversas apresentações.

Em meio à paisagem caribenha e às conversas da conferência, um dos artigos apresentados me chamou particularmente a atenção. O estudo analisa como o ambiente universitário e os resultados acadêmicos podem ser afetados pela composição de gênero na sala de aula, em especial pelo aumento do número de colegas mulheres: "Student Gender Composition and University Climate".

As autoras, Silvia Grisela, Paola Profeta e Giulia Savio, analisam o ambiente universitário a partir de três dimensões: a conformidade com atitudes e percepções relacionadas à masculinidade, o impacto percebido da saúde mental (preocupação e ansiedade) sobre o desempenho acadêmico e as interações em sala de aula. À primeira vista, a ideia pode soar contraintuitiva. Por que uma maior interação com colegas mulheres teria impacto sobre o ambiente universitário? Para responder a essa pergunta, as autoras utilizam dados de uma universidade italiana localizada no norte do país.

A pergunta dialoga com uma literatura já consolidada que mostra que, em geral, os homens tendem a ser mais competitivos do que as mulheres e que elas podem agir de forma diferente quando estão em minoria, o que pode afetar suas aspirações, seu sentimento de pertencimento e seus resultados acadêmicos. O artigo complementa esse debate ao analisar como a composição de gênero entre colegas influencia o ambiente universitário.

O artigo utiliza dados administrativos que fornecem informações sobre o desempenho acadêmico, incluindo notas, além de uma pesquisa que capta a conformidade dos estudantes com atitudes relacionadas à masculinidade, o impacto percebido da saúde mental sobre o desempenho acadêmico e as dinâmicas em sala de aula.

Os resultados mostram que uma maior exposição a colegas mulheres reduz significativamente atitudes relacionadas à masculinidade e o impacto percebido da saúde mental sobre o desempenho acadêmico, ao mesmo tempo em que melhora os resultados acadêmicos, especialmente nos exames de disciplinas quantitativas, e as interações em sala de aula.

Além disso, reduz a probabilidade de mudança para outra área de estudo no nível de mestrado. Esse último resultado traz uma implicação importante para carreiras em STEM e em economia, áreas nas quais a proporção de mulheres ainda é baixa. Talvez isso ajude a explicar por que, à medida que avançamos nos diferentes níveis da pós-graduação, a participação feminina diminui.

Surpreendentemente, os resultados da pesquisa mostram efeitos positivos tanto para mulheres quanto para homens, que se beneficiam de maior diversidade de gênero em seus grupos de colegas. Isso sugere que um maior equilíbrio na composição de gênero em sala de aula pode ser benéfico para todos, ao melhorar o clima universitário e o desempenho acadêmico.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro