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O silêncio que tinha preço

Segundo dados da Receita Federal encaminhados à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado no Senado, os pagamentos do Banco Master a figuras de autoridade e consultores ligados ao poder público somaram dezenas de milhões só em 2025. Os valores são públicos. Os nomes também.

Ninguém é acusado de crime por prestar consultoria. Mas quando um banco que operava com carteiras fictícias e CDBs a 140% do CDI contratava, simultaneamente, dezenas de figuras do poder público e político, a pergunta que qualquer conselho de administração faria é: consultoria de quê, exatamente?

O preço do acesso

No meu artigo anterior, perguntei onde estavam os agentes públicos que transitavam por resorts, jatinhos e contratos milionários, tudo tratado como normalidade institucional. Agora a resposta está na mesa: estavam na folha de pagamento.

Na quarta-feira, o presidente do Banco Central depôs na CPI e revelou que, no dia da liquidação, o Master tinha em caixa apenas 10% do que precisava para pagar os investidores. Dez por cento. Ele também descreveu o modelo de negócio do banco com uma metáfora que dispensa análise técnica: "É como perguntar para alguém: por que você está comprando um carro? E ela responder: porque estou precisando de dinheiro."

Um banco que comprava ativos para revendê-los superfaturados, que emitia CDBs novos para pagar os antigos, que cresceu de R$ 4 bilhões para R$ 80 bilhões em cinco anos enquanto dezenas de figuras do poder público recebiam milhões em "consultorias".

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O silêncio, afinal, tinha preço.

A blindagem como sistema

O Banco Central impôs sigilo de oito anos sobre os documentos da liquidação. Segundo o presidente da instituição, é procedimento padrão, aplicado a todas as liquidações desde 2018. Pode ser verdade. Mas quando o sigilo chega depois de um rombo de mais de R$ 50 bilhões, depois de fraudes que atingiram mais de 1 milhão de investidores, depois de pagamentos milionários a figuras do poder, o procedimento padrão deixa uma pergunta incômoda: quem exatamente ele protege?

Internamente, o próprio BC afastou dois servidores de carreira com quase três décadas de serviço por indícios de recebimento de vantagens indevidas. Ou seja: a contaminação não estava apenas do lado de fora. Estava dentro da estrutura que deveria fiscalizar.

Isso não é exclusivo do sistema financeiro. Em organizações de todos os portes, existe uma versão dessa dinâmica. O fornecedor que ganha o contrato não pelo preço, mas pela proximidade. O conselheiro convidado não pela competência, mas pela agenda de contatos. O executivo que fecha os olhos para um problema porque o problema sustenta uma relação que lhe convém. A diferença é que, no Banco Master, os números foram revelados. Na maioria das organizações, eles ficam enterrados em rubricas que ninguém questiona.

A conta que não fecha

A CPI tem até terça-feira para encerrar os trabalhos. Há quem peça prorrogação. Há quem queira CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito). Há quem prefira que tudo termine em silêncio, como começou.

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Enquanto isso, mais de 1 milhão de pessoas aguardam ressarcimento do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Pensionistas, aposentados, pessoas comuns que confiaram num sistema que prometia segurança e entregou exatamente o contrário.

No primeiro artigo, eu disse que a pergunta correta nunca foi "como ninguém viu?". A pergunta correta é "por que quem viu não agiu?".

Agora existe uma terceira pergunta, mais incômoda que as anteriores: quanto custou para que não agissem?

A conta, como sempre, não ficou com eles.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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