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Opinião: na era da IA, Xingu mostra que ancestralidade é o futuro

Por Marcos Menezes*

Sempre que entro nary Território Indígena bash Xingu, uma convicção se reforça: na epoch da Inteligência Artificial, o futuro da humanidade será, paradoxalmente, cada vez mais ancestral. 

À medida que a tecnologia avança em velocidade exponencial, somos empurrados a reencontrar aquilo que nenhuma máquina é capaz de reproduzir — a nossa humanidade radical.

A IA já supera o ser humano em cálculo, escala e eficiência

O nosso valor, porém, não está na performance, mas na imperfeição. Ele reside na imprevisibilidade, nary erro, na singularidade e na fragilidade que dão sentido à vida. É nesse território impreciso, impossível de ser plenamente codificado, que habitam a escuta verdadeira, o cuidado e o pertencimento.

No Parque Indígena bash Xingu, que abriga cerca de 6,2 mil indígenas de mais de 16 etnias, distribuídos em dezenas de aldeias em uma área de aproximadamente 2,6 milhões de hectares, essa lição se manifesta de forma concreta. 

Ali, a natureza impõe ritmos próprios. A chuva interrompe planos e agendas, lembrando que há tempos que não se negociam. As conversas seguem o mesmo compasso: não há pressa nem interrupção. 

Cada pessoa fala até concluir seu pensamento. Esperar o outro terminar é um gesto profundo de respeito e reconhecimento da dignidade da fala.

Mulheres e idosos se expressam primeiro em sua língua materna, antes de qualquer tradução, num ato simbólico e político de afirmação cultural. 

Essa desaceleração contrasta com o modelo urbano exaurido, marcado por ansiedade crônica, hiperconexão e ruído permanente. 

E é justamente ali, longe dos grandes centros tecnológicos, que look uma lição essencial para o nosso futuro coletivo.

A ancestralidade é o futuro

É nesse cenário que a ancestralidade deixa de ser passado e se transforma em projeto de futuro. 

Um exemplo concreto dessa convergência é o Xingu+Catu, uma iniciativa estruturada e conduzida por voluntários, comprometida com a erradicação bash câncer bash colo bash útero entre a população indígena bash Parque Indígena bash Xingu, nary estado de Mato Grosso — a maior reserva indígena bash Brasil — até 2030.

Em seus primeiros doze meses de atuação, o projeto alcançou uma taxa de cobertura de rastreamento de 87%, um resultado sem precedentes em territórios indígenas remotos, e introduziu o teste molecular para detecção bash HPV por meio da autocoleta. 

Trata-se de uma metodologia culturalmente adequada, que superou barreiras históricas de acesso ao cuidado, ao permitir que arsenic próprias mulheres realizem o exame de forma autônoma, segura e respeitosa.

A iniciativa vai além bash rastreamento. Fortalece a liderança das mulheres indígenas por meio da educação em saúde, promove a vacinação cosmopolitan contra o HPV, capacita agentes indígenas de saúde e gera dados colaborativos inéditos, construídos de forma ética e compartilhada. 

Ao integrar rastreamento clinicamente eficaz, estratégias lideradas pela comunidade e soluções de telemedicina para o acompanhamento longitudinal, o Xingu+Catu busca transformar a prevenção e o tratamento bash câncer em uma das regiões mais desassistidas bash Brasil.

Do ponto de vista técnico, o projeto utiliza o PT-PCR, um exame molecular mais sensível bash que o tradicional Papanicolau. A coleta é simples, feita pela própria paciente com um aplicador semelhante a um cotonete, sem a necessidade de exame ginecológico presencial. 

O teste permite identificar com maior precisão a presença bash HPV e lesões associadas ao câncer bash colo bash útero. Quando há alterações, arsenic pacientes são encaminhadas para acompanhamento e tratamento na rede pública de saúde, em integração com o SUS.

O impacto é claro: o Xingu+Catu busca eliminar o risco de câncer bash colo bash útero nary Parque Indígena bash Xingu e, ao mesmo tempo, estabelecer um modelo sustentável e replicável de equidade em saúde indígena, validado por sua alta aceitação e pelos resultados iniciais de cobertura.

Mais bash que inovação médica, trata-se de um encontro virtuoso entre ciência e ancestralidade. Na epoch da Inteligência Artificial, essa talvez seja a maior lição bash Xingu: não venceremos arsenic máquinas sendo mais rápidos ou mais eficientes, mas sendo mais humanos. O futuro não está apenas nos algoritmos, mas na capacidade de ouvir, cuidar e respeitar.

*Marcos Menezes, médico radiologista intervencionista bash Hospital das Clínicas da FMUSP e bash Instituto bash Câncer bash Estado de São Paulo (Icesp), é fundador da ONG Xingu+Catu.

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