Da ameaça apocalíptica de um crime contra a humanidade ("uma civilização inteira morrerá esta noite") até a trégua humilhante transcorreram dez horas. Suzanne Maloney, da Brookings Institution, sugeriu que os EUA experimentam o seu "momento Suez". É a mais precisa avaliação sobre as consequências geopolíticas da guerra deflagrada por Trump e Netanyahu no Oriente Médio.
Há 70 anos, em 1956, como reação à nacionalização do Canal de Suez pelo Egito, Reino Unido e França ocuparam a faixa do canal, enquanto forças de Israel avançavam pela península do Sinai. O triunfo militar logo converteu-se em derrota política: condenada pelos EUA, a operação terminou com uma retirada desonrosa, após ameaças de intervenção da URSS. Naquele momento, apagou-se o brilho do Reino Unido, que apenas 11 anos antes figurara entre os Três Grandes na Conferência da Yalta.
O paralelo é impreciso. Como uma estrela distante, o brilho britânico era uma luz oriunda do passado. A crise de Suez colocou as coisas em seu devido lugar: depois dela, o Reino Unido recolheu-se à condição de potência regional, solicitando ingresso na Comunidade Europeia. No caso dos EUA, o "momento Suez" não é a manifestação de um declínio prévio, mas o irrefletido ato inaugural de uma derrocada.
Militarmente, EUA e Israel podem exibir uma vitória tão nítida quanto o da operação franco-britânica de 1956. Politicamente, nenhuma acrobacia retórica consegue ocultar o desastre estratégico.
O regime iraniano resistiu, sob dirigentes substitutos ainda mais inflexíveis. O ataque externo brecou o impulso do levante popular. O Irã não renunciou a seu programa nuclear, aos mísseis ou às milícias regionais coligadas. Mais: emerge de uma guerra assimétrica com o controle virtual do estreito de Hormuz –ou seja, com o poder de tomar como refém o mercado mundial de petróleo e gás.
Os EUA deixam o conflito como potência fora da lei. A palavra da Casa Branca repousa no fundo arenoso do Golfo Pérsico. Trump ordenou o ataque em meio a negociações diplomáticas. Ignorando o direito humanitário internacional, e imitando os iranianos, rotulou infraestruturas civis como alvos legítimos. Ameaçou apropriar-se do petróleo iraniano sob a alegação de que "ao vencedor cabem os despojos". A nação que inspirou a criação da ONU comporta-se como força celerada dedicada à pilhagem.
A guerra de Trump destruiu a confiança das monarquias do Golfo na proteção dos EUA. Depois dela, o controle iraniano do ponto de estrangulamento de Hormuz reformula o cálculo estratégico dos vizinhos, cujas exportações de combustíveis passam a depender do regime de Teerã.
Trump foi à guerra ignorando a Aliança Atlântica, apenas para depois reclamar o apoio militar dos europeus. Os aliados, Groenlândia ainda fresca na memória, esclareceram que a missão da Otan não é sujeitar-se a guerras de escolha dos EUA e replicaram por uma dupla negativa. Para fúria da Casa Branca, limitaram o uso de bases situadas na Europa e recusaram a missão impossível de reabrir pela força o estreito de Hormuz.
A aventura iraniana assinala um triunfo histórico da China e da Rússia. "Momento Suez": o lugar dos EUA no mundo nunca mais será o mesmo. Os EUA possuem o poder militar, mas jogaram fora o atributo da liderança e rebaixaram-se ao estatuto de potência do Hemisfério Ocidental.

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