O Brasil entra em 2026 com um contraste entre números e sentimento. Explico-me. O mercado de trabalho fechou 2025 com taxa de desocupação de 5,1% no trimestre encerrado em dezembro, a menor da série recente. A inflação de dezembro foi de 0,33% e o IPCA acumulado do ano ficou em 4,26%, abaixo do teto da meta. Ao mesmo tempo, a atividade perdeu tração: o PIB cresceu apenas 0,1% no terceiro trimestre frente ao trimestre anterior, e a produção industrial ficou estagnada em novembro, com queda de 1,2% na comparação anual. Ainda assim, o sinal mais revelador aparece no humor.
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Na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de dezembro de 2025, 47% dos entrevistados classificaram a situação econômica do Brasil como ruim. Quando a pergunta se desloca para a esfera privada, o tom muda: 36% avaliaram negativamente a situação da própria família e 42% fizeram o mesmo em relação ao mercado de trabalho. O país é percebido como pior do que a casa e pior do que o emprego.
Além disso, o desenho do questionário permite separar presente e futuro ao medir expectativas para os próximos seis meses em três dimensões distintas: economia do país, mercado de trabalho e situação financeira da família. O padrão se repete. O pessimismo se concentra no futuro coletivo, enquanto as expectativas individuais são menos negativas.
Foi ao ler uma coluna recente de Tim Harford, no Financial Times, que esse padrão voltou a me chamar a atenção. Harford observa que avaliamos nossa própria vida a partir de experiência direta, enquanto avaliamos o país a partir de informação mediada por noticiário, redes sociais e conflito político. São processos distintos, com vieses distintos. Isso ajuda a explicar parte do contraste brasileiro, mas será que essa assimetria é suficiente para explicar o tamanho do pessimismo atual?
Em coluna recente, Samuel Pessoa argumenta que o discurso econômico dominante voltou a minimizar restrições macroeconômicas e a tratar expansão do gasto público como motor quase automático de crescimento, um padrão historicamente associado a trajetórias instáveis na América Latina. Ao mesmo tempo, ele chama atenção para a deterioração do resultado fiscal estrutural documentada pela própria Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, sugerindo que o problema não está apenas no tom político, mas também nos dados subjacentes.
Embora o cidadão médio seja naturalmente mais negativo ao avaliar o país do que a própria vida, ele também reage a esse ambiente. O presente pode estar sendo sustentado por um mercado de trabalho aquecido e por bons resultados pontuais. Contudo, a ausência de coordenação clara entre política fiscal, sinalização institucional e estratégia de crescimento afeta a forma como o futuro é percebido.
O Brasil já viveu episódios em que emprego e consumo se mantiveram fortes enquanto a credibilidade fiscal se deteriorava gradualmente, até que o ajuste se tornou inevitável. Diante da queda recente da confiança do consumidor e da piora das expectativas, a pergunta que fica é se estamos apenas diante de mais um ciclo de pessimismo informacional ou se, desta vez, o humor já começa a refletir uma leitura mais profunda sobre a falta de direção do país.

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