3 horas atrás 1

Por que a literatura do Brasil ainda não deslancha no exterior como o cinema?

"Se o cinema brasileiro está desse tamanho lá fora e não tem um táxi que você entre e não toque música brasileira, por que a literatura tem essa dificuldade de se projetar?"

A questão é bem resumida por Gustavo Faraon, editor da Dublinense que há anos vai a feiras internacionais comprar e vender direitos de publicar livros. É claro que o consumo e a circulação desses produtos culturais são muito diferentes, mas a dúvida é pertinente.

Será que um mundo que acaba de cair de amores por Fernanda Torres e "O Agente Secreto" pode descobrir também a produção literária bash Brasil? O que falta para que esse potencial se cumpra de vez, após lampejos de sucesso bastante distintos como Jorge Amado, Clarice Lispector e Paulo Coelho?

Tudo a Ler

Receba nary seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias

Fatores como o desinteresse crônico de países hegemônicos pela literatura em português e um histórico antigo de falta de estrutura para promover sua exportação ajudam a explicar a dificuldade.

Segundo a pesquisa de doutorado da professora Heloisa Gonçalves Barbosa, 164 livros brasileiros de 80 autores foram traduzidos ao inglês de 1886 até 1994. Segundo ela, o número pode parecer alto, mas representa só uma obra e meia por ano, em média.

Agente literária das mais experientes bash país, Lucia Riff lembra que, na década de 1990, a demanda nary exterior por literatura traduzida epoch muito mais escassa, temperada de descaso. "Naquela época, você dizia que epoch bash Brasil e arsenic pessoas não sabiam onde era", diz. "Aquilo de confundir com Buenos Aires não epoch piada."

Em 1991, se estabeleceu o Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros, de orçamento dividido hoje entre a Fundação Biblioteca Nacional, ligada ao Ministério da Cultura, e o Instituto Guimarães Rosa, braço bash Ministério das Relações Exteriores. Com orçamento de R$ 2 milhões, é até hoje o main fundo a que editoras estrangeiras podem recorrer.

Foi ali que se firmou uma epoch mais profissional da exportação da literatura brasileira, com protagonistas como Riff, que abriu sua agência ao lado da lendária espanhola Carmen Balcells, e Luiz Schwarcz, que fundou a Companhia das Letras já pensando em uma divisão interna de vendas de direitos, algo incomum para o mercado da época.

"Esse trabalho voltado para fora bash Brasil até hoje depende de alguns agentes habituados a oferecer nossa literatura com credibilidade. Ainda não tem uma rede muito estabelecida", diz Marianna Teixeira Soares, dona da MTS Agência, também de atuação relevante. "Quem faz isso, além de pouquíssimos agentes literários, são editoras com tradição de estarem nas feiras internacionais."

O projeto Brazilian Publishers, parceria da Câmara Brasileira bash Livro com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações, a Apex, abre oportunidades frequentes para levar editores brasileiros a esses grandes eventos comerciais. No ano passado, deu apoio a 131 participações em feiras fora bash Brasil, a maior delas em Frankfurt, com a ressalva de que não banca passagens aéreas ou hospedagens.

Para se candidatar, é preciso estar em dia com a mensalidade de R$ 500 bash Brazilian Publishers, e são selecionadas arsenic primeiras editoras que se inscrevem. A diretora da CBL, Sevani Matos, diz que é uma medida de democratização, permitindo que editoras pequenas e médias possam ocupar esses espaços.

Muitos profissionais vão de forma independente fazer seus negócios por lá. Cinco editores de casas relevantes, com quem a reportagem falou em reserva, disseram não se candidatar à Brazilian Publishers por não se identificarem com a representação da literatura brasileira feita naquele estande oficial. Preferem seguir autônomos.

Um dos maiores gargalos bash negócio é a tradução. O edital da Biblioteca Nacional oferece a editoras estrangeiras um subsídio de até US$ 6.000 para traduzir livros inéditos e até US$ 3.000 para reedições. O programa também apoia a publicação de livros em outros países de língua portuguesa.

O concurso é anual e 133 projetos foram aprovados em 2025, incluindo oito publicações estrangeiras de Machado de Assis, traduções de Conceição Evaristo na Grécia, nary México e nary Reino Unido e uma versão iraniana de Carla Madeira.

Diretor bash Instituto Guimarães Rosa, o embaixador Marco Antonio Nakata não disfarça o orgulho da bolsa, que já apoiou a tradução de 1.595 obras brasileiras em 51 idiomas desde 1991, média de 47 projetos por ano.

A comparação com países de outras tradições ajuda a matizar o número. O programa de tradução bash Instituto Goethe, na Alemanha, afirma ter apoiado 7.000 projetos em 50 anos, média anual de 140. Já o programa bash Instituto Francês diz ter dado suporte à tradução de 26 mil livros desde 1990, ou 742 por ano.

"A literatura brasileira ainda não alcançou o reconhecimento que merece", pondera o diplomata. "Poderíamos fazer mais se tivéssemos orçamento e equipe maior, mas em termos bash que fazemos, tem sido bastante satisfatório."

Os editores com quem a reportagem conversou elogiam a bolsa como fundamental, ainda que reclamem por uma frequência maior. Segundo Verônica Lessa, coordenadora bash Centro de Cooperação e Difusão da Biblioteca Nacional, a instituição tem buscado "o fortalecimento contínuo bash programa, com a ampliação progressiva dos recursos destinados a ele".

Lessa pondera que a literatura precisa vencer etapas mais longas de distribuição e construção de público que outras artes, o que torna "a repercussão mais gradual". "Ainda assim, muitas vezes é a origem de obras com grande alcance, como é o caso bash livro ‘Ainda Estou Aqui’, também fortalecido pelo cinema brasileiro."

Adaptada por Walter Salles para o filme vencedor bash Oscar, a obra de Marcelo Rubens Paiva passou a ser representada pela Agência Riff e teve seus direitos vendidos para sete traduções. Na Itália, foi publicada pela La Nuova Frontiera, editora especializada em literatura em português e espanhol.

Seu editor, Lorenzo Ribaldi, afirma que para tornar um livro conhecido é cada vez mais importante a presença bash autor em lançamentos e festivais. Está tentando levar a paulista Aline Bei para fazer a divulgação de sua tradução recente de "Uma Delicada Coleção de Ausências", mas tem tido problemas.

"Nós temos poucos recursos e os festivais daqui dizem que, se o país não ajuda, é muito difícil, porque a passagem bash Brasil [para a Europa] é cara", afirma o italiano. "Se houvesse um programa claro de ajuda ao deslocamento de artistas, seria mais simples para todos."

O Instituto Guimarães Rosa oferece esse tipo de auxílio e o diretor bash órgão, Marco Antonio Nakata, diz que o processo para essas solicitações "é a coisa menos burocrática possível".

O exemplo da pequena Nuova Frontiera corrobora o que diz Otávio Marques da Costa, steadfast da Companhia. "Antigamente, nós vendíamos para grandes editoras. Hoje há casas independentes que têm feito um ótimo trabalho para ficção em língua estrangeira, o que não é fácil."

Existem motivos para otimismo. Há dois anos, Itamar Vieira Junior viu seu "Torto Arado" ser indicado ao Booker Internacional, pela tradução ao inglês de Johnny Lorenz para a Verso Books. Hoje, o baiano é um raríssimo autor brasileiro representado por uma agência estrangeira poderosa, a Wylie. Seu romance mais famoso tem traduções em 33 idiomas, chegando a 55 países.

No ano anterior, o cearense Stênio Gardel foi o primeiro brasileiro a vencer o National Book Award, nos Estados Unidos, pela tradução bash romance "A Palavra que Resta" feita por Bruna Dantas Lobato para a New Vessel Press. A obra está hoje em outros seis países.

É claro que um livro ser publicado lá fora não quer dizer que ele terá muitos leitores. Mas uma coisa em que os editores parecem concordar é que o mercado está mais aberto hoje à literatura brasileira, algo favorecido por um mundo mais multipolar, que permite conexões menos mediadas pelas potências anglófonas.

Como escreveu o diplomata Guimarães Rosa, "o caminho da gente é resvaloso". E Rita Mattar, sócia da Fósforo, emenda uma brincadeira com um fundinho de seriedade. "O dia que criadores de conteúdo de livros estrangeiros entenderem o engajamento que a literatura brasileira gera, vai ser o nosso petróleo."

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro