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- Author, João Fellet
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
Há 14 minutos
Tempo de leitura: 9 min
Estamos entrando em uma nova era global, em que grandes potências se sentirão mais livres para intervir em outros países conforme seus interesses?
Como a operação em Caracas será lida pela Rússia e pela China, países que também têm buscado influenciar os rumos de nações vizinhas?
E quais as consequências que a ação dos Estados Unidos podem ter para outros países latino-americanos, como o Brasil?
Uma doutrina citada pelo presidente americano Donald Trump horas após a captura de Maduro parece dar algumas pistas sobre essas questões.
"Sob nossa nova estratégia de segurança nacional, o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado."
A Doutrina Monroe leva o nome de James Monroe, quinto presidente da história dos EUA, que governou entre 1817 e 1825.
Trump vem indicando uma retomada dessa doutrina — rebatizada sob ele de "Donroe", uma combinação dos nomes Donald e Monroe.

No documento publicado em novembro que detalha a nova Estratégia de Segurança Nacional americana, o governo Trump diz que "os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no Hemisfério Ocidental".
A Doutrina Monroe foi concebida em uma época em que potências europeias ainda mantinham várias colônias nas Américas — o Brasil, por exemplo, se tornou independente de Portugal em 1822, durante a presidência de James Monroe.
Essa doutrina enxergava o mundo a partir de "esferas de influência" exercidas por diferentes potências. Monroe via a América Latina como uma região que deveria ficar sob a influência dos Estados Unidos.
Por isso, ele disse aos países europeus que encararia qualquer intervenção europeia na América Latina como uma agressão contra os Estados Unidos. Em contrapartida, Monroe se comprometeu a não intervir em conflitos na Europa.
Em entrevista à rede CBS, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, justificou a operação na Venezuela usando uma expressão que remete às "esferas de influência" da Doutrina Monroe.
"No século 21, sob a administração Trump, não teremos um país como a Venezuela em nosso Hemisfério, na esfera de controle e ponto estratégico do Hezbollah, do Irã e de todas as outras influências malignas no país e no mundo", disse Rubio.

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O Corolário Roosevelt e a política do 'grande porrete'
Com base na Doutrina Monroe, os Estados Unidos fizeram uma série de intervenções em países como Haiti, Nicarágua, Cuba e Colômbia a partir do século 19.
Mas foi durante a presidência de Theodore Roosevelt (1901-1909) que a aplicação desta doutrina alcançou outro patamar.
Roosevelt argumentava que os Estados Unidos tinham o direito de exercer o papel de "polícia mundial" para conter turbulências ou trocar governos de países próximos que não estivessem alinhados com a Casa Branca.
Essa interpretação mais ampla da Doutrina Monroe ficou conhecida como o Corolário Roosevelt. E, coincidência ou não, um conflito na Venezuela esteve na origem dessa política.
Em 1902, potências europeias ameaçavam invadir a Venezuela para exigir o pagamento de dívidas e indenizações. Os Estados Unidos intervieram e evitaram que o conflito evoluísse para uma guerra.
Por outro lado, a partir desse episódio, a Casa Branca passou a reivindicar o direito de agir para "estabilizar" países vizinhos endividados e evitar a interferência de potências europeias na região.
O governo Roosevelt também ficou conhecido por outra estratégia que teve grandes implicações para países latino-americanos: a política do "grande porrete" (ou Big Stick, em inglês).

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Roosevelt atribuía a expressão a um provérbio africano, ainda que a origem real da frase jamais tenha sido confirmada: "Fale manso e carregue um grande porrete; você irá longe".
Na prática, a política consistia em usar força militar para impor os interesses dos Estados Unidos. Uma das aplicações dessa política aconteceu durante a construção do Canal do Panamá (1904-1914), quando os Estados Unidos enviaram navios de guerra à região para garantir a execução da obra.
Ditaduras militares
Décadas depois, durante a Guerra Fria (1947-1991), houve uma nova onda de intervenções dos Estados Unidos na América Latina.
Nos anos 1960 e 1970, a Casa Branca patrocinou ou apoiou uma série de golpes de Estado na região, inclusive o de 1964 no Brasil, que deu início a uma ditadura militar que só acabou mais de 20 anos depois.

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Ações semelhantes ocorreram em países como Chile, Argentina e Uruguai, e resultaram na instalação de regimes responsáveis pelo desaparecimento de milhares de opositores, tortura generalizada e outras graves violações de direitos humanos.
Na época, os Estados Unidos viam os regimes militares na região como uma barreira contra a expansão do comunismo e do socialismo associados à União Soviética, seu grande adversário na Guerra Fria.

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A possível retomada de políticas intervencionistas por parte dos EUA deixou outros países e territórios em alerta.
Nos dias seguintes à captura de Maduro, Rubio e Trump indicaram que Cuba, México, Colômbia e a Groenlândia podem entrar na sua mira, embora não tenham detalhado qualquer nova operação.
Cuba, México e Colômbia são hoje comandados por governos de esquerda que condenaram a operação de captura de Maduro — e já foram alvos de intervenções americanas no passado.
Em uma entrevista ao programa Today, da BBC Radio 4, o ex-conselheiro de segurança nacional dos EUA Ben Rhodes disse que já via sinais da nova postura da Casa Branca mesmo antes da intervenção na Venezuela.
Para Rhodes, há um "retorno dos Estados Unidos à esfera de influência na América Latina e em todo o Hemisfério Ocidental, onde, essencialmente, ele [Trump] escolhe os líderes de que gosta e os de que não gosta".
Rhodes cita os empréstimos que, sob Trump, os EUA concederam ao governo aliado de Javier Milei, na Argentina, bem como o apoio que o republicano declarou a "vários líderes autoritários latino-americanos, enquanto ameaça retomar o Canal do Panamá e bombardear o México e a Colômbia".
O ex-conselheiro compara o momento atual ao "período anterior à Primeira Guerra Mundial, quando os Estados Unidos, da mesma forma que a Rússia reivindica essa esfera de influência na antiga União Soviética, estão de volta às operações de mudança de regime no Hemisfério Ocidental, o que não terminou bem no passado".

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E o Brasil?
O Brasil está em uma situação peculiar, segundo analistas.
Assim como os líderes de Cuba, México e Colômbia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também criticou a operação na Venezuela: disse que os bombardeios e a captura de Maduro "ultrapassam uma linha inaceitável" e "lembram os piores momentos de interferência na política da América Latina".
Mas, ao mesmo tempo, Lula vinha tendo um bom momento na relação com Trump.
No ano passado, Trump chegou a impor sanções contra o Brasil e a pedir a anulação do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas, depois de uma série de conversas com Lula, o americano passou a elogiar o líder brasileiro e suspendeu várias destas sanções.
Para Silvio Cascione, diretor da consultoria Eurasia, a captura de Maduro pode atrasar o processo de reaproximação — especialmente negociações nas áreas de tarifas e minerais críticos, que são dois temas em que Lula e Trump vinham dialogando.
Cascione diz que, se as facções brasileiras entrarem nessa lista, o risco não seria de ações militares americanas contra o Brasil, mas sim de maiores pressões financeiras e regulatórias sobre o país, algo que também pode complicar a reaproximação, segundo ele.
"O risco mais significativo envolve potenciais reações dos EUA a ações do Supremo Tribunal Federal brasileiro percebidas como politicamente tendenciosas contra candidatos de direita", diz a consultoria no documento.
Segundo a Eurasia, se o Judiciário brasileiro agir de forma agressiva contra candidatos de direita, os EUA podem se sentir encorajados a apoiá-los.
Ao mesmo tempo, a consultoria afirma que "qualquer resposta [dos EUA] que seja vista como interferência flagrante ou indevida pode ter a consequência não intencional de beneficiar a candidatura de reeleição de Lula".

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Rússia e China
Analistas também apontam para possíveis consequências da operação na Venezuela que vão bem além da América Latina.
Os dois países eram aliados do governo Maduro, criticaram a operação dos Estados Unidos e pediram a libertação do venezuelano.
Mas Bowen afirmou que, mesmo condenando em público a atitude dos Estados Unidos, China e Rússia podem considerar que a intervenção dá a eles uma brecha para que também usem a força em suas vizinhanças.
Afinal, "a operação contra Maduro também representa mais um golpe sério na ideia de que a melhor forma de governar o mundo é seguir um conjunto de regras acordadas, conforme estabelecido no direito internacional".
A Rússia já vem usando a força para impor seus interesses desde que invadiu a Ucrânia, em 2022 — e há temores de que possa realizar novos ataques contra outras nações europeias no futuro.
A China, por sua vez, pode avaliar que a ação americana na Venezuela legitima uma intervenção chinesa em Taiwan, diz Bowen.
"Pequim considera Taiwan uma província dissidente e já declarou que devolver o território ao controle chinês é uma prioridade nacional", afirmou.
A preocupação de que a operação na Venezuela encoraje Rússia e China a iniciativas semelhantes foi citada pelo senador democrata Mark Warner, vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado.
"Se os Estados Unidos afirmam ter o direito de usar força militar para invadir e capturar líderes estrangeiros acusados de conduta criminosa, o que impede a China de reivindicar a mesma autoridade sobre a liderança de Taiwan? O que impede Vladimir Putin de apresentar justificativa semelhante para sequestrar o presidente da Ucrânia?", questionou o senador, que integra a oposição a Trump.
"Uma vez que essa linha é cruzada, as regras que contêm o caos global começam a ruir, e regimes autoritários serão os primeiros a explorá-la."

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