Geladeiras que vazam água ou param de gelar poucos anos após a compra, máquinas de lavar com defeitos recorrentes, TVs que apresentam falhas logo depois do fim da garantia e celulares que travam com frequência são situações cada vez mais comuns na casa dos brasileiros. Esses episódios alimentam uma dúvida recorrente entre consumidores: os eletrodomésticos realmente estão durando menos ou há, de fato, uma estratégia das marcas para reduzir propositalmente a vida útil dos produtos?"
O conceito de obsolescência programada surge justamente nesse contexto. A ideia de que produtos são projetados para falhar ou se tornar inutilizáveis após determinado período levanta debates que envolvem a indústria, o meio ambiente, a legislação e os direitos do consumidor. Para entender se essa prática realmente existe, o TechTudo conversou com o engenheiro eletricista e professor da USP Marcelo Zuffo e com Alessandra Souza, consultora da CLASP, organização internacional que apoia governos em eficiência energética e sustentabilidade de eletrodomésticos. Confira!
Micro-ondas é um dos aparelhos que apresentam defeitos na parte eletrônica com mais frequência — Foto: Freepik Por que alguns eletrodomésticos estragam mais rápido do que outros?
Em entrevista ao TechTudo, especialistas analisaram se os produtos atuais realmente têm uma vida útil mais curta, quais fatores podem acelerar seu desgaste e o que o consumidor pode fazer para prolongar a durabilidade dos aparelhos que já possui em casa. Veja, no índice abaixo, os pontos abordados na matéria:
- Quebra de equipamento: quando é um desgaste natural ou decisão de marca?
- Por que alguns eletros estragam mais rápido?
- Como saber se um produto foi feito para durar pouco?
- Aparelhos vendidos no Brasil duram menos que em outros países?
- Quais são as causas mais comuns para um aparelho quebrar?
- Dicas para seus aparelhos durarem mais tempo
1. Quebra de equipamento: quando é um desgaste natural ou decisão de marca?
Diferenciar o fim da vida útil de um componente de uma falha planejada exige análise técnica detalhada. O desgaste natural ocorre em peças que sofrem atrito ou calor constante, como rolamentos de motores ou borrachas de vedação. Assim, é esperado que, após determinado período de uso intenso, esses itens precisem de manutenção. No entanto, a obsolescência se torna uma "decisão de marca" quando o projeto impede que essas peças sejam substituídas individualmente ou tenham uma vida útil abreviada.
Alguns fabricantes optam por limitar a substituição de componentes que deveriam ser acessíveis. Por exemplo, se uma placa eletrônica queima por causa de uma peça que custa centavos, mas a marca obriga a troca de todo o painel (que custa metade do valor do produto), é criada uma barreira ao conserto. Essa dificuldade técnica é uma forma indireta de programar o descarte do aparelho em função da compra de um novo modelo.
Além disso, a escolha dos materiais é um fator decisivo. Substituir materiais mais nobres e robustos por outros de qualidade inferior, usar sistemas eletrônicos extremamente sensíveis e restringir atualizações de software são exemplos de práticas que podem reduzir a vida útil prática do produto, mesmo que não exista uma “data de validade” programada.
Notebook travado é um do primeiros sinais de problemas envolvendo a durabilidade do aparelho — Foto: Divulgação/Pexels (Andrea Picquadio) 2. Por que alguns eletros estragam mais rápido?
A falha prematura de eletrodomésticos está ligada principalmente à maior complexidade dos modelos atuais e à busca das indústrias por redução de custos. Diferentemente dos aparelhos antigos, majoritariamente mecânicos, os equipamentos modernos incorporam sensores, painéis digitais, sistemas automatizados e conectividade. Embora essas tecnologias ampliem as funcionalidades, também aumentam o número de componentes sujeitos a falhas, tornando o conjunto mais vulnerável.
Outro fator determinante é o projeto térmico, especialmente em aparelhos eletrônicos. Para atender a demandas de design mais compacto, silencioso ou esteticamente atraente, fabricantes frequentemente limitam a ventilação interna. O resultado é o acúmulo de calor, um dos principais inimigos da eletrônica, capaz de reduzir significativamente a vida útil de componentes sensíveis da área eletrônica. Em televisores, notebooks, celulares e outros aparelhos, o funcionamento contínuo em temperaturas elevadas pode acelerar o desgaste e antecipar defeitos.
A durabilidade também varia conforme a categoria do produto e as condições de uso. Modelos mais baratos tendem a empregar materiais e componentes menos resistentes, enquanto linhas premium contam com maior robustez e sistemas de proteção adicionais. Para completar, o uso acima da capacidade recomendada, a falta de manutenção e ambientes adversos, como calor excessivo, umidade ou poeira, também contribuem para falhas mais rápidas, reforçando a percepção de que os eletrodomésticos atuais têm vida útil menor, apesar de serem mais eficientes e tecnologicamente avançados.
TV com defeito após o fim do período de garantia pode ser sinal de que o produto foi feito para durar pouco — Foto: Reprodução/Redes Sociais 3. Como saber se um produto foi feito para durar pouco?
Tecnicamente, é muito difícil comprovar se um produto foi projetado intencionalmente para durar pouco. Na maioria dos casos, o que existe é um equilíbrio entre custo de produção, preço final e expectativa média de uso, o que nem sempre atende às expectativas do consumidor. No entanto, alguns sinais indiretos podem indicar o potencial de durabilidade de um produto. A disponibilidade de peças de reposição é um dos principais indicadores: marcas que oferecem peças por muitos anos e mantêm assistência técnica estruturada tendem a apostar em produtos com ciclo de vida mais longo.
Outro fator que deve ser levado em consideração é a facilidade de reparo. Equipamentos que permitem a troca de componentes individuais, como sensores, bombas ou resistências, costumam ser mais duráveis do que aqueles em que tudo está integrado em um único módulo, cujo reparo é bem mais caro. Análises técnicas, manuais de serviço e até comentários de especialistas independentes disponíveis na internet podem auxiliar o consumidor nessa avaliação.
Por fim, oferta de garantia estendida, histórico da marca e relatos de outros consumidores também são fontes importantes de informação. Reclamações recorrentes sobre o mesmo defeito, especialmente após o término da garantia, podem indicar fragilidades de projeto ou de materiais.
Marcos Zuffo, professor da USP explica que o consumidor raramente percebe de imediato que um aparelho foi projetado para durar pouco, notando apenas com o tempo a lentidão e as falhas do produto. Segundo ele, a situação piora quando as fabricantes dificultam o conserto, “deixando o consumidor sem acesso a peças ou assistência técnica após dois ou três anos”. O especialista ressalta que o problema é crônico em celulares e TVs devido à falta de atualizações de software e alerta que a oferta de garantias estendidas pode ser uma estratégia para “camuflar sua baixa durabilidade”.
Quando o lixo eletrônico é descartado em lugares errados, pode contaminar a água e o solo — Foto: Divulgação/UN News 4. Aparelhos vendidos no Brasil duram menos que em outros países?
A percepção de que eletroeletrônicos duram menos no Brasil é confirmada por dados da Proteste: 45% dos aparelhos, de celulares a geladeiras, apresentam defeitos antes de dois anos de uso. Essa disparidade também fica clara na comparação internacional da CLASP: enquanto geladeiras duram até 20 anos em países como Japão e Alemanha, no Brasil a média cai para 10 a 14 anos. Essa diferença ocorre porque nações desenvolvidas possuem legislações que favorecem o conserto em vez do descarte. Por aqui, a durabilidade assemelha-se à de outros países emergentes, reflexo de deficiências regulatórias que permitem componentes menos eficientes e da falta de integração na cadeia produtiva.
Média da vida útil por país
| País | Geladeira | Ar-condicionado (split) |
| Japão | 14 a 20 anos | 15 a 20 anos |
| Coréia do Sul | 13 a 18 anos | 13 a 18 anos |
| Alemanha | 13 a 18 anos | 13 a 18 anos |
| França | 12 a 17 anos | 12 a 17 anos |
| Espanha | 12 a 16 anos | 12 a 16 anos |
| Chile | 12 a 16 anos | 12 a 16 anos |
| México | 11 a 15 anos | 11 a 15 anos |
| China | 10 a 15 anos | 11 a 15 anos |
| Brasil | 10 a 14 anos | 10 a 14 anos |
| Argentina | 10 a 14 anos | 10 a 14 anos |
| Índia | 09 a 13 anos | 09 a 13 anos |
Além da qualidade dos produtos, fatores como uso intensivo, condições climáticas, oscilações na rede elétrica, menor cultura de reparo e estratégias globais de redução de custos e da vida útil também explicam a diferença observada. Para Zuffo, medidas regulatórias que ampliem o direito ao reparo podem minimizar a percepção de obsolescência programada.
A consultora da CLASP afirma não ver evidências de uma obsolescência programada intencional, mas sim uma “aceleração da evolução tecnológica associada a novas exigências ambientais”. Segundo ela, mudanças constantes em padrões de eficiência energética e gases refrigerantes forçam alterações em projetos de geladeiras e aparelhos de ar-condicionado. O problema é que esses novos materiais nem sempre se adaptam no mesmo ritmo, afetando a durabilidade. Para a especialista, a questão central não é técnica, mas política: “o verdadeiro desafio está na integração entre políticas públicas e políticas industriais”, apontando que a falta de exigências regulatórias acaba por comprometer o produto final.
Já o professor da USP defende que a solução passa obrigatoriamente pela legislação, com foco no direito ao reparo e na fiscalização. Ele destaca que a obsolescência muitas vezes é digital, pois, “mesmo com o hardware funcionando, a falta de suporte de software torna o produto praticamente inutilizável”. Ele ainda pondera que a discussão global sobre obrigar empresas a liberar drivers e códigos enfrenta resistência, uma vez que “prolongar a vida útil dos produtos tende a reduzir suas vendas”, o que entra em conflito direto com o interesse de alguns fabricantes.
Dificuldade de reparo e atualização de softwares é um sinal indireto da obsolecência programada — Foto: Picture Alliance/Getty Images Atualmente, tramitam no Congresso Nacional projetos de lei que visam proibir ou inibir a prática da obsolescência programada. Em geral, os projetos buscam atualizar o Código de Defesa do Consumidor, proibindo a redução artificial da durabilidade de componentes; a recusa no fornecimento de ferramentas, peças, informações e manuais necessários ao reparo; a disponibilização de assistência técnica e atualizações de peças e softwares por até 20 anos após a saída de linha de determinado produto; e a autorização de consertos fora das redes autorizadas. Entretanto, os projetos ainda estão sendo discutidos nas comissões temáticas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, aguardando votação em plenário para se tornarem lei.
5. Quais são as causas mais comuns para um aparelho quebrar?
Entre as falhas mais frequentes estão problemas elétricos, como surtos de tensão, que danificam placas eletrônicas. A ausência de dispositivos de proteção, como filtros de linha e aterramento adequado, aumenta significativamente o risco de danos irreversíveis.
O acúmulo de sujeira e a falta de manutenção preventiva também figuram entre as principais causas. Filtros obstruídos, ventilação comprometida e resíduos internos elevam a temperatura de funcionamento, reduzindo a vida útil de motores e circuitos.
Além disso, erros de instalação e uso inadequado, como ligar equipamentos em voltagem errada ou ignorar as recomendações do fabricante, são responsáveis por grande parte dos defeitos que surgem nos primeiros anos de uso.
Respeitar a capacidade de carga de cada eletrodoméstico ajudar a prolongar a vida útil do aparelho — Foto: Divulgação/Electrolux 6. Dicas para seus aparelhos durarem mais tempo
Algumas práticas simples podem aumentar significativamente a durabilidade dos eletrodomésticos. Seguir as instruções do fabricante, respeitar os limites de carga e realizar limpezas periódicas ajuda a reduzir o desgaste prematuro dos componentes. Além disso, é importante praticar o uso consciente: não sobrecarregar a máquina de lavar, evitar abrir desnecessariamente a porta do forno ou da geladeira e ficar atento a barulhos estranhos, acionando um técnico antes que pequenos problemas se tornem grandes danos.
Investir em proteção elétrica também faz diferença, principalmente para equipamentos com placas eletrônicas. Filtros de linha de qualidade e estabilizadores adequados ajudam a prevenir danos causados por quedas ou oscilações de energia, evitando prejuízos significativos, especialmente em regiões com fornecimento irregular de eletricidade.
Antes de substituir um aparelho com defeito, vale a pena também avaliar o custo do reparo. Em muitos casos, trocar uma peça desgastada pode devolver anos de vida útil ao equipamento, reduzir desperdício e diminuir o impacto ambiental do lixo eletrônico, contribuindo para um consumo mais consciente e sustentável.
Realize uma limpeza estratégica nos seus eletrodomésticos — Foto: Reprodução/Uara Gonçalves
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