Prédio do governo da Venezuela

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Legenda da foto, Indústria de petróleo da Venezuela está um 'fracasso', disse Trump

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"Não queremos que outra pessoa assuma o poder e nos deparemos com a mesma situação que tivemos nos últimos anos. Portanto, vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa, e ela precisa ser criteriosa. Porque é isso que nos define", disse Trump, em uma coletiva de imprensa na Casa Branca.

O presidente americano não estabeleceu um prazo limite para a ocupação americana.

Segundo ele, caberia aos Estados Unidos decidir quando o país retornaria ao controle venezuelano, "até que possamos realizar uma transição segura, adequada e criteriosa".

Trump afirmou que a economia petrolífera na Venezuela está um "fracasso" — explicando que grandes empresas americanas entrarão no país, investirão bilhões, consertarão a infraestrutura petrolífera e "começarão a gerar lucro para o país".

A "parceria" dos EUA com a Venezuela tornará o povo venezuelano "rico, independente e seguro", disse Trump. Os venezuelanos que vivem nos EUA ficarão "extremamente felizes", acrescentou.

"Eles não vão mais sofrer", disse ele na coletiva de imprensa.

A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela marca o auge da escalada da crise entre Washington e Caracas em anos.

Oficialmente, o governo americano afirma agir para combater o narcotráfico, proteger a segurança regional e enfrentar o que descreve como um regime ilegítimo e corrupto.

Caracas, por sua vez, acusa Washington de violar a soberania nacional e usar o discurso antidrogas como pretexto para forçar uma mudança de governo.

Por trás da retórica, analistas apontam uma combinação de interesses econômicos e geopolíticos que ajuda a explicar a ofensiva.

O país sul-americano concentra as maiores reservas de petróleo do mundo, mantém laços profundos com a China — principal rival estratégico dos EUA — e ocupa uma posição central na disputa por influência na América Latina.

Donald Trump

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Legenda da foto, Donald Trump afirmou, em entrevista, que assistiu a captura de Maduro em 'tempo real, como um programa de TV'

Petróleo é principal ativo da Venezuela

Entre os fatores econômicos, o petróleo ocupa lugar central.

A Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas do mundo, mas produz hoje apenas uma fração do que já produziu no passado.

A combinação de sanções, deterioração da infraestrutura e falta de investimentos reduziu drasticamente a capacidade do país de explorar esse potencial.

Ainda assim, o petróleo venezuelano segue sendo estratégico. Trata-se majoritariamente de petróleo pesado, um tipo especialmente adequado para refinarias dos Estados Unidos, sobretudo as localizadas na costa do Golfo do México.

Analistas avaliam que, em um cenário de flexibilização das sanções ou de mudança política em Caracas, empresas americanas poderiam se beneficiar tanto na produção quanto na compra do óleo.

Atualmente, a Chevron é a única empresa dos Estados Unidos com operações ativas no país, autorizadas por licenças temporárias concedidas apesar das sanções.

A companhia responde por uma parcela relevante da produção venezuelana, o que a coloca em posição privilegiada caso haja uma reabertura mais ampla do setor ao capital estrangeiro.

Além do interesse energético direto, especialistas apontam que o petróleo também funciona como instrumento de pressão política.

Ao restringir exportações e bloquear navios ligados à Venezuela, Washington atinge a principal fonte de receita do Estado venezuelano, aumentando a fragilidade econômica do governo.

O fator China

Outro elemento central na equação é a relação da Venezuela com a China. Desde que sanções mais duras passaram a limitar o acesso de Caracas aos mercados ocidentais, Pequim se consolidou como o principal destino do petróleo venezuelano.

Grande parte dessas exportações ocorre por meio de acordos em que embarques de petróleo servem como garantia para empréstimos concedidos ao longo da última década.

Para analistas em relações internacionais, esse arranjo preocupa Washington por ampliar a presença chinesa em setores considerados estratégicos no hemisfério ocidental.

A leitura em círculos do governo americano é de que a Venezuela se tornou um ponto sensível na disputa global por influência entre os EUA e a China, especialmente em áreas como energia e mineração.

Há ainda um componente mais amplo de abertura econômica. Especialistas avaliam que uma eventual mudança de governo em Caracas poderia abrir espaço não apenas para empresas de petróleo, mas também para companhias americanas interessadas em infraestrutura, serviços e indústria.

Esse discurso tem sido defendido publicamente por setores da oposição venezuelana, que prometem uma reorientação da economia e maior integração com os Estados Unidos.

Esse movimento se insere em uma estratégia mais ampla de política externa.

Documentos recentes da Casa Branca indicam que a América Latina voltou a ser tratada como prioridade estratégica, em um reposicionamento que resgata princípios da chamada Doutrina Monroe.

A diretriz, formulada no século 19, defendia o hemisfério ocidental como área de interesse vital dos Estados Unidos — hoje reinterpretada como uma forma de conter a presença de potências rivais, sobretudo a China.

Nesse contexto, a Venezuela reúne múltiplos elementos sensíveis: vastos recursos naturais, alianças com adversários estratégicos de Washington e uma posição geográfica considerada chave no Caribe e na América do Sul.

Para analistas, isso ajuda a explicar por que a ofensiva americana vai além do discurso de combate ao narcotráfico.

O que está em jogo é uma combinação de interesses econômicos, disputa por influência e tentativa de reafirmar a liderança dos Estados Unidos na região — com impactos que extrapolam as fronteiras venezuelanas.