Torcedores da Noruega participam da “Viking Row” durante a partida do Grupo I da Copa do Mundo FIFA 2026 entre Noruega e Senegal no Estádio Nova York Nova Jersey

Crédito, Catherine Ivill - AMA/Getty Images

Published Há 43 minutos

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Ao comemorar a vitória por 3 a 2 sobre Senegal, jogadores da Noruega se sentaram no gramado e simularam movimentos de remada, em perfeita sincronia. Já o meio-campista Martin Ødegaard comandava o tambor e as baquetas.

A comemoração reproduzia a remada viking, que virou marca registrada da torcida norueguesa na Copa do Mundo de 2026.

Em diversos jogos, torcedores da seleção fizeram a coreografia que simula o movimento de remar, em referência às tradições marítimas e à herança deixada pelo povo que marcou a história do país.

Martin Ødegaard, da Noruega, toca um tambor e, ao fundo, estão outros jogadores da equipe norueguesa, que executam a "remada viking" em campo

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Legenda da foto, Jogadores reproduziram em campo a remada viking, que virou símbolo da torcida norueguesa

Mas, afinal, quem eram os vikings?

Os vikings eram povos originários da Escandinávia — Dinamarca, Suécia e Noruega — que plantavam na primavera e saqueavam cidades no exterior durante o verão.

A Era Viking — período em que foram mais ativos em exploração e ataques — vai do século 8 ao século 11 d.C.

Os nórdicos estabelecidos nessas regiões após as incursões eram aqueles que passaram a se dedicar ao comércio e à fixação em territórios.

Esse povo tinha forte domínio do uso da terra: muitos eram agricultores, em regiões onde o clima permitia o cultivo. Era comum encontrar cevada, repolho e nabo nas despensas vikings.

A arte também era um elemento central da identidade viking. Segundo Davy Cooper, do Shetland Amenity Trust, a joalheria tinha função prática.

"Eles exibiam sua afiliação religiosa por meio das joias. Muitas pessoas usavam o martelo de Thor", afirmou Cooper.

Associado ao trovão, acreditava-se que Thor defendia a ordem dos deuses contra seus inimigos usando o poder do martelo.

A expansão viking

Um torcedor da Noruega segura um chifre de guerra viking durante a partida do Grupo I da Copa do Mundo de 2026 da FIFA entre Noruega e Senegal

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Legenda da foto, Em diversos jogos da Copa, torcedores noruegueses fizeram referências aos vikings

O comércio tornou-se mais diversificado à medida que os vikings avançavam pela Europa, combinando conflito e trocas comerciais.

Um exemplo é o rio Volga, na atual Rússia. Os vikings que se estabeleceram ao longo do rio, conhecidos como rus, deram origem ao nome Rússia.

A rota comercial do Volga abriu o norte da Europa às possibilidades de troca com o mundo árabe e o Império Bizantino.

Segundo Cooper, os itens saqueados de mosteiros ao longo do caminho "permitiam comprar coisas que não conseguiam produzir em suas próprias fazendas".

Entre esses bens estavam sal, corantes e especiarias, obtidos em troca de mel, peles e pessoas escravizadas nas incursões vikings.

Eles viajaram ainda mais longe, chegando à América do Norte no fim do século 10, onde teriam estabelecido relações conflituosas com povos nativos da região e da Groenlândia. Os vikings chamavam esses grupos de "Skræling", termo que pode ser traduzido como "povo de pele" ou "povo miserável".

A tecnologia viking foi revolucionária. Em especial, a engenharia naval os colocou entre os líderes de navegação da época — e entre os mais temidos onde havia água.

"Seus navios eram projetados para velocidade, para transportar o máximo de homens e para avançar rios adentro", afirma Cooper.

"O formato do barco criava bolhas na borda das tábuas. Em termos práticos, um navio viking navegava sobre uma espécie de colchão de ar, com muito menos resistência na água."

Para navegação, eles utilizavam uma "bússola solar", descrita por Cooper como "um círculo simples com um pino no meio", usado para medir a posição do sol e o horário do dia.

Mas as viagens nem sempre tinham destinos planejados.

"Eles muitas vezes eram levados pelo vento a lugares inesperados, mas sabiam a direção de volta", disse Cooper. "Isso significava que podiam reencontrar os lugares e ensinar outros a chegar lá."

Além do uso da natureza para alimentação, os vikings também a utilizavam para navegação, por meio de cristais.

Segundo Cooper: "Eles usavam um cristal que escurece ou clareia dependendo da direção em que é girado. Apontado para uma fonte de luz, funcionava até em neblina, desde que soubessem onde o sol estava — permitindo identificar a direção da viagem."

Por que os vikings não eram como imaginamos

A cultura popular costuma representar os vikings como guerreiros ferozes, de cabelos loiros e olhos azuis, que navegavam pelo mar saqueando populações costeiras. Mas estudos científicos desmentiram esse mito.

Um grupo internacional de geneticistas evolutivos conseguiu analisar a ascendência genética desses famosos guerreiros germânicos e chegou a conclusões surpreendentes sobre sua diversidade étnica.

"Tudo começou quando conseguimos sequenciar o primeiro genoma humano antigo", segundo relatou à BBC o geneticista evolutivo dinamarquês Eske Willerslev, professor da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e da Universidade de Copenhague, na Dinamarca.

"Isso nos forneceu uma enorme quantidade de informações de indivíduos que podemos usar para deduzir o passado do ser humano", afirmou, em entrevista em 2019.

"Depois que vimos que isso era possível, decidimos começar a explorar o passado humano em todo o mundo [para ver] como nos convertemos no que somos hoje."

Ao longo de seis anos, os pesquisadores analisaram restos humanos encontrados em mais de 80 sítios arqueológicos, incluindo túmulos vikings. Para entender o passado por meio do DNA antigo, a equipe sequenciou os genomas de 442 homens, mulheres, crianças e bebês da era dos vikings.

Um exemplar de viking segura um machado

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Legenda da foto, Os genes dos vikings revelam que eles não eram parecidos com as imagens mais comuns que temos na cultura popular

Um dos especialistas que trabalharam no projeto — Martin Sikora, da Universidade de Copenhague — notou que os restos mortais em que o DNA estava mais preservado eram os dentes e um osso chamado petroso ou temporal, que faz parte dos ossos das orelhas e é particularmente duro.

Extraindo o material genético dessas fontes, os especialistas conseguiram comparar o DNA desses povos com as sequências de DNA de mais de 1 mil indivíduos da Antiguidade e cerca de 4 mil seres humanos modernos. Este estudo — a maior análise genética de restos de vikings já realizada — demonstrou que seus genes provinham do sul da Europa e da Ásia.

"O viking típico é descrito como um escandinavo grande, forte e loiro. Mas, na verdade, ser loiro era muito menos comum na Escandinávia na era dos vikings do que agora", explica Willerslev.

"O período viking é caracterizado por um enorme interesse pelos vikings escandinavos pelo resto do mundo, mas um interesse muito limitado pelo que realmente estava acontecendo na Escandinávia."

As rotas comerciais dos vikings estendiam-se, de um lado, até o Canadá e, do outro, ao Afeganistão, de forma que aquele povo, na verdade, tinha muito mais diversidade do que se acreditava.

Essa miscigenação com pessoas do sul e do leste diversificou sua composição genética, gerando uma variedade de aparências físicas.

Indivíduo segura um dente com a mão

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Legenda da foto, Os dentes dos vikings foram fundamentais para que tivéssemos acesso ao seu DNA

"Não é possível afirmar com certeza se houve um grupo geneticamente homogêneo que fosse muito escandinavo e igual em toda parte", afirma Sikora. "Na realidade, havia muita diversidade."

O estudo também permitiu determinar que houve diversos grupos vikings que viajaram para diferentes partes do mundo. "Os dinamarqueses foram principalmente para a Inglaterra, os noruegueses foram para a Irlanda, Islândia e Groenlândia, e os suecos foram para o Mar Báltico", explica Willerslev.

A pesquisa também indica que a identidade viking não estava relacionada à origem genética ou étnica, mas sim a uma identidade social.

Eske Willerslev

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Legenda da foto, O reconhecido geneticista evolutivo dinamarquês Eske Willerslev liderou o projeto

"O fenômeno viking não é algo escandinavo, no sentido de que não é a etnicidade que determina se alguém é viking ou não. Trata-se de um estilo de vida", afirma o cientista que liderou o projeto. E, de fato, os pesquisadores descobriram vikings que "não tinham genes escandinavos".

"Graças a este trabalho, estamos mudando a história e, ao mudar a história, também estamos alterando nossa identidade", pondera Willerslev.

O cientista considera isso algo positivo. "Pelo menos, o debate agora é sobre identidade, que é um debate político, baseado na ciência real."

Essa reportagem foi publicada inicialmente em 5 de agosto 2022 e atualizada em junho de 2026