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Quem lê tanta notícia?

Mas, nem só ditadores e aspirantes ao posto alimentam a crise da imprensa. Como produto, as ondas de transformação digital das últimas duas décadas também têm sido brutais. Mudou a cadeia de distribuição, a infraestrutura, o modelo de negócios e o formato do serviço a ser oferecido para uma audiência que, mais diluída, altera dramaticamente a lógica da demanda que vigorou por mais de um século. O jornalismo, que sempre foi caro para se produzir, ficou cada vez mais barato para se vender.

Voltando aqui ao Digital News Report, se há queda no interesse pelo noticiário (o consumo) e na credibilidade de quem as produz (a reputação), é importante entender qual é o conceito de notícias que as pessoas têm. E finalmente, qual é a associação que fazem entre a informação que recebem e a fonte que as produz. Porque, na contramão desses dados, o número de brasileiros adultos conectados e o consumo de informação na internet só cresce (88% da população está online, segundo o IBGE).

Somada às crises de interesse e confiança, há um problema de atribuição.

Há alguns anos, quando a pesquisa da Reuters ainda apontava essa queda de maneira mais discreta, participei de uma pesquisa para apurar o interesse por notícias por parte de usuários de internet. Além da análise de dados com padrões de comportamento, visitávamos algumas pessoas em suas residências para entender e questionar sobre seus hábitos.

Acompanhei um grupo de engenheiros nessas visitas aqui em São Paulo. A primeira pergunta era se liam notícias online. A maioria dizia que não ou raramente. Mas, quando questionadas sobre onde obtinham informações sobre o trânsito, cotidiano, política e lançamentos de cinema, a resposta era que o faziam nas redes sociais. De que fontes? E nessa hora, pedíamos que abrissem seus celulares (quase sempre iam para o Instagram, TikTok ou WhatsApp) e mostrassem como isso acontecia na prática. O acesso era feito a partir de recomendações de amigos em links, republicações e, ora essa, pela sugestão automatizada de perfis de sites como Folha, G1, CNN e UOL.

Ali havia - ainda há - um ponto: se informam, sim, mas não onde achamos que o fazem. E ainda: leem, claro, mas não atribuem o consumo à marca de nenhum veículo. As pessoas evitam a ideia de veículos tradicionais, não necessariamente o conteúdo que publicam. Talvez porque o esforço de marca nunca tenha sido um trabalho relevante feito pela empresa, talvez porque o sentimento de saturação construa também uma tentativa de evitar a fonte ou percebê-la como irrelevante (ou questionável) no contexto em que isso aparece.

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