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Sem mão de obra, empresas acabam com escala 6x1 para atrair candidatos

Para não contratar, a empresa ajustou a jornada diária. Manteve as 44 horas semanais ao passar de 7h20 para 8h48 as horas trabalhadas diariamente, sem redução salarial.

Consumidores fazem compras em uma das lojas da Savegnago
Consumidores fazem compras em uma das lojas da Savegnago Imagem: Divulgação

A decisão veio da dificuldade em contratar. No ano passado, a Associação Brasileira de Supermercados estimou em 350 mil as vagas que o setor não conseguia preencher. "A escala 5x2 torna a jornada mais atrativa, um diferencial no momento da escolha", diz Campos.

Esse também foi o principal motivo para que a rede de supermercados Pague Menos adotasse a escala 5x2. Com 40 lojas pelo interior paulista e 8.000 funcionários, a empresa elegeu a "atração e retenção de colaboradores" como razão para o fim da escala 6x1 sem redução da jornada e de salários, mudança implementada definitivamente em janeiro.

Unidade do supermercado Pague Menos
Unidade do supermercado Pague Menos Imagem: Divulgação

Desde então, as faltas e os pedidos de demissão diminuíram. "Observamos redução significativa nos índices de absenteísmo [faltas] e turnover [rotatividade], indicadores importantes no varejo", diz Fernando Carneiro, diretor de Gente e Gestão.

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O número de candidatos e de vagas preenchidas dobrou na semana seguinte à divulgação da escala 5x2.
Fernando Carneiro, da Pague Menos

Em uma empresa do terceiro setor, até as licenças por doença caíram. "Reduzimos drasticamente os afastamentos por saúde, otimizamos custos e retivemos o capital intelectual", diz Roberta Faria, CEO da MOL Impacto, que adotou a escala 4x3 sem redução salarial.

Hoje, nossas vagas atraem talentos que buscam qualidade de vida acima de salários maiores em empresas tradicionais.
Roberta Faria, da MOL Impacto

'Organizei minha vida'

Hotel Palácio Tangará acabou com o 6x1 e reduziu duas horas na jornada semanal
Hotel Palácio Tangará acabou com o 6x1 e reduziu duas horas na jornada semanal Imagem: Divulgação

O hotel de luxo Palácio Tangará, no Morumbi, foi o primeiro a oferecer escala 5x2 em São Paulo. Desde setembro do ano passado, a nova escala veio com redução de 44 para 42 horas semanais aos 329 funcionários, que mantiveram seus salários. "É um diferencial que torna o Palácio Tangará mais atrativo para profissionais altamente qualificados", diz o diretor geral, Celso D. Valle. Para compensar, o hotel investiu R$ 2 milhões em novas contratações.

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A produtividade "aumentou, com certeza". "Todos produzem melhor estando descansados, com vida social ativa", avalia o diretor.

A medida contribui de forma significativa para a retenção de talentos.
Celso D. Valle, do hotel Palácio Tangará

Gerente de serviços do hotel, Maria Carolina Sabbag, 40, nunca havia trabalhado em 5x2 nos 20 anos de hotelaria. "Foi uma alegria. É o sonho de todo mundo trabalhar no 5x2", diz. "Quem já folga dois dias não percebe a diferença, mas é muita."

 "Quem já folga dois dia não percebe a diferença"
A gerente de serviços do hotel, Maria Carolina Sabbag: "Quem já folga dois dia não percebe a diferença" Imagem: Arquivo Pessoal

Agora tenho um dia pra marcar médico, fazer mercado, cuidar da casa. E outro pra descansar, ver amigos, visitar meu pai.
Maria Carolina Sabbag, gerente de serviços

Chefe de rotisseria em uma unidade do Pão de Açúcar, Francisca Maria Chaves, 44, celebra a nova jornada. A unidade da Vila Saúde, na zona sul, iniciou seu projeto-piloto no dia 2 de fevereiro. "Foi maravilhoso. Consegui organizar minha vida", diz ela, que por 12 anos trabalhou em escala 6x1.

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Ontem fui ao banco, fiz um exame e hoje já limpei a casa. Agora é lazer.
Francisca Maria Chaves, chefe de rotisseria

'Preços vão subir'

 "Consegui organizar minha vida".
A chefe de rotisseria Francisca Maria Chaves celebra fim do 6x1: "Consegui organizar minha vida". Imagem: Arquivo Pessoal

Mesmo quem aderiu ao 5x2 discorda da proposta do governo de reduzir a carga horária semanal. "Se a redução for aprovada, o varejo precisará reduzir o horário de atendimento para se adequar com o mesmo pessoal e custos, ou terá de contratar", diz Campos, da Savegnago. "A redução de jornada deve vir acompanhada de incentivos ao ganho de produtividade", completa Carneiro, do Pague Menos.

Para alguns setores, a mudança pode significar o fim do negócio. Diretor do frigorífico Tropeira Alimentos, em Contagem (MG), Pedro Braga diz que o setor é pouco automatizado, "dependendo muito de mão de obra". "A queda nas horas trabalhadas vai inviabilizar muitos pequenos e médios negócios", diz ele, que também é presidente do Sinduscarne, o sindicato patronal do setor.

O preço da produção da carne e seus derivados vai subir, e esse custo vai para o preço final.
Pedro Braga, da Tropeira Alimentos

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Fábrica do frigorífico Tropeira Alimentos, com 450 funcionários
Fábrica do frigorífico Tropeira Alimentos, com 450 funcionários Imagem: Divulgação

O diretor é cético quanto ao aumento da produtividade. "Quando tem feriado na sexta, o funcionário não volta produzindo mais na segunda", afirma.

A indústria é um dos setores mais resistentes à mudança. "Produtividade não depende só de horas trabalhadas ou descanso, mas de fatores estruturais como qualificação profissional, tecnologia, organização do trabalho e ambiente econômico", diz em nota a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais.

O custo do trabalho vai aumentar, diz pesquisa do Ipea. A redução da jornada elevará entre 7,8% e 17,5% o custo do trabalhador com carteira assinada, dependendo do tamanho da redução da jornada, diz o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Embora o governo deseje reduzir de 44 para 36 horas semanais, é provável que a redução aprovada seja para 40 horas.

Por outro lado, o desemprego médio não deve aumentar. O impacto seria menor do que os reajustes históricos do salário mínimo, que não afetaram o número de vagas, segundo o instituto.

Outro estudo indica pequeno aumento do desemprego. O CLP (Centro de Liderança Pública) adaptou ao Brasil um estudo que analisou a redução da jornada em Portugal de 44 para 40 horas. A produtividade por trabalhador cairia 0,7%, o emprego formal reduziria 1,1% e 638 mil empregos seriam cortados.

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Populismo ou clamor popular?

Lula em entrevista ao UOL
Lula em entrevista ao UOL Imagem: Kleyton Amorim/UOL

O presidente da Câmara prometeu votar até maio o fim da escala 6x1. Hugo Motta (Republicanos-PB) pretende ignorar uma Proposta de Emenda Constitucional enviada pelo governo, já aprovada no Senado, para votar um projeto da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG).

O tema será uma das bandeiras para a reeleição do presidente Lula (PT). "Quando há clamor das ruas e redes, até o Congresso adere", diz Josimar Andrade, diretor do Sindicato dos Comerciários de São Paulo. "É como a redução do imposto de renda. Não é uma pauta do governo Lula, é popular, vem como trator."

Braga, da Tropeira Alimentos, discorda. Para ele, trata-se de "uma proposta com fins eleitoreiros".

Qualquer um vai querer trabalhar menos e ganhar o mesmo. Não sou contra a redução da jornada, mas antes precisa aumentar a produtividade.
Pedro Braga, da Tropeira Alimentos

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