Em resposta a minha coluna do último domingo (1º), Joel Pinheiro da Fonseca escreveu nesta Folha, no dia 2 de março, que Flávio Bolsonaro não é golpista; que Flávio pedir impeachment de ministros do STF o iguala a quem critica os ministros pela atuação no caso Master; e que a hegemonia bolsonarista dentro da direita brasileira é um fato incontornável, diante do qual tudo que a direita tradicional pode fazer é se adaptar.
Não, Joel.
A candidatura Flávio Bolsonaro nunca foi inevitável. Ela existe porque a estratégia da direita brasileira nos últimos três anos, a moderação do bolsonarismo, fracassou. Você a defendeu explicitamente na coluna "Precisamos do bolsonarismo moderado", de 29 de abril de 2024. Deu errado. Vocês queimaram os governadores de direita, que se sujeitaram às piores perversões de Jair para conseguir um apoio que nunca veio.
Agora que o bolsonarismo moderado não apareceu, não adianta revisar a dosimetria de quem vocês mesmo reconheciam como golpistas três meses atrás.
Afinal, se Flávio for mesmo um democrata, você e o pessoal do "bolsonarismo moderado" lhe devem desculpas. Nunca citaram o nome do senador entre os bolsonaristas moderados. Flávio fazia parte da turma por comparação a quem a suposta moderação de Tarcísio era exaltada. Como você ignorou esse Tancredo Neves de Rio das Pedras, Joel?
Mas Flávio é golpista. Pretende anistiar os membros de sua quadrilha que tentaram o golpe em 2022. Em entrevista à Folha em 14 de junho de 2025, disse que, se o STF considerar a anistia inconstitucional, dará um golpe. Apoiou com entusiasmo o tarifaço, a primeira tentativa de uma facção política brasileira de tomar o poder por intervenção direta de potência estrangeira em nossa história. Já declarou, inclusive, que adoraria ter Eduardo Bolsonaro, o articulador das tarifas, como chanceler.
Flávio e sua quadrilha tentam impichar ministros do STF desde muito antes do caso Master, Joel. Querem fazê-lo por vingança contra a atuação da corte na defesa da democracia e como advertência a qualquer outro ministro que se coloque contra a próxima ofensiva golpista.
É uma postura completamente diferente, quero crer, da do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que critica o STF pela promiscuidade de ministros com interesses empresariais.
A distinção fica ainda mais clara quando se percebe o óbvio: até agora, pelo menos (isso pode mudar), a esmagadora maioria dos envolvidos no caso Master vem da direita, inclusive da direita golpista. Todos os grandes partidos direitistas estão enroladíssimos.
O deputado Filipe Barros (PL-PR), por exemplo, pediu artigo 142 no Congresso em 30 de novembro de 2022. Já que ninguém o prendeu por isso, aproveitou para apresentar projeto elevando para R$ 1 milhão a cobertura do FGC para quem perdesse dinheiro em trambiques como o de Daniel Vorcaro.
A falcatrua em curso é a seguinte: diluir a fronteira entre as críticas bolsonaristas e as críticas republicanas ao STF, ao mesmo tempo em que se esconde do público a informação de que quase todos os envolvidos no escândalo do Master são de direita. É a abertura para justificar a adesão da direita tradicional à candidatura de Flávio.
Não entre nessa, Joel.

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