O Brasil tem uma característica recorrente: realiza reformas quando encurralado por crises.
Foi assim no Plano Real, diante de uma hiperinflação que corroía a economia. Foi assim, mais recentemente, de 2016 a 2019, na resposta à deterioração das contas públicas e da credibilidade macroeconômica.
A história sugere que avanços institucionais relevantes ocorrem quando o país se aproxima de um limite. Quando o custo de não agir supera o custo de reformar. Essa dinâmica, portanto, não é exclusiva do Brasil.
Em "O Corredor Estreito", Daron Acemoglu e James Robinson mostram que o desenvolvimento econômico depende de um equilíbrio delicado entre Estado e sociedade. Um "corredor estreito" no qual instituições são suficientemente fortes para coordenar, mas suficientemente limitadas para não capturar.
Fora desse corredor, o resultado seria ou um Estado frágil, incapaz de prover bens públicos, ou um Estado excessivamente dominante, que sufoca incentivos e reduz a eficiência econômica. O Brasil oscila entre esses extremos.
Temos um Estado grande, mas pouco eficaz. Gastamos muito e gastamos mal. Temos uma carga tributária elevada, dívida pública alta e crescente, combinada com baixa qualidade de gasto. Um ambiente de negócios complexo, em que regras são instáveis e o custo de capital permanece elevado mesmo em ciclos de queda de juros.
Costumamos atribuir esse quadro ao desequilíbrio fiscal. Mas essa é uma leitura parcial. O desequilíbrio fiscal é a manifestação de fatores mais profundos: uma estrutura de renda desigual, um processo demográfico que pressiona o gasto público e, sobretudo, instituições que não conseguem alinhar incentivos de forma consistente ao longo do tempo.
O resultado é um sistema que gera custo elevado de capital, baixa produtividade e crescimento limitado (ainda que, em vários momentos, apresente sinais de recuperação cíclica).
Folha Mercado
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O que torna o momento atual particularmente relevante é o contexto global. A economia internacional passa por uma reconfiguração importante. Cadeias produtivas se tornam mais fragmentadas e regionais, recursos naturais voltam ao centro das decisões estratégicas, e o custo de garantir segurança energética e alimentar aumentou.
Nesse novo ambiente, países com abundância de recursos naturais (terra, água, energia e minerais) ganham relevância relativa. O Brasil está entre eles. Mas essa vantagem não é automática. Ela precisa ser convertida em valor econômico e desenvolvimento. E isso depende, fundamentalmente, da qualidade das instituições.
A diferença entre países que capturam oportunidades e aqueles que as desperdiçam não está apenas na dotação de recursos, mas na capacidade de organizar regras estáveis, reduzir incertezas e alinhar incentivos. Esse é o verdadeiro "corredor estreito" brasileiro. A boa notícia é que o país já mostrou ser capaz de avançar quando pressionado. A má notícia é que, em geral, espera a crise para agir.
O desafio agora é antecipar o movimento, ou seja, percebermos a imensa vantagem que temos diante de uma reconfiguração global muito rápida. Reformas que melhorem a qualidade do gasto público, simplifiquem o ambiente de negócios e fortaleçam a previsibilidade institucional não são apenas desejáveis. São condição para que o Brasil transforme sua vantagem potencial em crescimento sustentado. Romper esse padrão exige deslocar o eixo da mudança.
Não se trata apenas de esperar decisões do sistema político, mas de reconstruir uma base mais ampla de coordenação entre sociedade, setor produtivo e instituições independentes.
Experiências bem-sucedidas mostram que reformas duradouras emergem quando há convergência entre pressão social organizada, capacidade técnica e compromisso com regras que transcendam ciclos eleitorais.
No Brasil, isso implica fortalecer organizações que operam com visão de longo prazo e ampliar o papel de um setor privado disposto a competir em ambiente mais aberto, não apenas a proteger posições estabelecidas. Esse processo também exige um ajuste menos visível, mas decisivo: a disposição de abrir mão de benefícios particulares em favor de um sistema mais equilibrado. A manutenção de exceções, subsídios cruzados e regimes diferenciados pode ser racional no nível individual, mas, no agregado, sustenta um ambiente de baixa produtividade e alto custo.
A saída desse ciclo passa por reconhecer que o ganho coletivo (mais crescimento, mais investimento e menor custo de capital) depende de uma revisão gradual desses arranjos. É nesse ponto que a agenda institucional deixa de ser abstrata e passa a ser uma escolha concreta de país.
Em um mundo mais fragmentado e competitivo, esperar o próximo momento de crise pode significar perder uma janela histórica. O Brasil não precisa estar à beira do precipício para avançar. Mas, para isso, precisa reconhecer que seus desequilíbrios mais visíveis são apenas sintomas de um problema mais profundo (institucional).
É justamente aí que começa a solução. E ela cabe a cada um de nós.

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