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Seu coach espiritual e religioso é uma IA. E você não sabe

É que Yang Mun tem um site onde comercializa e-books e programas de 30 dias de bem-estar espiritual.
O detalhe é que se apresenta como um coach digital, jamais cita que é gerado por inteligência artificial.

Ao descobrir o perfil, o número de amigos que o segue e seu faturamento de seis dígitos, a pergunta que não sai da minha cabeça não é "como isso é possível?"
É outra: por que funciona tão bem?

Personagens virtuais que são influenciadores nas redes não é novidade.
A Lu do Magazine Luiza, criada em 2003, é declaradamente um avatar.
Lil Miquela, nos Estados Unidos, nunca escondeu sua natureza artificial.
Eram personagens estilizados, claramente irreais, quase como desenhos animados tridimensionais.

A Inteligência Artificial generativa apagou esse limite.
Os avatares de hoje não parecem desenhos. Parecem pessoas.
Falam e gesticulam com naturalidade.
E dominaram uma habilidade que os personagens antigos não tinham: a capacidade de parecer genuínos.

O Coachella 2026 foi o laboratório mais recente desse fenômeno.
Enquanto Justin Bieber e Sabrina Carpenter tocavam no palco principal, influenciadores de IA circulavam pelo festival.
Só que sem ingresso e sem passagem aérea.
Sem existir.

Granny Spills é uma senhora de 75 anos debochada, bon vivant, sem filtros, que dá conselhos de relacionamento amoroso.
Tem mais de 2 milhões de seguidores apenas no Instagram
A personagem postou fotos com membros da família Kardashian e Jenner em cenários reconhecíveis do festival.

Mas o que viralizou foi uma foto dela no backstage com Justin e Hailey Bieber.
Ela usava uma camiseta escrito "Future Mrs. Bieber".
Achei real. Levei alguns segundos para entender que não era.

Aitana López também estava por lá
Criada pela agência espanhola The Clueless, Aitana é apresentada como uma jovem de 25 anos.
Cabelos cor-de-rosa, apaixonada por videogames e fitness.

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Fatura até 10 mil euros por mês em contratos com marcas.
Tem conta no Fanvue, plataforma similar ao OnlyFans.
E recebe mensagens privadas de pessoas que não fazem ideia de que ela não existe.

Os fãs de Aitana não a seguem apesar de ela ser falsa.
A seguem porque o universo que ela representa (a vida perfeita, as viagens, os looks, a rotina de bem-estar) é real o suficiente para despertar desejo e aspiração.
Ou seja, os novos avatares influenciadores de IA enganam (ou convencem) por outra razão.

O criador do monge Yang Mun pariu outros filhotes digitais por aí.
São 7 avatares no total, que rendem 21 vídeos por dia.
Tem desde um rabino com 40 anos de estudos (Menachem Goldberg) a um senhor aposentado de Nova York (Richard Hale) que se apresenta como bilionário self-made e guru de investimentos.

Todos vendem e-books e outros produtos digitais.
Três personas completamente distintas, explorando um nicho diferente de ansiedade humana: espiritualidade, sabedoria religiosa e sucesso financeiro.

"As pessoas se importam com a mensagem, não com a tecnologia", explica Shalev Hani.
Ele está certo: o que esses avatares vendem não é conteúdo. É pertencimento.
É a sensação de ser compreendido por "alguém" que nunca te julga, nunca está de mau humor e sempre tem a frase certa na hora certa.

O mercado gospel brasileiro é o melhor termômetro disso.
Hikari de Jesus, um jovem asiático tatuado (referência ao K-pop) tem mais de 1 milhão de seguidores no Instagram cantando seus louvores gerados por IA.

Por que funciona?
Porque quem consome esse tipo de conteúdo não está necessariamente buscando autenticidade artística.
Está buscando conforto, motivação e palavras de apoio 24h por dia.

Mas tem um porém.
Quando um avatar de IA oferece acolhimento emocional sem se identificar como máquina, ele não é apenas uma estratégia de marketing agressiva.
É uma forma de manipulação que explora exatamente os momentos de maior vulnerabilidade das pessoas.

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A IA generativa é, por natureza, um sistema de adaptação.
Ela imita linguagem, padrões emocionais, estilos de aconselhamento.
O que poderia ser um acesso eficiente a informações se transforma num bate-papo contínuo com uma figura de autoridade.
O algoritmo se torna pastor, coach e, às vezes, referência moral.
O risco não é só individual. É coletivo.

Nas mesmas redes sociais há diversos vídeos de pessoas pedindo para denunciar o perfil de Yang Mun.
As plataformas, para variar, demoraram demais para agir. Ele continua lá, com contas reservas e tudo.
Afinal, esses conteúdos engajam, prendem os seguidores, criam dependência.
Tudo que as Big Techs querem.

Já existe até um projeto brasileiro para identificar os perfis de IA que fazem marketing de influência espiritual e religioso sem deixarem isso claro.
Chamado de Profetas Sintéticos, trata-se de uma plataforma aberta que usa, olha só, inteligência artificial para validar que é real de quem é virtual.

Até o momento que escrevo este texto, o site diz já ter identificado mais de 60 perfis que não são humanos.
Um deles é o de Aharon Viana, mistura de pastor com cantor country, que tem cerca de 500 mil seguidores no Instagram e vende um "áudio devocional".

A questão é que estamos tão treinados pelos algoritmos a consumir exatamente o que já acreditamos, e a ignorar o que nos desafia, que a mensagem se tornou mais importante que o mensageiro.

Não importa se é um monge real ou gerado por prompt.
Não importa se é uma vovó no Coachella ou um deepfake.
Não importa se a voz de encorajamento vem de um ser humano ou de um servidor na nuvem.

Se ressoa, se conforta, se confirma o que já sentimos?
Consumimos.
E alguém, em algum lugar, está lucrando muito com isso.

A pergunta que fica: se o conforto é real, o engano importa?

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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