O ato de divulgar imagens e dados de filhos nas redes é conhecida pelo termo em inglês sharenting – que mistura as palavras "sharing" (compartilhando) com "parenting" (criação dos filhos) –, e vem sendo questionada por especialistas de diversas áreas, como segurança digital, direito e psicologia. É comum ver nas redes sociais fotos de bebês e crianças sorrindo, dançando ou falando diante das câmeras. Embora possa parecer uma prática inofensiva, registrar e compartilhar esses registros pode gerar impactos na vida dos pequenos.
Estudos recentes revelam que essa exposição pode abrir espaço para crimes como roubo de identidade, uso indevido de imagens em contextos de pornografia infantil, criação de perfis falsos e até situações de constrangimento ou cyberbullying. A seguir, entenda o que é o sharenting, saiba quais são os principais riscos envolvidos e veja como proteger as crianças na web.
Sharenting: por que expor tanto seu filho na Internet pode ser perigoso — Foto: Reprodução/Unsplash/Beth Macdonald O que é sharenting? Saiba tudo neste guia
O TechTudo reuniu oito coisas que você precisa saber sobre sharenting no guia abaixo. A seguir, confira os tópicos que serão abordados nesta matéria.
- O que é sharenting e por que o termo se popularizou?
- Quais são os principais riscos do compartilhamento excessivo?
- Onde essas imagens podem parar?
- O que dizem os especialistas?
- O que diz a lei?
- O que dizem as redes sociais?
- Casos reais de uso indevido de imagens infantis
- Como compartilhar com segurança?
O que é sharenting? Saiba tudo neste guia — Foto: Reprodução/Getty Images 1. O que é sharenting e por que o termo se popularizou?
O conceito surgiu na década de 2010 para descrever o comportamento cada vez mais frequente de pais, mães e responsáveis que compartilhavam detalhes da vida de seus filhos nas redes sociais. A prática ganhou ainda mais força com a ascensão do Instagram e do TikTok, plataformas nas quais os algoritmos favorecem vídeos emotivos ou do dia a dia.
No entanto, conforme os riscos da superexposição infantil começaram a ficar mais evidentes, o termo passou a ser usado com tom crítico. Apesar de parecer um ato inofensivo e divertido, o sharenting pode ter consequências sérias, já que as imagens muitas vezes ficam públicas e disponíveis por tempo indeterminado, sem que a criança tenha dado o consentimento.
O que é sharenting e por que o termo se popularizou? — Foto: Reprodução/NyDailyNews.com 2. Quais são os principais riscos do compartilhamento excessivo?
O compartilhamento de fotos e vídeos de crianças nas redes sociais pode parecer inofensivo, mas especialistas alertam para riscos reais dessa prática. Ao publicar detalhes da vida dos pequenos online, responsáveis podem acabar expondo informações sensíveis que podem ser usadas de forma indevida e perigosa. A seguir, confira alguns dos principais perigos associados ao sharenting:
- Roubo de identidade: dados como nome completo, data de nascimento e localização permitem que criminosos usem a identidade da criança para fraudes;
- Uso em pornografia infantil: fotos aparentemente inocentes, como crianças de fralda ou na praia, podem ser capturadas e redistribuídas em fóruns criminosos;
- Deepfakes e perfis falsos: imagens podem ser manipuladas com inteligência artificial (IA) para gerar conteúdos falsos ou usadas para criar perfis fake em redes sociais;
- Constrangimento e cyberbullying: no futuro, as crianças podem se sentir humilhadas ou expostas por registros feitos sem consentimento. Além disso, elas podem virar alvo de comentários maldosos ou ofensivos nas redes sociais.
Um estudo recente e inédito da Unicesumar mostrou que 43% dos pais brasileiros postam imagens dos filhos nas redes, mas apenas 27% consideram os riscos envolvidos. A pesquisa também revelou que mais de 80% das crianças em países ocidentais têm presença online antes mesmo dos dois anos de idade. O trabalho fez um levantamento de mais de 70 estudos internacionais sobre o tema, escritos em em inglês, espanhol e português e publicados entre 2016 e 2023.
3. Onde essas imagens podem parar?
Pesquisa reversa por imagens podem permitir acesso a mais registros de crianças online — Foto: Reprodução/Plixi.com Plataformas como Instagram, Facebook e TikTok não conseguem impedir que capturas de tela, downloads e compartilhamentos indevidos ocorram. Uma vez que a imagem da criança é publicada, mesmo que em perfis privados, ela pode ser copiada e circular na web, inclusive em sites de conteúdo impróprio, bancos de dados clandestinos ou fóruns anônimos. Além disso, há aplicativos e ferramentas de busca reversa de imagens que conseguem localizar e reunir diversas fotos da mesma pessoa, facilitando o rastreamento e a criação de conteúdos impróprios por meio de inteligência artificial.
4. O que dizem os especialistas?
Segundo a advogada Fabiani Borges, especialista em proteção de dados ouvida pela Rádio Câmara, um dos pontos mais preocupantes do sharenting é a falta de clareza dos pais sobre os riscos envolvidos na prática que parece inofensiva. Já a advogada Isabella Paranaguá, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) da seção Piauí, afirma que a exposição excessiva pode acabar revelando informações pessoais e trazendo problemas de privacidade e segurança.
A prática também pode trazer transtornos para as crianças no futuro. Como alerta a Kaspersky, empresa especializada em cibersegurança e proteção digital, muitas das postagens com imagens dos pequenos podem, mesmo sem intenção, deixar rastros digitais por toda a vida.
Para a psicóloga clínica Laura Quadros, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ouvida pelo O Globo, obrigar uma criança a aparecer nas redes sociais é uma forma de violar seu direito à privacidade. Ainda segundo a especialista, a exposição pode causar desconforto e afetar a confiança nos responsáveis e a autoestima dos pequenos.
Saiba mais sobre o sharenting — Foto: Reprodução/GettyImages (Justin Paget) A pediatra Liubiana Arantes de Araújo, presidente do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), também entrevistada para a matéria, afirma que o sharenting pode influenciar negativamente o desenvolvimento neurológico das crianças. De acordo com ela, o hábito de postar imagens dos filhos desde cedo pode condicionar o cérebro infantil a buscar a mesma liberação de dopamina experimentada pelos pais ao receber curtidas e validações online.
A legislação brasileira oferece alguns mecanismos de proteção para as crianças em relação à exposição online. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por exemplo, garante o direito à privacidade e à preservação da imagem de crianças e adolescentes. Além disso, a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) trata dados de menores como sensíveis e exige consentimento específico dos responsáveis para coleta, armazenamento e uso. No entanto, ainda não existe uma regulação específica sobre sharenting no Brasil, o que significa que a responsabilização por danos causados por postagens indevidas depende de ações judiciais.
6. O que dizem as redes sociais?
Responsáveis podem recorrer à configurações de privacidade e "modo restrito" nas redes para proteger crianças — Foto: Reprodução/Canva Plataformas como o Instagram e o Facebook permitem configurações de privacidade mais restritivas, mas o controle sobre quem vê ou compartilha os conteúdos ainda é limitado. Já redes como o TikTok e o YouTube tem uma função de “modo restrito”, que visa proteger menores de conteúdo impróprio, mas não impede o compartilhamento de imagens públicas. Essas plataformas não removem automaticamente fotos de crianças publicadas por responsáveis e a maioria das políticas de uso foca na proteção contra abusos cometidos por terceiros, ou seja, não define medidas para controle da exposição voluntária feita pelos próprios pais e responsáveis.
7. Casos reais de uso indevido de imagens infantis
Não são raros os relatos de famílias que descobriram fotos dos filhos em anúncios falsos, grupos suspeitos ou montagens ofensivas. Em 2024, a Human Rights Watch revelou que fotos pessoais de crianças brasileiras foram coletadas sem consentimento para treinamento de ferramentas de inteligência artificial. Essas imagens, muitas vezes extraídas de redes sociais e blogs familiares, incluíam informações sensíveis como nomes e locais frequentados, facilitando a identificação das crianças. Além disso, algumas dessas imagens foram utilizadas para criar deepfakes maliciosos, expondo as crianças a riscos significativos de privacidade e segurança.
Imagens da menina Alice foram compartilhadas como meme nas redes sociais, sem autorização dos pais — Foto: Reprodução/Itaú/YouTube Outro episódio que acendeu o debate sobre o tema foi o "Caso Alice", menina que ficou famosa nas redes por pronunciar palavras difíceis de forma correta. Após gravar um comercial do Itaú, em 2022, a imagem da criança foi amplamente compartilhada na Internet na forma de memes, sem o consentimento dos pais. A situação gerou discussões sobre o uso indevido de imagens de menores e levou especialistas a alertarem sobre os riscos do sharenting.
Evelyn Orozimbo relatou que filha recém-nascida foi vítima de ofensas e xingamentos nas redes sociais — Foto: Reprodução/BBC.com No mesmo ano, a atendente Evelyn Orozimbo, de 26 anos, compartilhou um vídeo sobre os primeiros meses de vida de sua filha. A imagem da criança foi amplamente compartilhada na Internet na forma de memes, sem o consentimento dos responsáveis. Segundo relato da mãe, usuários utilizaram as redes sociais para ofender a criança, fazer comentários depreciativos sobre sua aparência e até desejar a morte da bebê. Evelyn precisou registrar um boletim de ocorrência para tentar conter a propagação das imagens.
8. Como compartilhar com segurança?
Especialistas recomendam consultar crianças mais velhas para não compartilhar imagens que as deixem desconfortáveis — Foto: Reprodução/Canva Para quem deseja continuar registrando momentos com os filhos nas redes sociais, especialistas recomendam algumas boas práticas para reforçar a segurança dos pequenos. Confira, a seguir:
- Evite mostrar rostos, nomes completos e uniformes escolares;
- Desative a geolocalização e o armazenamento automático em nuvem pública;
- Use apenas perfis privados e revise a lista de seguidores com frequência;
- Evite publicar conteúdos íntimos, como banho e troca de roupas;
- Converse com crianças mais velhas e adolescentes sobre o que eles se sentem confortáveis em compartilhar.
Álbuns digitais privados, backups protegidos por senha e grupos fechados entre familiares também são alternativas mais seguras.
Veja também: Como fazer backup no WhatsApp! Tutorial completo no iPhone e Android
Como fazer backup no WhatsApp! Tutorial completo no iPhone e Android

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8 meses atrás
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