O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta quarta-feira, sobre a taxação de 50% aos produtos brasileiros exportados para o país norte-americano, repercutiu fortemente no Brasil e na comunidade internacional. Na avaliação do professor João Jung, de Relações Internacionais da Pucrs, a tarifa, se for aplicada, é prejudicial economicamente tanto para o Brasil quanto para os EUA.
Jung acredita que, dado o histórico recente de recuos de Trump em taxações anunciadas para outros países, é possível que a tarifa ao Brasil seja revista, podendo ser cancelada ou diminuída. Quanto à posição do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de articular negociações para rever a tarifa e de afirmar a soberania brasileira frente aos ataques unilaterais de Trump, o professor avalia como positiva.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Jung comenta a simbologia envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na carta enviada por Trump ao Planalto, em que o mandatário dos EUA cita uma suposta "caça às bruxas" ao ex-chefe do Executivo brasileiro, que atualmente está inelegível e passando por um processo judicial envolvendo acusações de participação em tentativa de golpe de Estado.
Jornal do Comércio - O que significa esta tarifa de 50% dos produtos brasileiros?
João Jung - Esse anúncio de Donald Trump de colocar tarifa 50% em relação aos produtos brasileiros compõe uma espécie de arcabouço, de léxico, de vocabulário que o governo Donald Trump tem utilizado não apenas com o Brasil, mas com uma série de países. Se não todos, pelo menos todos que circundam o radar da política externa dos Estados Unidos. Tem sido utilizado como uma espécie de barganha para fazer valer intenções ou vontades do governo Trump, e o Brasil agora é uma das grandes bolas da vez. A gente começou a falar muito fortemente sobre essa questão das tarifas naquela guerra comercial entre Estados Unidos e China, mas assim como aconteceu com a China e assim como aconteceu com boa parte ou a maioria dos países que Trump ameaçou taxar, as taxações ou não ocorreram ou foram menores do que as inicialmente anunciadas, ou foram restritas a apenas um pequeno grupo de produtos ou setores específicos, e não aos produtos como um todo. Então, frente ao cenário contemporâneo de 50%, me parece ser um argumento mais de intencionalidades políticas, que talvez não tenha nem como se concretizar economicamente ou se concretizar sem prejudicar o próprio governo Trump e sua popularidade interna.
JC - Então acredita que, por razões econômicas, é possível que haja um recuo dos EUA?
Jung - É anunciado para 1º de agosto (o início da vigência das tarifas), e o governo brasileiro respondeu com um tom, digamos assim, firme. O governo dos EUA pode de fato querer cumprir com isso, principalmente em resposta ao governo brasileiro, que se demonstrou firme para tentar mostrar uma força. Só que não vejo isso se sustentando no longo prazo. Em primeiro lugar, porque não faz sentido economicamente para os próprios Estados Unidos, e em segundo lugar, porque não faz sentido politicamente, porque quando uma coisa não faz sentido economicamente, o eleitor começa a ficar descontente, começa a não ver sentido nas políticas feitas pelo seu governante, porque afinal das contas é o bolso que manda. A partir do momento em que certos produtos começam a ficar mais caros, por exemplo suco de laranja, café, produtos que o trabalhador que vai ao supermercado comprar vão ficando mais caros, isso é o tipo de coisa que desgasta o governo. Assim, pode se efetivar? Pode. Se efetivar esses 50%, tem que ver se vão ser os 50% e se vão ser 50% sobre todos os produtos, o que eu já começo a achar difícil, porque pode ser sobre alguns setores, exatamente para livrar setores que são mais perceptíveis pelo eleitorado. E se for cumprindo essas situações, essas hipóteses, tem ainda que observar se de fato isso se mantém muito além do dia 1º de agosto, se depois de um tempo já tem uma espécie de recuo. E esses recuos têm sido bem comuns dentro do governo Trump.
JC - Esse anúncio das tarifas foi uma surpresa ou já havia uma expectativa neste sentido?
Jung - Era minimamente esperado, no sentido de que tem sido um modus operandi do governo Trump. Não foi uma coisa com o Brasil, foi uma coisa com parceiros tradicionais, como a própria Coreia do Sul, porque ele também colocou 25% de taxas para a Coreia do Sul, que é um parceiro tradicional, e que é extremamente dependente dos Estados Unidos em muitos aspectos. E o Brasil está com um governo que é crítico ao governo Trump, que é antagonista ao governo Bolsonaro - que é a base de apoio que o Trump tem no Brasil. O Brasil que, com o Lula, fomentou a criação do Brics e realizou o Brics, e, nos governos Lula 1 e Lula 2, foi um dos poucos momentos da história que teve superávits comerciais com os Estados Unidos. Então existe uma espécie de inimizade, uma espécie de desgosto por parte de Donald Trump em relação ao Brasil com as intenções de projeção internacional durante os governos Lula. Isso faz com que a gente ligue os pontos e veja que isso (as tarifas) faz algum sentido, não é uma coisa que veio do nada. Tanto por parte dos Estados Unidos quanto por parte do Brasil.
JC - Na prática, quais os impactos econômicos das tarifas para o Brasil e para sua população?
Jung - Depende. Qual é o fato? O fato foi o governo dos Estados Unidos ameaçando taxar em 50% os nossos produtos. O que vai acontecer? Os nossos produtos, quando entrarem nos Estados Unidos, vão ter um valor de 50% acrescido de impostos para o governo dos Estados Unidos. E de onde vão sair esses 50%? Não vai ser um empresário dos Estados Unidos que vai tirar de sua margem, vai aumentar o produto em 50%, e assim funciona o mundo capitalista, quem vai ter que arcar com isso é o consumidor. No Brasil, o que a gente vai sentir ou não vai sentir depende de qual vai ser a resposta do governo de fato. O presidente Lula está falando em acionar a Lei de Reciprocidade Econômica, que levaria, se for seguir estritamente, a fazer com que os produtos dos Estados Unidos também entrem com 50%. E quem vai arcar com isso? Nós consumidores. E aí tem que ver qual o tipo de produto que o Brasil compra dos Estados Unidos. Os produtos que os Estados Unidos compra do Brasil são, em larga medida, semimanufaturados, muitas commodities e poucos produtos manufaturados. Em contrapartida, qual a principal coisa que o Brasil compra dos Estados Unidos? Petróleo refinado, que é basicamente diesel. Então o preço do diesel tenderia a aumentar, o preço de bens de consumo geral de origem dos Estados Unidos, que vão desde vestuário até eletrônicos e automóveis, tenderia a aumentar. É difícil a gente pensar nessa lógica dos 50%, ou de qualquer tarifa que se imponha, como algo universal em todos os setores econômicos, porque cada setor tem as suas peculiaridades.
JC - E como avalia a resposta do governo Lula?
Jung - A resposta a esse tema especificamente eu acho que foi bem feita por parte do governo brasileiro, e é claro que isso foi junto ao Itamaraty, que a gente deve lembrar que o Ministério de Relações Exteriores do Brasil tem um grupo extremamente competente na gestão de crise, e é uma crise. E acho que a resposta foi bem feita, o Brasil se posicionou firmemente, defendeu sua soberania. Porque agora a gente falou firme com os Estados Unidos, mas no futuro pode precisar falar firme com a China, por exemplo, ou com a União Europeia. Então demarcar o território e mostrar que aqui o território é nosso, nós temos as nossas leis, e a gente faz a nossa política externa. E pensando que política externa é uma política pública, assim como políticas de educação e de saúde, e que é feita a partir de agentes governamentais em contato com a sua sociedade, ela não pode sofrer interferências ou ceder a chantagens ou a tentativas de barganha espúrias de governos exteriores, sejam eles potência ou não potência, sejam eles ocidentais ou orientais. Então a resposta foi bem feita, foi em um tom correto de demonstrar firmeza, mas firmeza aberta à negociação, e isso ficou claro o tempo todo, que o governo brasileiro está aberto ao diálogo e gostaria de conversar, dizendo que não é por aí o caminho, e vai chamar a OMC (Organização Mundial do Comércio) para ver, de verdade, se estaria dentro do regime internacional do comércio. E eu já respondo que não, que essa linguagem do governo dos Estados Unidos em relação às tarifas é contrária ao regime internacional do comércio. Tudo isso (resposta e ações do Brasil frente às tarifas) pensando em meios de trazer outros agentes, inclusive, para fazer uma mediação dessa situação entre Brasil e Estados Unidos para poder apaziguar e equalizar, e fazer com que não chegue às vias de fato, em uma realidade em que todos os produtos brasileiros sejam taxados em 50%, o que não é bom para ninguém.
JC - E medidas e posições do governo Lula anteriores ao anúncio das tarifas, o senhor acredita que podem ter influenciado?
Jung - Se a resposta brasileira a essa situação específica foi bem feita e amarrada, a gente deve pensar em alguns aspectos anteriores que levaram a este fenômeno como um todo, e é aí que talvez o governo brasileiro tenha falhado. Me parece que muita vezes o governo Lula 3 tenha perdido um pouco a mão em relação à política externa, no sentido de que historicamente o Brasil faz muito bem esse balanço, essa diplomacia pendular, essa distância pragmática entre diferentes polos de poder, em que o Brasil tem a tendência a conseguir mediar ou conseguir circular entre blocos econômicos globais. Mas nesse governo Lula 3 parece que está faltando um pouco de tato, principalmente quando entra o governo Trump, acho que faltou um pouco de prudência em algumas declarações, em alguns posicionamentos do governo Lula, principalmente ao que tange à relação com Israel, que é um ponto muito sensível da percepção dos governantes dos Estados Unidos. Então, se a resposta foi bem feita, alguns fatos que levaram à jornada para se chegar neste ponto que o Trump chegou, o governo brasileiro falhou.
JC - O ex-presidente Bolsonaro é citado na primeira frase da carta enviada por Trump. Avalia ter uma simbologia nisso?
Jung - Tem um mise-en-scène, a gente tem uma manobra por parte de Donald Trump completamente fora da linguagem diplomática, da linguagem de como um chefe de Estado se refere a um outro país, ou à situação política de um outro país. Também isso é uma coisa que está dentro do vocabulário político de Trump, essa espécie de "quinta série política", que foge dos protocolos da diplomacia com a qual se lida esses assuntos. É curioso, e as tendências de a gente pensar em articulações de bastidor (por parte de aliados de Jair Bolsonaro) são fortes. E como a gente lembra, quando existia um governo Bolsonaro no Brasil e um governo Trump nos Estados Unidos, o governo Bolsonaro tinha esse ufanismo em relação a uma aproximação com os Estados Unidos, mas que o Trump olhava sem grandes importâncias. O Trump olhava: 'ok, legal, mas não estou muito preocupado contigo'. E isso ficou evidenciado em uma série de fatos e de eventos quando coexistiram o governo Bolsonaro e o governo Trump. Então agora essa mudança de linguagem, essa importância dada à questão do Bolsonaro, só levantou algumas suspeitas e algumas perguntas do porquê disso. E, novamente, fugindo completamente da linguagem padrão, querendo se intrometer em um assunto de Justiça de um outro país, o que fere as capacidades soberanas de um Estado, e coloca em dúvida a funcionalidade das instituições democráticas de um Estado Democrático de Direito. Então assim, tem um nível simbólico muito forte de trazer o governo Bolsonaro na primeira linha, e tem palavras escritas capitalizadas, como se fosse uma vociferação, um grito. E assim, quais seriam os interesses de Trump por trás disso? Porque novamente, Trump não está nem aí para Bolsonaro, como já foi evidenciado quando coexistiram os governos. A questão é o que pode ter sido prometido para Trump em uma eventual vitória, não do Bolsonaro atualmente, que está inelegível, mas do seu ungido. Também é uma outra questão que vai dar problema (nas eleições do) ano que vem, e vai ser muito turbulento.
JC - Nos últimos anos, tem havido o aumento de guerras e disputas comerciais mais acirradas. Acredita ser uma tendência de um futuro cada vez mais conflituoso?
Jung - Essa é a grande questão, porque eu gostaria de dizer que não, mas infelizmente todas as variáveis que se colocam no papel para montar a equação dão uma equação conflitiva, beligerante. Faltam instrumentos que a gente consiga vislumbrar hoje que possam desenhar um futuro, pelo menos num médio prazo, mais positivo, mais pacífico. Acho que a gente tem que imaginar algumas possibilidades desse cenário mudar, e começar com a resolução do conflito russo-ucraniano, que mobiliza todas as potências. E vejo mais solucionável o conflito entre Rússia e Ucrânia do que o no Oriente Médio, apesar de estar com um cessar fogo agora.

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