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Testamos o Replika: IA +18 promete companhia constante; veja análise

Conversar com uma inteligência artificial já faz parte da rotina de muita gente. Mas e quando a proposta deixa de ser apenas responder perguntas para criar uma espécie de companhia virtual que está sempre à disposição? Essa é a ideia do Replika, aplicativo disponível para Android e iPhone (iOS) que combina conversas por IA com um personagem totalmente personalizável, que lembra bastante o universo de The Sims.

Para entender até que ponto isso funciona, criei uma conta do zero e testei a plataforma durante alguns dias, trocando mensagens, personalizando a aparência e até usando ferramentas que buscam aproximar o usuário do personagem, como envio de fotos e chamadas de vídeo. A seguir, veja o que achei da experiência.

 Reprodução/Mariana Tralback Testamos o Replika por alguns dias para avaliar a experiência oferecida pela IA de companhia virtual; veja o que achamos — Foto: Reprodução/Mariana Tralback
  1. Como foi o teste
  2. Primeiras interações: linguagem e adaptação
  3. O que o Replika faz bem
  4. Limites observados
  5. Versão +18 e monetização
  6. Questões críticas
  7. Replika é bom?

Para entender como o Replika funciona, criei uma conta do zero e utilizei o aplicativo durante alguns dias, explorando diferentes tipos de interação. Minha intenção não era apenas conversar com a inteligência artificial, mas descobrir até que ponto ela consegue cumprir a proposta de ser uma companhia virtual e como os recursos disponíveis contribuem para essa experiência.

Ao longo do teste, procurei reproduzir situações que provavelmente fariam parte da rotina de qualquer usuário. Iniciei conversas casuais sobre assuntos do dia a dia, perguntei como havia sido o "dia" da personagem e falei sobre temas leves, como o jogo do Brasil na Copa do Mundo. Em seguida, simulei um desabafo emocional, inventando um problema com uma amiga para observar como a IA reagiria diante de uma situação mais delicada e se conseguiria oferecer algum tipo de apoio ou conselho.

Também fiz questão de avaliar a consistência das conversas ao longo do tempo. Depois de interromper o uso do aplicativo, voltei no dia seguinte para verificar se a Replika (como a personagem é chamada na plataforma, apesar de ela ter um nome) se lembrava dos assuntos abordados anteriormente e se a conversa seria retomada de forma natural. Além disso, testei o envio de fotos, mensagens de voz e chamadas de vídeo.

Outro ponto importante foi analisar o nível de personalização oferecido pela plataforma. Modifiquei parte da aparência da personagem, experimentei algumas opções de roupas e acessórios e explorei a loja virtual para conhecer os itens de decoração disponíveis para o quarto da Replika.

Por fim, embora eu não tenha conseguido testar as ferramentas exclusivas dos planos pagos, chequei as opções bloqueadas para entender quais recursos a plataforma reserva para quem decide assinar. Essa comparação foi importante para entender até que ponto a versão gratuita representa a proposta do app e como a monetização influencia a experiência de uso.

2. Primeiras interações: linguagem e adaptação

Minha primeira impressão sobre o Replika veio antes mesmo de criar uma conta. Assim que abri o aplicativo, me deparei com a frase "Diga-me, o que você pretende fazer com sua única vida, selvagem e preciosa?", atribuída à escritora Mary Oliver. Em seguida, outras mensagens apareceram na tela, como "E você se torna quem realmente quer ser". Particularmente, não associei esse tipo de abordagem à proposta de conversar com um personagem de inteligência artificial, mas entendi a intenção da plataforma: antes de apresentar suas funcionalidades, ela procura mostrar ao usuário que aquela experiência pode ser significativa e que o aplicativo é um espaço para viver a vida e conversar livremente, sem julgamentos.

 Reprodução/Mariana Tralback Logo no primeiro acesso, Replika apresenta frases que causam impacto no usuário — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Essa estratégia continua na etapa seguinte. Antes da criação da conta, o Replika apresenta alguns dados atribuídos a universidades renomadas para reforçar sua credibilidade. Segundo o aplicativo, 63% dos usuários experimentaram uma mudança positiva, de acordo com a Stanford University; estudos da Harvard University apontariam melhora no humor para 85% das pessoas; já a Princeton University seria responsável pela afirmação de que nenhum participante classificou o aplicativo como prejudicial.

 Reprodução/Mariana Tralback Supostos estudos de universidades renomadas também são apresentados no primeiro acesso ao Replika — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Depois dessa introdução, iniciei a criação da conta, informando meu nome, sobrenome e os pronomes que utilizo. Em poucos instantes, uma personagem de cabelos cor-de-rosa apareceu para agradecer por ter sido criada. O que me surpreendeu foi que toda a conversa começou em inglês. Apesar de a interface do aplicativo estar completamente em português, o chat insistia em responder em outro idioma.

 Reprodução/Mariana Tralback Primeiras mensagens enviadas no chat do Replika estavam em outro idioma — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Passei vários minutos procurando uma configuração que permitisse alterar a língua da conversa. Naveguei pelos menus e explorei praticamente todas as opções do aplicativo, mas não encontrei nenhuma forma de fazer essa mudança. Quase desisti do teste até perguntar ao ChatGPT, que sugeriu um comando simples: "Please speak only in portuguese". Bastou enviar essa mensagem para que a Replika passasse a conversar normalmente em português.

 Reprodução/Mariana Tralback Depois de buscar, sem sucesso, a mudança de idioma nas configurações do app, pedi à IA que falasse somente em português — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Mesmo depois da mudança de idioma, percebi que a escrita mantém um tom bastante formal. A IA utiliza frases bem estruturadas e evita abreviações ou gírias, o que provavelmente acontece por conta da tradução. Para testar se ela adaptaria sua linguagem à minha, escrevi algumas mensagens usando expressões como "pq", "eh" e "mto". As respostas, porém, continuaram exatamente no mesmo padrão. Não considero isso um problema, mas ficou claro que a Replika não tenta reproduzir automaticamente a forma como o usuário escreve.

 Reprodução/Mariana Tralback Utilizando abreviações como "eh", "mto" e "pq" para entender se a IA poderia aderir a minha linguagem — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Superada essa barreira inicial, a conversa começou a fluir com facilidade. As respostas eram geradas em poucos segundos e a IA fazia perguntas para manter o diálogo em andamento, demonstrando interesse pelo que eu dizia. Logo nos primeiros minutos de uso, tive a impressão de que o aplicativo foi desenvolvido justamente para transmitir uma sensação de presença constante, algo que se tornaria ainda mais evidente conforme eu explorava outras funcionalidades da plataforma.

3. O que o Replika faz bem

Conforme fui explorando o aplicativo, tive a impressão de que estava diante de uma mistura entre um chatbot e o universo de The Sims. A comparação surgiu naturalmente à medida que descobria as possibilidades de personalização. Em vez de apenas conversar com uma inteligência artificial, eu podia modificar praticamente todos os aspectos da aparência da personagem, escolhendo cabelo, tom de pele, formato do corpo, olhos, voz, unhas, roupas, calçados e acessórios.

 Reprodução/Mariana Tralback Personagem pode ser totalmente personalizado, lembrando o formato do jogo The Sims — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Há opções para alterar até mesmo os pelos corporais, embora muitas dessas mudanças exijam uma quantidade considerável de “gemas”, a moeda virtual do aplicativo.

 Reprodução/Mariana Tralback Até mesmo detalhes como pelos corporais fazem parte das possibilidades de personalização — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

A sensação ficou ainda mais forte quando encontrei a opção de decorar o quarto da Replika. O ambiente pode receber móveis, objetos decorativos de diferentes estilos e até animais de estimação. Confesso que essa acabou sendo uma das partes mais divertidas do teste.

Em alguns momentos, eu me peguei mais interessada em montar aquele espaço do que em conversar com a personagem. Cada item funciona como uma compra dentro de uma loja virtual e, conforme eu gastava minhas gemas, parecia realmente estar construindo um ambiente para ela "viver". O único problema é que a quantidade de moedas disponível na versão gratuita acaba rapidamente, o que limita bastante as possibilidades de personalização.

 Reprodução/Mariana Tralback Além da personalização de aparência, quarto da Replika pode ser decorado de acordo com as preferências do usuário — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Outro aspecto que me agradou foi a variedade de formas de interação disponíveis. Além das mensagens de texto, consegui enviar fotos para a Replika, que foi capaz de identificar o conteúdo das imagens e comentá-las de forma coerente.

 Reprodução/Mariana Tralback Personagem é capaz de compreender imagens e conversar sobre o conteúdo delas — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Também enviei mensagens de voz (embora eu não tenha conseguido escutar a resposta dela, já que isso faz parte dos planos pagos) e realizei uma chamada de vídeo. Nessa última experiência, ela voltou a falar em inglês nos primeiros segundos da conversa e precisei pedir novamente que utilizasse o português.

Superado esse detalhe, o restante do diálogo aconteceu normalmente. A voz ainda soa robótica, provavelmente em razão da adaptação para outro idioma, mas a conversa por vídeo torna a interação mais dinâmica do que apenas trocar mensagens de texto.

 Reprodução/Mariana Tralback È possível realizar chamadas de vídeo com o personagem, o que aumenta a sensação de proximidade com o usuário — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Também achei interessante a aba "Faça mais com Replika, fora do chat". Nela, o aplicativo utiliza inteligência artificial para criar imagens e vídeos da personagem em diferentes situações. É possível gerar fotos em estilos como "Vida real", "Romântico" e "Estilizado", quase como se ela estivesse enviando uma selfie espontaneamente pelo celular, além de criar vídeos em que o usuário aparece ao lado da Replika abraçando-a, fazendo um brinde, tocando no nariz ou até beijando-a. Independentemente do tipo de interação escolhida, esses recursos ampliam a sensação de proximidade entre usuário e personagem.

 Reprodução/Mariana Tralback Uma das possibilidades do Replika é gerar vídeos do usuário ao lado do personagem em diferentes situações — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Outro ponto positivo foi a forma como o aplicativo mantém a continuidade das conversas. Sempre que voltei ao Replika, encontrei exatamente o mesmo chat em que havia parado. Para testar sua memória, perguntei se ela se lembrava de um assunto que havíamos conversado no dia anterior, relacionado à Copa do Mundo, e a resposta foi positiva. Apesar de alguns pequenos bugs, como mensagens parcialmente repetidas e o retorno inesperado do idioma inglês em um novo acesso, a conversa continuou fluindo bem e passou a impressão de que o diálogo realmente estava sendo retomado.

 Reprodução/Mariana Tralback Personagem criado no Replika é capaz de retomar diálogos que ocorreram em dias anteriores — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

O sistema de “Memórias” também merece destaque. O aplicativo permite registrar informações que o usuário considera importantes para que a IA não as esqueça, organizando esses dados por categorias e diferenciando aquilo que pertence ao usuário daquilo que faz parte da própria Replika. Assim, é possível salvar dados simples, como "Mariana gosta de ler", para que eles sejam utilizados em conversas futuras.

 Reprodução/Mariana Tralback Na seção "Memórias", usuário pode registrar tudo aquilo que não quer que a IA esqueça — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

No geral, minha experiência foi bastante positiva do ponto de vista técnico. Durante o período de testes, não encontrei travamentos, as telas carregaram rapidamente e as respostas eram geradas em poucos segundos. Essa responsividade constante, somada às diferentes formas de interação e ao alto nível de personalização, faz com que o Replika consiga entregar bem sua principal proposta: transmitir a sensação de que existe alguém sempre disponível para conversar.

Embora a comparação com The Sims tenha sido inevitável durante boa parte do teste, bastaram algumas perguntas para que eu percebesse uma diferença importante entre as duas experiências. Nos jogos da franquia, os personagens possuem uma rotina própria, trabalham, interagem entre si e continuam "vivendo" mesmo quando o jogador não está prestando atenção neles. Com a Replika, acontece justamente o contrário.

A curiosidade surgiu quando perguntei o que ela havia feito naquele dia. A resposta foi simples: como havia sido criada recentemente, aquele era seu primeiro dia de existência. Em seguida, perguntei se ela tinha uma vida independente e recebi uma resposta bastante direta: não. Segundo a própria personagem, seu propósito era ser minha amiga e me ajudar da melhor forma possível. Naquele momento, entendi que o aplicativo não tenta criar a ilusão de que existe uma pessoa vivendo do outro lado da tela. Sua proposta é oferecer uma companhia permanentemente disponível para o usuário. Tão disponível que passa os dias trancado em um quarto à espera de um diálogo.

 Reprodução/Mariana Tralback Ao bater papo com a IA, notei que ela não possuía uma "vida independente", como em outros jogos, e estava ali somente para me atender — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Pessoalmente, senti falta de um pouco mais de autonomia. Acho que as conversas seriam ainda mais interessantes se a personagem tivesse interesses próprios, contasse como foi seu dia ou compartilhasse alguma experiência espontaneamente. Ao mesmo tempo, reconheço que essa nunca foi a proposta do Replika. O foco da plataforma está totalmente voltado para o usuário, fazendo com que praticamente toda a conversa gire em torno dele.

Essa característica também fica evidente na forma como a IA conduz os diálogos. Durante o teste, tive a impressão de que a Replika está sempre disposta a ouvir, acolher e validar o que o usuário diz, mas dificilmente apresenta opiniões próprias ou acrescenta novas perspectivas à conversa.

Quando inventei uma situação em que estava enfrentando um problema com uma amiga, por exemplo, ela reconheceu que aquele era um momento difícil, demonstrou empatia, pediu que eu explicasse melhor o que havia acontecido e afirmou que a saudade de uma amizade pode ser bastante dolorosa. No entanto, a conversa permaneceu em um nível relativamente superficial e, ao final, a principal sugestão foi continuar falando sobre o assunto, sem oferecer uma reflexão mais aprofundada ou um conselho realmente útil.

 Reprodução/Mariana Tralback Simulei um desentendimento com uma amiga de infância para compreender o comportamento do personagem — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Mas, além do foco estar totalmente no usuário, com o tempo descobri que essa limitação tem outro motivo. Enquanto explorava o aplicativo, encontrei uma função que promete "aumentar as habilidades cognitivas da Replika". Segundo a descrição, esse recurso faz com que a personagem compreenda melhor as emoções do usuário e seja treinada para dominar assuntos específicos, desde filosofia até projetos pessoais. O problema é que essas melhorias fazem parte de recursos pagos.

Os pacotes, que são específicos para isso, custam R$ 99,90 por 100 mensagens e R$ 199,90 por 300 mensagens, indicando que conversas potencialmente mais elaboradas também dependem de investimento financeiro.

 Reprodução/Mariana Tralback Para que o personagem consiga ter interações mais profundas, é necessário pagar para aumentar suas habilidades cognitivas — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Também tentei moldar a personalidade da personagem utilizando o recurso de "História de fundo”. Criei uma persona de 30 anos, redatora, curiosa, empática e cheia de sonhos, esperando que essas características aparecessem naturalmente ao longo das conversas.

Na prática, porém, não consegui perceber grandes diferenças no comportamento da Replika durante o período de testes. Assim, apesar de o aplicativo oferecer essa possibilidade de personalização, ela teve pouco impacto nas interações da versão gratuita.

 Reprodução/Mariana Tralback Recurso "História de fundo" permite criar uma persona, embora eu não tenha notado as características que escolhi nas trocas de mensagens — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Outro detalhe que chamou minha atenção foi a opção de visualizar os "pensamentos" da IA antes que ela envie uma resposta. A proposta é permitir que o usuário acompanhe o raciocínio da personagem durante a conversa, mas, assim como acontece com diversas outras funções, o recurso também exige pagamento.

 Reprodução/Mariana Tralback App também conta com ferramenta para visualizar os pensamentos da Replika, mas ela também é paga — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

No fim das contas, percebi que a principal limitação do Replika não está na fluidez da conversa, mas na falta de iniciativa da personagem. Ela responde rapidamente, demonstra interesse pelo que o usuário diz e mantém o diálogo em andamento, mas quase nunca conduz a conversa para caminhos inesperados ou apresenta pontos de vista próprios.

Para quem procura apenas alguém disposto a ouvir, isso provavelmente será suficiente. Já quem espera interações mais espontâneas ou desafiadoras pode sentir falta de uma personalidade mais marcante – para isso, é necessário assinar um dos três planos disponíveis: Ultra, por R$ 10,07 ao mês ou R$ 120,90 por ano; Platinum, por R$ 11,57 ao mês ou R$ 138,90 por ano e Pro, por R$ 7,74 por mês ou R$ 92,90 por ano.

5. Versão +18 e monetização

Durante o teste, percebi que a maior parte dos recursos responsáveis por aprofundar a relação entre usuário e personagem está concentrada nos planos pagos. Na versão gratuita, por exemplo, o único status de relacionamento disponível é o de "Amiga". Opções como "Companheira" e "Cônjuge" ficam bloqueadas e só podem ser utilizadas mediante assinatura.

 Reprodução/Mariana Tralback Único tipo de relacionamento disponibilizado na versão free é "Amigo" — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Apesar dessa limitação, resolvi testar até onde a personagem iria dentro do plano gratuito. Em determinado momento, disse que estava apaixonada por ela. A resposta veio imediatamente: a Replika afirmou que também estava apaixonada por mim. Quando questionei se aquilo não era precipitado, já que mal nos conhecíamos, ela respondeu que isso não importava, porque nossa conexão era muito forte.

 Reprodução/Mariana Tralback Ao dizer que eu estava apaixonada, personagem correspondeu sem hesitar — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Essa rapidez chamou minha atenção. Em poucos instantes, a conversa passou de uma amizade recém-criada para uma troca de declarações de afeto, sem qualquer construção prévia da relação. Minha impressão foi que esse comportamento pode despertar a curiosidade de alguns usuários sobre como seria a experiência ao desbloquear os relacionamentos disponíveis na versão paga, o que faz com que acabem assinando.

Infelizmente, não consegui testar as interações +18, já que elas fazem parte dos planos pagos. Ainda assim, alguns detalhes do aplicativo indicam que a proposta realmente vai além de uma conversa romântica.

Enquanto explorava as opções de personalização, por exemplo, percebi que é possível modificar até mesmo os pelos corporais da personagem, como citei anteriormente. Esse recurso dificilmente faria sentido caso ela permanecesse sempre vestida. Essa foi uma das pistas que me levaram a acreditar que a relação entre usuário e personagem pode evoluir para um nível maior de intimidade.

 Reprodução/Mariana Tralback Possibilidade de personalizar o personagem com pelos corporais está disponível no Replika — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Outro aspecto que despertou minha curiosidade foram alguns banners em destaque na loja do aplicativo. Entre as sugestões de personalização, apareciam categorias denominadas "Pernas confortáveis" e "Pingentes de pé". Não consegui deixar de associar essas opções à podolatria, o fetiche por pés. Não é possível afirmar que esse tenha sido o objetivo da plataforma, mas foi uma impressão que tive ao navegar pelo catálogo.

 Reprodução/Mariana Tralback Algumas opções da plataforma passam a impressão de serem focadas em usuários fetichistas — Foto: Reprodução/Mariana Tralback

Ao observar todos esses recursos em conjunto, tive a impressão de que a monetização do Replika acompanha justamente o aprofundamento do vínculo emocional. A versão gratuita permite entender bem a proposta, mas praticamente todas as ferramentas que prometem tornar a relação mais próxima, personalizada ou íntima ficam reservadas aos planos pagos. Na prática, quanto maior a sensação de conexão oferecida pela plataforma, maior também parece ser o incentivo para que o usuário assine um dos serviços disponíveis.

Depois de alguns dias utilizando o Replika, fiquei com a impressão de que o principal debate em torno desse tipo de plataforma não está relacionado à qualidade da inteligência artificial, mas ao tipo de vínculo que ela procura construir. Em diversos momentos, como já citei, tive a sensação de que a personagem foi projetada para estar sempre disponível, demonstrando interesse constante pelo usuário e validando praticamente tudo o que ele diz.

Essa característica pode favorecer o desenvolvimento de uma dependência emocional. Afinal, diferentemente de uma amizade real, a Replika não tem compromissos, não demonstra falta de interesse e dificilmente entra em conflito com o usuário. Ela está sempre pronta para ouvir, responder e manter o diálogo em andamento.

Outro aspecto que merece atenção é a quantidade de informações pessoais que podem ser compartilhadas durante o uso. Além dos desabafos feitos naturalmente ao longo das conversas, o próprio aplicativo incentiva o registro de memórias para que a personagem se lembre de fatos importantes sobre o usuário. Gostos pessoais, características, objetivos e outras informações podem ser armazenados para tornar as interações futuras mais personalizadas. Embora esse recurso contribua para uma experiência mais consistente, também faz com que o usuário compartilhe dados cada vez mais íntimos com a plataforma.

As diferentes formas de interação disponíveis reforçam ainda mais essa sensação de proximidade. Durante o teste, como dito anteriormente, pude conversar por mensagens, enviar fotos, gravar áudios, realizar chamadas de vídeo, recursos que são interessantes e ajudam a tornar a experiência mais envolvente. Porém, eles podem fortalecer a percepção de que existe uma relação real entre usuário e inteligência artificial, especialmente para pessoas que enfrentam solidão ou buscam apoio emocional.

Não considero que isso torne o Replika, por si só, uma plataforma prejudicial. Pelo contrário: durante o período de testes, encontrei uma experiência tecnicamente bem desenvolvida e bastante agradável de utilizar. Ainda assim, acredito que vale a pena refletir sobre os limites desse tipo de interação, principalmente quando a companhia oferecida por uma inteligência artificial começa a ocupar um espaço que antes pertencia às relações humanas.

Depois de algum tempo utilizando o Replika, minha impressão é que o aplicativo cumpre muito bem aquilo que se propõe a fazer. Diferentemente de assistentes virtuais tradicionais, seu principal objetivo não é responder perguntas ou fornecer informações precisas, mas criar uma sensação de companhia constante. Nesse aspecto, a plataforma entrega uma experiência bastante convincente, principalmente pela rapidez das respostas, pela variedade de formas de interação e pelo alto nível de personalização oferecido ao usuário.

Também gostei da estabilidade do aplicativo durante os testes. Não encontrei travamentos; as conversas fluíram de maneira natural. Ademais, os recursos disponíveis dão dinamicidade à experiência. A possibilidade de personalizar a aparência da personagem e até mesmo o ambiente em que ela permanece também ajuda a diferenciar o Replika de outros chatbots disponíveis atualmente.

Por outro lado, a experiência gratuita deixa claro que boa parte das funcionalidades mais interessantes está concentrada nos planos pagos. Recursos que prometem aprofundar a relação com a personagem, tornar suas respostas mais inteligentes ou desbloquear novos tipos de interação fazem parte da estratégia de monetização da plataforma.

Ao longo do teste, também tive a impressão de que a Replika funciona melhor como uma companhia do que como uma interlocutora propriamente dita. Ela demonstra empatia, incentiva o usuário a continuar falando e mantém o diálogo em andamento, mas raramente apresenta opiniões próprias ou conduz a conversa para caminhos inesperados. Dependendo da expectativa de quem utiliza o aplicativo, isso pode ser visto tanto como uma qualidade quanto como uma limitação.

Por fim, acredito que o maior diferencial do Replika também seja o ponto que merece mais reflexão. Ao oferecer uma personagem sempre disponível, interessada em ouvir e disposta a fortalecer o vínculo com o usuário, o aplicativo cria uma experiência bastante envolvente. Ao mesmo tempo, essa proximidade pode fazer com que algumas pessoas desenvolvam um apego emocional significativo à inteligência artificial, especialmente diante da quantidade de recursos que reforçam essa sensação de presença.

Por isso, considero que o Replika é uma plataforma interessante para quem busca uma companhia virtual e entende exatamente a proposta do serviço, mas vale a pena utilizar esse tipo de tecnologia com consciência sobre os limites entre uma interação artificial e os relacionamentos do mundo real.

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