"Onde os costumes são gentis, há comércio; e onde há comércio, os costumes tornam-se gentis." A máxima de Montesquieu forneceu o mote para a análise de Albert Hirschman em "As Paixões e os Interesses": o comércio é "suave" (doux), civiliza os indivíduos e atenua paixões violentas —guerra, fanatismo, tirania. Ao criar laços e dependências recíprocas, os interesses econômicos substituem a violência por troca, contrato e cálculo, promovendo ordem e paz.
A política comercial de Donald Trump nega essa premissa: combina beligerância e autointeresse explícito, corroendo um regime baseado em regras e deslocando-o para a lógica da força bruta. Alguns analistas ainda sustentam que a teia de interdependências —finanças globalizadas e cadeias transnacionais de valor— tenderia a domesticar líderes beligerantes. Talvez. Mas arranjos fundados na coerção, e não no consentimento, são estruturalmente instáveis: mercados valorizam previsibilidade e estabilidade institucional.
A tese do doux commerce foi um pilar normativo da ordem liberal e, nos anos 1990, reapareceu sob a tese do "fim da história": esperava-se que a expansão dos mercados viesse acompanhada pela difusão da democracia. Duas décadas de onda iliberal recomendam cautela. Uma leitura alternativa vê parte da beligerância como tática transacional (Taco —Trump Always Chickens Out): ameaças retóricas criam assimetria de barganha com governos e grandes empresas.
Em jogos repetidos, porém, o rendimento marginal dessa estratégia tende a declinar, enquanto seus custos aumentam.
Trump é simultaneamente ator institucional e celebridade empresarial, e conta com apoios no grande capital —sobretudo entre big techs. Como observam Levitsky et al, em texto recém-publicado, observa-se aqui a inversão do padrão clássico de "captura" do Estado por interesses privados: líderes populistas passam a capturar empresas.
Lá Fora
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É o caso da Meta, que mudou em 180 graus sua agenda em relação a temas regulatórios. O fenômeno não se limita aos EUA; aparece em casos paradigmáticos de retrocesso democrático, como Hungria e Turquia. O contexto americano, contudo, é distinto pela ausência de um setor estatal-extrativo dominante (petróleo, mineração), frequentemente central na predação populista. Em regimes autoritários como a Rússia, o padrão é a pilhagem das grandes empresas privadas que ocorreu às claras.
As evidências históricas sugerem que economias mais diversificadas oferecem maior resistência a projetos iliberais. Setores empresariais relativamente autônomos do Estado compõem, em muitos casos, o núcleo duro dessa resistência —e, por isso mesmo, tornam-se alvos preferenciais de intimidação e violência. Em suma, a promessa civilizadora do doux commerce tem limites: interdependência e interesse podem moderar paixões, mas não as anulam quando a arena política é reconfigurada para premiar o confronto.
Levitsky et al mencionam o papel histórico do empresariado na democratização brasileira e, mutatis mutandis, algo semelhante ocorreu frente às iniciativas iliberais de Bolsonaro. No momento, porém, retornamos ao padrão clássico em que empresas capturam não apenas o governo, mas também as instituições da República.

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