Senhora com véu islâmico e bebê no colo; ao fundo, prédios de São Paulo

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, Nawal Abujayyab com o neto, Elias, de 10 meses, em São Paulo; ela conseguiu sair de Gaza após dois anos de guerra e conheceu o primeiro neto, nascido no Brasil
    • Author, Flávia Mantovani
    • Role, De São Paulo para a BBC News Brasil
  • Há 19 minutos

  • Tempo de leitura: 11 min

"Habibi! Habibi!"

Em um apartamento da zona sul de São Paulo (SP), Nawal Abujayyab, de 61 anos, abraça o neto em seu colo, enquanto o chama repetidamente de "meu querido", em árabe.

Nascido no Brasil, o bebê Elias tem apenas 10 meses de idade e não faz ideia da saga que a avó enfrentou até conhecer seu primeiro neto.

Elias é filho de Ronza e Akram Abujayyab, um casal nascido e criado em Gaza que mora no Brasil desde 2022. Ela é engenheira mecatrônica e ele, contador.

Os dois saíram do território palestino em 2017, em busca de uma vida mais estável. Viveram no Egito e na Turquia até serem acolhidos em São Paulo pelo advogado brasileiro Edgard Raoul, amigo do irmão de Akram.

Fundador da organização de direitos humanos Hands On, Raoul fez inúmeras tentativas de tirar a família de Ronza e Akram de Gaza desde que o conflito com Israel começou, em outubro de 2023.

Mesmo antes do nascimento do filho brasileiro, os dois já haviam sido reconhecidos oficialmente como refugiados e eram elegíveis a pedir a reunificação familiar (o direto para que membros da família também imigrem de forma regular) para os parentes diretos.

Com as fronteiras bloqueadas, a população palestina ficou cercada enquanto bombardeios destruíram 80% dos edifícios locais, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

O conflito deixou mais de 70 mil mortos em Gaza, muitos deles mulheres e crianças, de acordo com o Ministério da Saúde local, administrado pelo Hamas.

Ambos os lados se acusam de violações: mais de 450 palestinos foram mortos desde então, segundo o Ministério da Saúde em Gaza, enquanto o Exército israelense afirma que três de seus soldados morreram em ataques de grupos palestinos no mesmo período.

Foram registrados alguns avanços, como a libertação de todos os 20 reféns israelenses vivos em troca de quase 2 mil prisioneiros palestinos, a reabertura de escolas e a entrada de ajuda humanitária — mas o cenário permanece crítico e marcado por muitos desafios logísticos.

Milhares de palestinos que retornaram às ruínas de suas cidades enfrentam a escassez severa de infraestrutura básica, e agências de ajuda humanitária alertam que o fluxo de suprimentos ainda não atende às necessidades da população.

Em meados de janeiro, os EUA anunciaram a segunda fase do plano, que prevê a desmilitarização completa do território, a criação de uma administração palestina tecnocrática de transição e o início da reconstrução.

Na semana passada, o governo americano anunciou os primeiros nomes de uma nova estrutura internacional de transição para Gaza.

A estrutura é formada por um Conselho de Paz integrado por líderes mundiais (para o qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado), dois conselhos executivos e um Comitê Nacional para a Administração de Gaza, um grupo de tecnocratas encarregado da governança temporária e da reconstrução do território.

Foi depois do cessar-fogo iniciado em outubro do ano passado e de meses de trâmites que a mãe e a irmã de Ronza conseguiram viajar graças à intermediação do governo brasileiro.

Cinco pessoas reunidas e sorrindo em saguão de aeroporto

Crédito, Flávia Mantovani/BBC

Legenda da foto, A família no aeroporto de Guarulhos após a chegada de Lozan (primeira à esq,) e Nawal (primeira à dir., à frente)

Elas saíram de Gaza em um ônibus da organização Cruz Vermelha, que levou um grupo de palestinos que obtiveram documentos para viver em outros países, a maioria da Europa.

Além de Nawal e Lozan, havia uma segunda família vindo para o Brasil reencontrar parentes.

"É um processo diplomático muito sensível e complexo, mas conseguimos mostrar que são pessoas do bem, que trabalham, foram acolhidas e patrocinadas por mim. Isso trouxe mais segurança para o Estado brasileiro colocá-las nessa evacuação", afirma Edgard Raoul.

O advogado diz que continua tentando trazer o restante dos membros da família.

O pai de Ronza (marido de Nawal) e dois irmãos, além de uma irmã de Akram, ficaram porque estão com o passaporte vencido — e a renovação tem sido outra missão quase impossível em tempos de guerra.

Prosperidade reduzida a escombros

Os Abujayyab são — ou eram, antes da guerra — uma família próspera.

O pai de Ronza é médico especialista em coluna e trabalhava em um hospital na área central de Gaza. Sua mãe, Nawal, é formada em administração e teve seis filhos, todos adultos hoje.

Ronza conta que os pais tinham uma vida confortável em um prédio que tinham construído para eles e os filhos morarem na cidade de Al Zahra, no centro de Gaza. Tinham dois automóveis — um para uso pessoal e um jipe que o pai dela usava para trabalhar.

Mas, no começo da guerra, tiveram que deixar o local às pressas. Quando voltaram, em janeiro de 2025, estava tudo em ruínas. Nawal se sentou em uma pedra e começou a chorar.

"Não foi só a minha casa: todas as casas dali, todas as portas… Tudo tinha explodido. Isso matou minha esperança. Trabalhamos a vida toda para construir aquele edifício para nós e nossos filhos", conta.

Assim como a maioria da população, a família teve que se deslocar diversas vezes de uma cidade para outra.

Sala com balões de festa, sofás e comida em mesas

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, A casa da família Abujayyab antes da guerra...

Escombros de prédio

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, ... e depois, reduzida a escombros

Sem carro e com o combustível escasso, eles iam alternando os meios de transporte disponíveis: faziam alguns trechos de tuk-tuk (um tipo de triciclo motorizado), outros em burros de carga, pegavam carona em algum caminhão ou iam a pé mesmo.

O primeiro deslocamento foi marcante para Lozan. Ela lembra da data exata: 19 de outubro de 2023.

"Disseram para sairmos no meio da noite, e fomos em direção à universidade onde eu estudei. Tinham milhares de pessoas indo para o mesmo lugar. Depois de alguns minutos, começamos a ver as luzes e a ouvir o barulho de bombas enormes. Dormimos lá — ou melhor, não conseguimos dormir", conta.

Segundo ela, após os avisos de evacuação por parte de Israel chegarem, eles tinham cinco minutos para sair de casa.

"Não dava tempo de pensar direito no que levar. Em geral, só conseguíamos pegar os documentos mais importantes, algumas roupas e os telefones", diz.

Lentilhas uma vez por dia e água a cada três semanas

Outro momento marcante para Lozan foi quando a casa dos vizinhos da família foi destruída.

"Eu estava sentada no quarto. A poeira e os vidros quebrados vieram todos para cima de mim", lembra.

A jovem, que antes da guerra trabalhava como arquiteta em um escritório, teve que se acostumar com um dia a dia totalmente diferente, sem água encanada, eletricidade, internet ou gás de cozinha.

Houve períodos em que saía água da torneira apenas uma vez a cada três semanas, durante duas horas — e não era limpa, mas salobra.

A família enchia todos os recipientes disponíveis com o líquido, mas em menos de dois dias, já tinha acabado.

Na maioria das vezes, era preciso andar longas distâncias em busca de galões para comprar.

"Ao menos tínhamos meus irmãos para carregar, mas algumas famílias perderam todos os seus homens e era comum ver mulheres e crianças de 5 ou 6 anos carregando recipientes muito pesados", diz Lozan.

A comida também era raridade, tanto que a família fazia apenas uma refeição por dia, geralmente composta apenas por lentilhas. Nem farinha para fazer pão havia. Nawal emagreceu 20 quilos e Lozan, 8.

Ronza diz que sua família que ficou em Gaza tinha dinheiro, mas não havia nada no mercado para comprar.

"Se você quisesse farinha, tinha que ir até um lugar que era muito perigoso, e meu pai não queria que meus irmãos fossem por causa dos ataques. Preferia que todos morressem de fome do que correrem o risco de serem mortos no caminho", diz a engenheira.

Saúde debilitada

Mulher com véu islâmico olhando para celular em aeroporto

Crédito, Flávia Mantovani/BBC

Legenda da foto, Ronza Abujayyab conta que por muito tempo se sentiu impotente ao acompanhar notícias de Gaza já morando no Brasil

Escolhas estressantes como essa se apresentavam com frequência à família.

Eles decidiram, por exemplo, que o pai de Ronza não deveria mais atender no hospital, já que muitos estabelecimentos de saúde estavam sendo alvo de bombardeios.

Pelo mesmo motivo, optaram por cuidar da avó doente dentro de casa.

"Minha avó era muito forte. Cuidava do quintal, da casa, caminhava normalmente. Mas com a guerra, ela foi adoecendo e piorando muito", diz Ronza.

A idosa estava na lista de parentes para os quais havia sido solicitada a reunificação familiar, mas não aguentou e acabou morrendo em agosto de 2025, antes de ter a chance de vir para o Brasil.

A guerra deixou marcas na saúde de outros membros da família.

Nawal passou a sofrer do coração.

Seu marido, que tem uma deficiência desde pequeno, mas conseguia andar com a ajuda de uma bengala, agora precisa de uma cadeira de rodas para se locomover.

Nawal e Lozan descrevem a rotina em Gaza como extenuante. Elas passavam o dia limpando a casa, cuidando dos doentes, lavando as roupas e cozinhando o que havia.

Os homens da família eram incumbidos de buscar água e de procurar madeira para fazer fogo — sem gás, o fogão da casa não servia para nada.

Com os preços inflacionados pelo conflito, 1 kg de lenha podia custar US$ 4 (R$ 21). Houve momentos em que a família Abujayyab quebrou móveis para usar como combustível. "

"Ninguém estava acostumado com esse estilo de vida. Foi muito difícil para todos", diz Ronza.

O barulho dos drones militares era um som onipresente. Um deles chegou a disparar um tiro que caiu entre os pés do irmão de Ronza, mas não o feriu.

Uma tia deles, proveniente do norte de Gaza, perdeu 47 pessoas da família de uma só vez. "Moravam todos no mesmo condomínio, que foi bombardeado", diz Akram.

Nawal conta que, após o cessar-fogo do fim do ano passado, a situação melhorou um pouco. Mas uma onda de frio e chuvas fortes no inverno do Hemisfério Norte trouxe uma camada a mais de dificuldade para a população de Gaza, a ponto de elas usarem cinco calças ao mesmo tempo para se aquecer.

"Estamos em 2026, e há bebês recém-nascidos morrendo de frio. É desumano", diz Akram.

Enquanto tudo isso acontecia, Akram e Ronza estavam no Brasil, sentindo-se impotentes ao acompanhar o sofrimento da família de longe.

A comunicação era intermitente: quando Elias nasceu, uma irmã de Ronza que vive no Egito deu a notícia à familia que estava em Gaza por telefone, depois de muitas tentativas.

"Foi muito difícil porque estávamos preocupados com eles e eles estavam preocupados comigo", diz a engenheira.

Ela atribui ao estresse alguns problemas de saúde que teve durante a gravidez, como dois sangramentos.

"Eu vivia preocupada, sem saber se minha família sobreviveria ou não a cada dia", afirma Ronza.

Viagem para o Brasil

Nawal Abujayyab e Lozan sentadas em sala, posando para foto com sorrisos contidos

Crédito, Flávia Mantovani/BBC

Legenda da foto, Nawal Abujayyab e a filha Lozan, recém-chegadas de Gaza, no apartamento onde a família vive em São Paulo

A notícia de que Nawal e Lozan poderiam viajar para o Brasil deixou as duas mulheres em um conflito interno.

"Ficamos divididas: felizes porque sairíamos de lá e poderíamos revê-los, mas tristes por ter que deixar meu marido e meus outros filhos no meio do perigo", diz Nawal.

Quem ficou não teve dúvidas sobre a melhor decisão a tomar.

"Todo mundo lá pensa o seguinte: quem tiver a chance de sair e sobreviver, que saia e sobreviva", diz Akram.

Elas foram orientadas pelas autoridades isralenses a não levarem nada além de documentos, um pouco de dinheiro e o celular. Malas, roupas além das que vestiam e outros aparelhos eletrônicos, como laptop, foram proibidos.

O grupo levou seis horas para percorrer os 25 km que separam Deir Al Balah, de onde saiu o ônibus da Cruz Vermelha, do posto de controle e, Karm Abu Salem, na fronteira com Israel.

Depois disso, passaram pela Cisjordânia e entraram na Jordânia, de onde pegaram o voo para São Paulo, dois dias depois.

O irmão de Nawal, que mora na Jordânia e não a via há nove anos, a esperava.

Lá, elas compraram algumas roupas, pois sabiam que seria mais difícil encontrar vestimentas adequadas à religião islâmica no Brasil.

Ansiosos, Akram e Ronza as esperavam no aeroporto internacional de Guarulhos no dia 18 de dezembro de 2025, acompanhados de uma amiga brasileira.

Quase não chegaram a tempo porque ficaram engarrafados no trânsito e se perderam no caminho.

Akram segurava uma misbaha, um cordão de contas usado para fazer orações no islamismo, enquanto Ronza acompanhava cada informação enviada pela irmã pelo celular.

Nawal e Lozan chegaram a esperar em uma sala enquanto a Polícia Federal analisava sua documentação, mas foram liberadas rapidamente.

Quando elas apontaram no corredor de desembarque, Ronza correu para o abraço de reencontro que esperava há oito anos.

Ela preferiu não levar o filho ao aeroporto, e Nawal conheceu o neto quando chegaram em casa. Desde então, não quer desgrudar de Elias.

"Ela está muito feliz de abraçá-lo, tocá-lo, brincar com ele, pede para fazê-lo dormir", diz Ronza.

Nawal descreve a emoção de estar com Elias.

"Todo dia eu pedia que Deus me desse mais tempo de vida para conseguir encontrá-los de novo e conhecer meu neto", diz a avó, que mora com a criança, Akram, Ronza e Lozan no mesmo apartamento.

O plano, agora, é aprender português, embora ainda não saibam quão temporária ou definitiva é a mudança para o Brasil.

Mas, aqui, elas vão retomando a vida aos poucos: Nawal voltou a bordar e Lozan, a desenhar — hobby que teve que abandonar por causa das urgências do conflito.

No entanto, elas ainda estão muito abaladas por tudo o que viveram e por saberem que outros parentes seguem sofrendo em Gaza.

"Ainda tenho pesadelos. Você tenta se sentir normal e esquecer a sensação de estar na guerra. Você saiu e Deus te salvou. Mas não é fácil, principalmente porque temos nossa família lá", diz Lozan.

Nawal também não consegue se sentir segura enquanto o marido e os filhos estiverem em Gaza.

"Sou muito grata ao Brasil por ter nos dado uma oportunidade. Mas quero muito que o governo brasileiro consiga ajudá-los também. Quando eles estiverem a salvo, teremos forças para voltar a viver."