Publicar nudes (imagens íntimas) sem consentimento é uma crise de segurança digital no Brasil. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, casos de violência digital e estelionato crescem anualmente, atingindo principalmente mulheres que tiveram a confiança traída por parceiros. O dano vai além da humilhação: levantamentos da SaferNet Brasil indicam que as vítimas desenvolvem quadros severos de ansiedade, depressão e isolamento social.
A chegada da inteligência artificial agravou o cenário, pois ferramentas de deepfake permitem criar imagens íntimas falsas de qualquer pessoa, mesmo sem conteúdo real prévio. O TechTudo entrevistou o advogado Matheus de Oliveira, mestrando em Direito Processual Civil pela PUC-SP e especialista em Direito Digital, para detalhar os aspectos jurídicos desses crimes e os passos práticos para reunir provas válidas.
Mulheres jovens são mais afetadas pela Sextorsão e Revenge Porn — Foto: Reprodução/Freepik Neste texto, detalhamos as diferenças entre crimes como Revenge Porn e Sextorsão, explicamos quais leis protegem as vítimas no Brasil e ensinamos os passos práticos para preservar provas, exigir a remoção do conteúdo e se defender juridicamente. Veja os tópicos abordados:
- O que é Revenge Porn e o que é Sextorsão?
- Quais leis protegem as vítimas no Brasil?
- O primeiro passo: como preservar as provas corretamente
- Quem compartilha também comete crime
- Como pedir a remoção do conteúdo
- Sextorsão financeira: como o golpe funciona
- O que nunca fazer se você for vítima
O que é Revenge Porn e o que é Sextorsão?
O revenge porn consiste na divulgação não consentida de imagens, vídeos ou registros íntimos. Nesses casos, o material geralmente é obtido de forma lícita — como durante um relacionamento — e posteriormente exposto com o objetivo de causar dano à vítima. De acordo com o Artigo 218-C do Código Penal, o crime se configura pela simples divulgação sem autorização, independentemente de motivação, como vingança após o término.
Já a sextorsão é uma forma de chantagem. O agressor ameaça divulgar conteúdo íntimo — real ou manipulado digitalmente — para obter vantagens, como dinheiro, novas imagens, favores sexuais ou submissão. Como resume o advogado Matheus de Oliveira, a diferença prática é clara: no revenge porn, o dano já foi consumado; na sextorsão, ele ainda está sendo usado como instrumento de pressão.
Além do impacto jurídico, os danos psicológicos são significativos. Dados do Projeto Vazou indicam que vítimas podem desenvolver ansiedade, depressão, isolamento social e até ideação suicida. O prejuízo também se estende à vida profissional e familiar, já que a circulação do conteúdo na internet é difícil de conter e pode gerar danos permanentes à reputação.
Agressores utilizam de vídeos ou imagens íntimas para extorquirem a vítima — Foto: Reprodução/Freepik Quais leis protegem as vítimas no Brasil?
O Brasil possui diferentes dispositivos legais para punir esses crimes:
- Artigo 218-C (Código Penal): pune a divulgação não consentida de conteúdo íntimo, com pena de 1 a 5 anos de reclusão, podendo ser agravada em casos de relação afetiva ou motivação de vingança.
- Artigo 158 (Extorsão): aplicado à sextorsão com exigência financeira, com pena de 4 a 10 anos.
- Artigo 216-B: criminaliza o registro de intimidade sem autorização, mesmo sem divulgação.
- Lei 15.123/25: aumenta em 50% a pena para violência psicológica contra a mulher quando há uso de inteligência artificial.
Outros instrumentos também são fundamentais:
- Lei Maria da Penha: reconhece a violação da intimidade como violência psicológica e permite medidas protetivas urgentes.
- Marco Civil da Internet (Lei 12.965/14): garante a remoção de conteúdo e regula a responsabilidade das plataformas.
- ECA: prevê punições mais rigorosas quando há envolvimento de menores.
O Brasil conta com leis que podem endurecer a pena para quem pratica Sextorsão ou Revenge Porn — Foto: Reprodução/Freepik O primeiro passo: como preservar as provas corretamente
Um dos erros mais comuns é não registrar as evidências antes de agir. Conteúdos podem ser apagados rapidamente, prejudicando investigações.
- Prints com data, hora e URL visíveis
- Nome de perfis, e-mails e números de telefone
- Comprovantes de pagamento (se houver)
Para fortalecer juridicamente o material:
- A ata notarial em cartório é o método mais seguro
- Ferramentas com validação em blockchain também podem ser utilizadas
Após reunir as provas, a orientação é registrar boletim de ocorrência e solicitar a preservação de dados junto às plataformas.
Coletar provas e registrar em cartório é o primeiro passo para se proteger — Foto: Reprodução/Freepik Quem compartilha também comete crime
A responsabilidade não se limita a quem publica o conteúdo originalmente.
O Artigo 218-C também pune quem:
- Compartilha
- Distribui
- Armazena ou retransmite o material
Ou seja, repassar em grupos de WhatsApp ou redes sociais também é crime. Cada novo compartilhamento amplia o dano e pode gerar responsabilização civil e criminal, inclusive com impacto no valor de indenizações.
A divulgação de material íntimo te enquadra junto com o agressor — Foto: Reprodução/Freepik Como pedir a remoção do conteúdo
A vítima pode exigir a retirada imediata do material.
- Use os canais de denúncia da plataforma
- Envie uma notificação extrajudicial
- Se não houver resposta, ingresse com ação judicial com pedido de liminar
O Marco Civil permite a remoção de conteúdo íntimo sem necessidade de ordem judicial prévia, desde que haja notificação.
É possível solicitar a remoção do material das redes sociais — Foto: Reprodução/Freepik Sextorsão financeira: como o golpe funciona
O golpe geralmente começa com um perfil falso, que conquista a confiança da vítima. Após obter imagens íntimas, o criminoso inicia a chantagem, exigindo dinheiro sob ameaça de exposição.
- Rastreamento de IP e logs
- Dados cadastrais
- Horários de acesso
- Movimentações financeiras (como PIX)
Apesar disso, ferramentas como VPNs e chips descartáveis ainda dificultam a identificação imediata dos autores.
A extorsão é uma das armas utilizadas pelos criminosos — Foto: Reprodução/Freepik O que nunca fazer se você for vítima
O principal erro é pagar o agressor.
Segundo especialistas, o pagamento:
- Não encerra a chantagem
- Incentiva novas cobranças
- Prolonga o ciclo de abuso
O protocolo recomendado inclui:
- Preservar provas
- Registrar ocorrência
- Denunciar nas plataformas
- Trocar senhas e ativar autenticação em dois fatores
- Buscar apoio jurídico e psicológico
A vítima nunca deve realizar pagamentos aos criminosos. A polícia deve ser acionada — Foto: Reprodução/Freepik Veja também: Seu celular pode estar sendo rastreado! Veja como descobrir e se proteger!
Seu celular pode estar sendo rastreado! Veja como descobrir e se proteger!

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5 dias atrás
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