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A vida depois do feed

Era uma vez?

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Naquele começo, tudo tinha fim. Redes sociais como Twitter, Facebook, LinkedIn e Instagram misturavam atualizações de pessoas e marcas. Você rolava sua tela, via o que tinha que ver e, em certo ponto, ela acabava.

A pretexto de tornar a navegação mais fluida para seus usuários, em 2010 as plataformas passaram a adotar a rolagem infinita em suas páginas iniciais. Pouco tempo depois, o feed cronológico foi substituído por uma lista de destaques baseados em critérios de relevância definidos pelos algoritmos das redes sociais. As sugestões, porém, ainda tomavam como base exclusivamente a lista de amigos e marcas que cada usuário seguia.

Foi com a chegada do TikTok que a amizade acabou. Não era mais preciso seguir ou se conectar com alguém para que as postagens de perfis aparecessem em seu feed. As recomendações passaram a ser feitas pela lógica algorítmica e preditiva de seus interesses. Na prática, a plataforma confia mais na própria capacidade de descobrir o que cada pessoa deseja ver do que no interesse declarado, que serve apenas como balizador. O sucesso do TikTok e toda correria das outras redes para pular na mesma esteira é a história que já vimos.

Faz apenas dez anos que a maneira como consumimos informação na internet adquiriu essa dinâmica. E à medida que a lógica dos feeds foi sendo transformada, também mudou o tipo de informação exibida e recomendada para cada pessoa.

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A era dos algoritmos e feeds personalizados

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A popularidade das plataformas sociais fez com que elas se tornassem os filtros do que vemos e assistimos online, substituindo o acesso direto aos sites e agregadores. O relatório anual do Reuters Institute divulgado na semana passada trouxe como destaque o dado que, pela primeira vez, redes sociais passaram a ser mais usadas para acessar notícias online do que sites e aplicativos tradicionais (54% contra 51%).

Se o medo da indústria de mídia no final da década de 1990 era de que a internet acabaria com a cuidadosa edição diária dos jornais, a leitura feita a partir de plataformas sociais eliminou o poder de edição e priorização dos editores a respeito do que é exibido e consumido online (breve menção desonrosa à questão da disseminação de desinformação porque isso é um tópico que merece capítulo próprio). A leitura de cada usuário se tornou personalizada e direcionada a links diretos, guiada pelas recomendações de matérias específicas em seus feeds e buscas. O fluxo informacional se tornou descentralizado (todos são potencialmente emissores e receptores), tornando as homepages menos populares.

Não foram apenas o fluxo e o canal de distribuição que mudaram. Formato e a linguagem também foram moldados por essa dinâmica (falamos disso aqui). Temos vivido em um momento onde feeds são baseados em recomendações e relevância algorítmica, e não mais em cronologia. Foi uma mudança relativamente rápida e com impacto especialmente crítico para o jornalismo, setor que costuma sofrer primeiro as consequências que depois acabam afetando outras indústrias.

Uma era pós-feed

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No entanto, podemos já estar em meio a uma transição desse momento para um novo modelo de consumo de informação. Há quem sustente que estejamos entrando em uma espécie de "era pós-feed" na internet. Com modelos de inteligência artificial cada vez mais sofisticados e precisos, nossa interface principal mudaria de um feed para um agente pessoal. Teríamos, nesse cenário, resumos e informações ainda mais personalizadas, baseados em interesses pessoais e comandos específicos. No lugar de uma "vitrine" organizada de forma algorítmica, haveria uma experiência inteiramente particular.

Isso é o pilar argumentativo na análise produzida pela New_ Public (com as ressalvas de que, um, se trata de uma organização que advoga em favor da construção de espaços públicos digitais saudáveis e, dois, contribui consideravelmente para acionar meu TOC ao colocar essa linha sublinhada solta no meio do nome), mas também está, com outro ângulo, refletido nos argumentos de Ben Thompson em seus artigos sobre agentes de IA no ganho de eficiência e sobre a construção de comunidades em torno de temas e marcas como alternativa a produtores de conteúdo - tema impecavelmente explorado pelo Rafael Sbarai na última edição da sua newsletter.

Mesmo que a previsão de um agente pessoal informativo substituindo nossos feeds ainda seja pura extrapolação e careça de outros fatores e variáveis para se concretizar (haja vista as limitações de infraestrutura tecnológica, alfabetização digital e desafios com provimento de acesso adequado às redes), a recapitulação da história até aqui nos mostra que a internet tal como usamos chegou nesse formato há pouquíssimo tempo e o advento da inteligência artificial tem potencial de remodelar tudo. O feed infinito pode não acabar, mas a julgar pelo volume de conteúdo sintético circulando na internet, existe um ponto de saturação inevitável. E nesse rumo, ele se esgota.

Agora, mesmo que essa substituição não aconteça nessas proporções e ritmo, ainda assim a defesa da relevância do jornalismo (nosso quintalzinho aqui) precisa se deslocar de sua tentativa de dar escala à cobertura editorial para investir na construção de comunidades em torno de seus pontos de autoridade e relevância reconhecida.

Já era?

O jornalismo não é um negócio de escala. Não mais. A única mídia de massa que tivemos no Brasil foi a televisão (desculpem o uso do pretérito mais que perfeito. Convenhamos, nunca foi tão perfeito assim). Há também quem defenda o rádio nessa categoria, mas o rádio é um meio de nichos com alta penetração. É diferente.

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A internet é um meio hiper segmentado com alcance de massa. A existência dos portais, como o UOL, com sua altíssima cobertura de audiência cria a falsa percepção de que há um efeito de difusão massiva nos sites, mas lembremos que o comportamento de consumo em um site não é linear como a TV e isso já altera fundamentalmente a forma como a audiência interage com o que consome.

Tomar consciência de que o diálogo se dá em comunidades, talvez ajude a formar a base sobre a qual essa conversa se dê daqui para frente no processo de construção de valor e confiança. Não é para o jornalismo digital virar um negócio de nicho, mas de nichos, muitos deles. Porque o valor, no fim, sempre estará naquilo que não se pode substituir. E nenhuma tecnologia consegue substituir a necessidade humana de conexão e experiência compartilhada.

O que tem feito as pessoas preferirem assistir vídeos de criadores no YouTube comentando o noticiário e não do site de um jornal é, entre outras coisas, a centralidade da confiança (os dados do Digital News Report apontam que a audiência segue pessoas, não instituições). No primeiro caso, a confiança está depositada no mensageiro, que é insubstituível. No segundo, sempre defendeu-se que a credibilidade estava na mensagem, que era sustentada pela marca do jornal. Isso mudou.

Semana passada, já estávamos na garagem de saída para a escola quando Cecília me disse que havia esquecido algo importante e precisava voltar. Saltou do carro, correu para casa e retornou minutos depois com um livro nas mãos. Eu comentei:

- Mas, filha, esse livro não é da escola.

- Eu sei. É para a hora da leitura em sala. Eu preciso ter o que ler, né?

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- Mas o que acontece se você esquecer?

- Aí eu tenho que fazer outra coisa. Desenhar, escrever ou ler o jornal.

- Ué, ler o jornal é bom. A gente lê em casa. Eu escrevo para um jornal e?

- Eu sei, pai. Mas eu não gosto tanto. Prefiro meu livro.

Por motivos que você aí bem sabe, resolvi aprofundar:

- Cici, o que um jornal precisaria ter para que você ou seus amigos quisessem ler?

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- Ah, não sei. Eu acho que mais coisas interessantes.

- Tipo curiosidades, novidades e explicações sobre o que está acontecendo no mundo?

Ela me encarou, pensou um pouco e devolveu:

- O problema não é esse, pai. Isso tudo já tem lá, eu até leio de vez em quando. E essas coisas a gente já sabe e também aprende na aula. O problema é: mas, e aí? O que eu faço com isso? Eles escrevem lá e explicam o que querem, mas o que importa? Pai, entende? o que eu posso fazer com aquilo?

A mensagem virou commodity na percepção do leitor. Do lado de cá, dedos sujos de tinta, gostamos de atribuir essa tendência à baixa formação acadêmica de quem lê ou à captura de público pelas redes sociais, mas ignoramos que a dissonância talvez seja pela falta de escuta sobre como as pessoas desejam ser informadas.

Não é obrigação do consumidor fazer o esforço para perceber o valor em algum produto ou serviço. É bem possível, no entanto, que estejamos tentando construir valor justamente em cima do tipo de produto que nossos leitores já não enxergam como relevante. Sem valor percebido, não há interesse ou confiança que sustentem essa dinâmica.

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- Sabe, pai - ela voltou ao tema minutos depois - eu acho que ia gostar mais se o jornal me contasse algo que ninguém mais me conta.

Naquilo que é insubstituível está a nova história que, talvez, possa vir a ser escrita.

Era isso.

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É Copa-Feira e sigo ingenuamente otimista com a seleção brasileira. Essa semana eu li sobre o fenômeno da CazéTV e seus números e também li, concordando ligeiramente, com a crítica ao que o Mauricio Stycer chamou de cazeísmo.

Ainda sobre feeds infinitos, esse artigo da BBC fala sobre os porões do TikTok com vídeos? estranhos. E falando de IA, tendendo a concordar com Cal Newport pistola pedindo que empresas de tecnologia parem de dizer que seus produtos são arriscados demais se elas não vão, na prática, fazer nada a respeito. No mesmo jornal, essa análise tenta medir o efeito do uso de IA na criatividade de jovens estudantes a partir de suas redações.

E, bem, além do Messi e da seleção, é "E.T.: Edu e Tatá" o que tem feito meu feed valer a pena nesses dias.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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