Em seu discurso em Davos, na quarta-feira (21), ele chamou o país de “ingrato” e disse que a Europa como um todo “não está indo na direção correta” ao tomar o lado de Copenhague na disputa. Mais tarde no mesmo dia, Trump afirmou que negocia um acordo com a Otan - a aliança militar do Ocidente.
Uma das reclamações que Trump costuma repetir em relação aos países da Otan é a falta de apoio dos parceiros em relação aos interesses americanos.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante reunião com o secretário-geral da Otan, em 21 de janeiro de 2026 — Foto: REUTERS/Jonathan Ernst
A crítica de Trump pode ser vista com desconfiança pelos dinamarqueses. Depois dos ataques do 11 de Setembro de 2001 aos EUA, a Dinamarca foi um dos países que mais se engajou na chamada Guerra ao Terror promovida por Washington.
Após a invasão americana do Afeganistão, a Dinamarca enviou cerca de 9.500 combatentes para apoiar a ação militar no país asiático. Destes, 43 morreram.
Na campanha de invasão ao Iraque, 500 militares dinamarqueses foram despachados para lutar ao lado dos EUA, 3 dos quais não voltaram.
A aliança entre EUA e Dinamarca foi forjada em meio à Segunda Guerra Mundial. Até então, Copenhague tinha uma política externa baseada na neutralidade – opção exercida no caso da Primeira Guerra Mundial, por exemplo.
Tudo mudou em 1940, porém, quando as tropas de Adolf Hitler marcharam sobre a Dinamarca em 9 de abril, quebrando um acordo de não agressão firmado no ano anterior. A ocupação alemã fez a Dinamarca perceber que a neutralidade não oferecia, necessariamente, a garantia de que não seria agredida.
Foi nessa época também que se estabeleceu a presença militar dos EUA na Groenlândia. A ilha, já então território dinamarquês, adquiriu uma importância estratégica no teatro de operações da Segunda Guerra.
Sabendo disso, os EUA fecharam um acordo com o embaixador dinamarquês em Washington, passando por cima do governo-fantoche dos nazistas em Copenhague, para montar bases aéreas na Groenlândia.
Foi assim que surgiu, em 1941, a Base Aérea de Thule, hoje rebatizada como Base Aérea Pituffik.
Navio dos EUA na Groenlândia durante a Segunda Guerra Mundial — Foto: Arquivo Nacional dos EUA
Em 1946, os EUA chegaram a oferecer US$ 100 milhões à Dinamarca, a fim de comprar a ilha. Também cogitaram trocar terras ricas em petróleo no Alasca por partes estratégicas da ilha ártica. A venda não foi concretizada. Mas Estados Unidos acabaram ficando com as bases militares que desejavam.
De qualquer forma, passada a guerra, a Dinamarca abandonou sua política de neutralidade e em 1949 tornou-se um dos 12 membros fundadores da Otan, aliança criada para deter o avanço da esfera de influência da União Soviética.
O país desempenhou um papel estratégico novamente na Guerra Fria devido à sua localização, controlando estreitos no Mar Báltico e no Atlântico Norte. A localização da Groenlândia, perto do Polo Norte, também era importante por sua proximidade ao território soviético. (veja infográfico abaixo)
Durante o discurso em Davos, Trump disse que os EUA foram “estúpidos” de devolver a Groenlândia em 1945, após a Segunda Guerra Mundial.
Demos a Groenlândia de volta para a Dinamarca, que ideia estúpida. E olha o quão ingratos eles são agora", disse. Não chegou a haver uma devolução de fato, como Trump alega, já que a ilha sofreu uma ocupação militar, e não foi reivindicada como território americano em nenhum momento.
Durante seu discurso em Davos, Trump também afirmou que não pretende usar a força para anexar a Groenlândia, mas insistiu na compra do território e manteve o tom de ameaça aos aliados europeus.
Ele alega que a Europa é incapaz de manter a segurança da ilha e reivindica o território como parte essencial de um “Domo de Ouro”, um sistema de proteção militar que seria semelhante (embora muito maior) ao Domo de Ferro israelense.
Infográfico mostra a posição estratégica da Groenlândia — Foto: Editoria de Arte/g1

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