Pesquisas mostram que 55% dos brasileiros afirmam ter pouco ou nenhum conhecimento em educação financeira, apesar de reconhecerem sua importância (Pesquisa Febraban de Educação Financeira, 2023). Outros levantamentos indicam que uma parcela significativa da população não consegue organizar um orçamento doméstico básico nem acompanhar receitas e despesas com clareza (Pesquisa Onze/Estadão, 2023).
Não se trata de falta de interesse individual. A ideia de que esforço isolado resolve tudo ignora fatores estruturais que moldam o acesso à informação e às oportunidades. Vi essa dinâmica se repetir dentro da minha própria família e vivi isso de perto. Romper esse ciclo não é simples.
Em dezembro de 2025, estive de férias em Orlando e, entre uma caminhada e outra, me dei conta de que eu tinha mudado.
2014 × 2025: Da urgência à escolha
Na primeira vez, em 2014, eu ainda era manicure e não tinha sequer 100 dólares meus. Não consegui juntar porque, dentro da minha realidade, havia outras responsabilidades inadiáveis. As despesas da viagem eram pagas pelo meu marido, na época meu noivo.
Cada loja parecia uma oportunidade única, mas também um lembrete silencioso de que aquele dinheiro não era meu. Tudo o que eu demonstrava querer, ele dava um jeito de me oferecer. Eu recebia com gratidão e, ao mesmo tempo, com culpa. Um sentimento silencioso e difícil de explicar.
Fui criada para não depender. E, naquele momento, querer tudo e não poder comprar doía mais do que a escassez em si. Comprar não era apenas consumo. Era uma tentativa de provar autonomia, de confirmar uma vitória que ainda não tinha acontecido.
Naquele cenário, fiz um compromisso interno: quando eu voltasse, compraria tudo. Nenhuma oportunidade seria perdida.
Na segunda vez, eu tinha poder de compra. Depois de dois dias entrando em lojas incríveis e comprando muito pouco, mesmo podendo comprar, a resposta veio com clareza: eu tinha adquirido consciência financeira.
Não senti necessidade de comprar tudo. Confesso que me emocionei. Percebi que tinha amadurecido na forma como me relaciono com o dinheiro e com o consumo como tentativa de pertencimento, algo que no passado me atravessava com força.
Compartilhei essa reflexão em um vídeo nas minhas redes sociais. Os comentários mostraram que essa experiência não era só minha. Eis a questão: não se trata de falha individual, mas de um problema estrutural. Embora existam iniciativas públicas e privadas, como a Estratégia Nacional de Educação Financeira, apoiada pelo Banco Central, pela CVM e pelo Ministério da Educação, a alfabetização financeira no Brasil ainda é fragmentada e superficial. Isso deixa lacunas profundas na forma como lidamos com planejamento, risco e decisões de longo prazo (Relatório Anbima, Mapa da Educação Financeira no Brasil).
Esse cenário se reflete diretamente no endividamento das famílias. Mais de 80 milhões de brasileiros estão endividados (Serasa Experian, 2024). E o uso recorrente do cartão de crédito como extensão da renda tem alimentado ciclos de inadimplência, ansiedade e sensação constante de instabilidade (CNN Brasil, cobertura econômica sobre endividamento e crédito).
Quando o dinheiro é vivido como ameaça constante, o impacto emocional é inevitável. Culpa ao gastar, euforia ao receber, medo de faltar, dificuldade de planejar. Essa relação não se resolve com virada de ano. Ela apenas se repete.
Educação financeira não é sobre produtos financeiros. É sobre comportamento. É aprender a tomar decisões sob pressão, escassez e incerteza. No Brasil, onde grande parte da população vive com renda variável ou informal, essa habilidade é ainda mais essencial. O acesso ampliado ao sistema financeiro, impulsionado por ferramentas como o Pix e as contas digitais, não foi acompanhado pelo mesmo nível de preparo emocional e estratégico para lidar com dinheiro (Relatórios sobre Inclusão e Educação Financeira, Banco Central e OCDE).
Para pessoas negras e periféricas, essa discussão ganha outra camada. A ausência histórica de educação patrimonial faz com que o dinheiro seja visto, muitas vezes, como urgência e validação, não como ferramenta de construção de longo prazo.
O dinheiro nunca foi só dinheiro. Ele sempre carregou a responsabilidade de provar valor, garantir sobrevivência e ocupar espaços historicamente negados.
Ano novo não resolve, mas consciência transforma.
Talvez este não seja o ano de ganhar mais. Talvez seja o ano de se relacionar melhor com o dinheiro que já existe na sua vida. E essa virada, a mais importante de todas, nenhum calendário faz sozinho. Ela exige o exercício da consciência.
Consciência é a nova meta. E, para muita gente, é também reparação.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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