Banco Central não sinaliza novos cortes. Diferentemente do Copom anterior, dessa vez o órgão não aponta que fará uma redução da Selic. O Copom afirma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros vão depender dos conflitos no Oriente Médio.
No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo. Comunicado do Copom
Copom destaca que incertezas aumentaram. Segundo os diretores do Banco Central, o conflito no Oriente Médio mudou o cenário econômico, passando a exigir ainda maior cautela na condução da política monetária.
O ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities. Comunicado do Copom
Decisão foi unânime. Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira.
É a primeira redução da taxa básica de juros em quase dois anos. A última vez que o Banco Central reduziu a Selic foi em maio de 2024, quando a taxa mudou de 10,75% para 10,50%. Depois que atingiu 15% ao ano, a taxa foi mantida nesse patamar por cinco reuniões seguidas do Copom.
Taxa básica de juros estava no maior patamar em quase 20 anos. A Selic estava em 15% ao ano desde junho do ano passado. O Banco Central vinha elevando a taxa desde setembro de 2024, partindo de 10,50%, como medida para derrubar a inflação, que estava acima do teto da meta perseguida pelo órgão.
Inflação passou a recuar após alta dos juros. O IPCA, principal índice de preços da economia brasileira, vinha rodando acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central, que é de 3% ao ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Em abril de 2025, o IPCA chegou a 5,53% ao ano. Já em fevereiro deste ano, o índice de preços recuou para 3,81%.
Desaceleração da inflação levou Banco Central a sinalizar espaço para começar a cortar juros. Embora tenha mantido a Selic em 15% no encontro anterior, em janeiro, o Copom indicou naquela oportunidade que iria iniciar a redução da taxa básica na reunião seguinte, ou seja, nesta semana.
Alta do petróleo mudou apostas para juros. No fim de fevereiro, 83% dos agentes de mercado projetavam que a taxa básica de juros seria reduzida pelo Banco Central de forma mais forte, em 0,50 ponto percentual, para 14,50% ao ano. Após a escalada do conflito no Oriente Médio, entretanto, entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, a maior parte do mercado passou a esperar uma redução mais conservadora, de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14,75% ao ano.

Petróleo aumentou incertezas e deixou mercado mais cauteloso. O volume de apostas em um corte mais conservador dos juros, de 0,25 ponto percentual, ganhou força e se tornou predominante depois que a guerra passou a atingir áreas de produção e de transporte de petróleo, elevando os preços do barril aos maiores preços em quase três anos.
Valorização do petróleo no exterior pressiona economia brasileira. O Brasil importa cerca de 30% do petróleo consumido internamente. Embora o país produza mais barris do que consome, as refinarias precisam complementar a produção nacional com petróleo importado para o processamento. Além disso, cerca de 20% da demanda interna de diesel é atendida com produto comprado do exterior.
Preocupado, governo lançou medidas para tentar atenuar impacto da alta do petróleo sobre a economia brasileira. Além de zerar PIS e Cofins sobre o diesel e conceder subvenção ao combustível para produtores, a administração federal anunciou taxa sobre exportações de petróleo para ampliar a oferta interna.
Na sequência, Petrobras reajustou preço do diesel. No dia seguinte ao anúncio da isenção de tributos e da subvenção ao combustível, a estatal informou um aumento no valor do diesel para as distribuidoras.
Serviços ainda pressionam inflação. Além da pressão inflacionária provocada pela alta do petróleo, o comportamento de preços em segmentos como cuidados pessoais, transportes e comunicação, seguem alimentando o IPCA, como mostrou o indicador de fevereiro.
Inflação fora da meta
Comitê atualizou projeção para inflação acumulada em 2026: para 3,9%. Em janeiro, essa previsão era de 3,4%. Para o terceiro trimestre de 2027, o Copom projeta IPCA (o índice oficial de inflação no Brasil) em torno de 3,3%, acima da taxa anterior, de 3,2%..
O mercado financeiro espera que a manutenção da taxa reduza a inflação. A mediana das estimativas capturadas no Boletim Focos, pesquisa semanal do Banco Central com uma centena de agentes do mercado financeiro, aponta IPCA terminando 2026 em 4,10%. Essa projeção era menor na semana anterior: 3,91%.
A meta oficial da inflação é de 3%. Com permissão para oscilar 1,5 ponto percentual para mais ou menos, o objetivo será cumprido se o IPCA ficar dentro da faixa entre 1,5% e 4,5%.
Análises de mercado
Profissionais do setor financeiro destacam o tom cauteloso do comunicado do Copom. Para analistas, embora os impactos do contexto geopolítico já estivessem mapeados pelos membros do Comitê, as incertezas associadas ao conflito no Oriente Médio atingiram um novo patamar, sobretudo diante das dúvidas quanto à sua extensão e duração.
O texto reforça a postura de dependência de dados e mantém aberta a possibilidade de ajustes no ritmo da flexibilização monetária, a depender da evolução do balanço de riscos. Rafael Pastorello - Portfólio Manager do Banco Sofisa
A decisão carrega uma mensagem clara: o ciclo de queda começou, mas não será linear nem agressivo. As expectativas de inflação seguem desancoradas em relação à meta, e o ambiente externo continua pressionado, com fatores como commodities e tensões geopolíticas influenciando os preços e o câmbio. Ao mesmo tempo, a atividade doméstica mostra sinais de desaceleração, o que abre espaço para iniciar o corte. Enrico Gazola, economista pelo Insper e sócio-fundador da Nero Consultoria
O comitê foi enfático ao deixar claro que os próximos passos do Copom serão bastante sensíveis ao monitoramento de variáveis-chave, deixando implícito que, em caso de uma deterioração adicional de expectativas de inflação, ou outro tipo de contaminação da economia brasileira que possa colocar os objetivos do Banco Central em risco, pode vir a pausar o ciclo. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos
O Copom enfatiza postura mais dependente da evolução dos dados e do cenário. A leitura sobre o ritmo do ciclo permanece em aberto, devendo responder tanto à dinâmica doméstica quanto aos desdobramentos do ambiente externo. Bruno Fratelli, economista da Journey Capital
Selic influencia economia
A Selic é a principal forma de conter a inflação. A elevação dos juros torna mais cara a tomada de empréstimo, inibindo o consumo e, consequentemente, a inflação. Por outro lado, seguidas altas podem enfraquecer o ritmo da economia, diminuindo a produção industrial e aumentando o desemprego.
Selic alta encarece principalmente a concessão de crédito e serviços financeiros. As taxas cobradas em empréstimos pessoais, financiamentos imobiliários e de veículos, além de linhas de crédito para empresas, ficam caras.
Já investir em renda fixa é bom negócio com a Selic alta. Investimentos remunerados pela taxa básica, como o Tesouro Selic, oferecerem retorno maior, enquanto a poupança perde ainda mais competitividade. Veja aqui como ficam rendimentos em algumas aplicações.

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