Em 2013, o bispo Robson Rodovalho, 70, disse à Folha que seria "muito natural" ter um presidente evangélico à frente do Brasil um dia. "Ainda acho totalmente", diz agora.
Enquanto esse tempo não chega, sua oração estará voltada ao católico Jair Bolsonaro (PL), afirma o líder da igreja Sara Nossa Terra. Rodovalho foi liberado pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes para dar "assistência religiosa" ao ex-mandatário encarcerado num batalhão da Polícia Militar conhecido como Papudinha.
Rodovalho e Bolsonaro são aliados antigos. Conheceram-se quando o bispo exerceu seu único mandato parlamentar, como deputado pelo DEM (partido incorporado à União Brasil), de 2007 a 2011. "Criamos a Frente da Família, e ele participava. A partir dali, foi [uma relação] sempre muito próxima."
Nada que o impedisse de apoiar Dilma Rousseff na época. Na entrevista que deu ao jornal 12 anos atrás, Rodovalho contou que endossou a eleição da petista "porque o país foi dirigido pela direita a vida inteira", e achava por bem dar uma chance à esquerda.
Hoje já pensa diferente. "Naquele pleito, a Dilma se comprometeu em preservar os valores e princípios cristãos."
O cenário mudou um bocado de lá pra cá. Se antes via "pragmatismo" num governo de esquerda, o bispo diz que essa relação "azedou" na última década.
Marchou em 2018 e 2022 com Bolsonaro, o amigo casado com a evangélica Michelle e pai de filhos crentes. Tem trânsito em Brasília, onde mora.
A passagem pela Câmara ajudou na proximidade com o poder. Na época, ele apresentou projetos solicitando da criação do Dia do Bombeiro à proibição do uso de documentos psicografados como prova judicial.
Fora do cargo, consolidou-se como um dos articuladores evangélicos no jogo político.
Ele aderiu à fé evangélica após uma adolescência turbulenta, "de gente perdida, sem orientação", como contou anos atrás. Consumia de tudo um pouco. "Maconha, muito álcool... A gente fazia chá de cogumelo." Andava até com revólver na cintura.
Aos 15 anos, entrou para uma igreja presbiteriana. "A única coisa que eu sabia é que era muito bom ler a Bíblia e muito gostoso orar. Ah, não precisava de droga, de bebida, de nada."
Em 1992, Rodovalho abriu sua própria igreja, de orientação pentecostal. A Sara ficou conhecida no começo dos anos 2000 por contar em seus cultos com famosos como Baby do Brasil, Monique Evans e Rodolfo, ex-vocalista da banda Raimundos. Gretchen celebrou um dos vários casamentos que teve lá.
Como outros líderes de quilate nacional, o bispo projetou-se além das pregações no púlpito. Gravou discos e publicou dezenas de livros, como "Senhor, Ajuda-me a Crer" e "O Dinheiro e Você", no qual promete revelar "os segredos espirituais, emocionais e práticos para adquirir riquezas".
Rodovalho é tido como um escudeiro de agendas conservadoras e de políticos da direita, mas sem o tom beligerante que marcou a atuação pública de líderes como Silas Malafaia. Costuma atuar nos bastidores, privilegiando interlocução institucional, o que lhe permite circular com menos desgaste entre diferentes esferas do poder e manter influência política sem recorrer à retórica de confronto permanente.
Elogiou, por exemplo, a escolha do presidente Lula (PT) pelo advogado-geral da União, o batista Jorge Messias, para o STF —ainda pendente de aprovação pelo Senado. O bispo também foi um entusiasta da ida de outro evangélico para a corte, o presbiteriano André Mendonça, indicado por Bolsonaro em 2021.
Diz que seu papel maior hoje "é o de ajudar a unir os cristãos e trabalhar em prol de nossos valores". O suporte religioso a Bolsonaro faz parte desse pacote. "A ideia é dar a ele força emocional e espiritual pra vencer na mente essa batalha. Isso tudo passa."

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