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Brasil não é Estado frágil diante de ameaças digitais, diz diretora de segurança do GSI

O Brasil acompanha com atenção o avanço de sistemas de inteligência artificial capazes de identificar vulnerabilidades em redes e softwares, mas não se considera em posição de fragilidade diante dessas ameaças, afirma Danielle Ayres, diretora de segurança da informação do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) da Presidência.

Segundo ela, o principal desafio é acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas, que exigem atualização constante dos mecanismos de defesa. "Temos que estar atentos", disse Ayres à Folha nesta quarta-feira (17)

A startup Anthropic causou temor em governos no mundo todo quando afirmou, em abril, ter desenvolvido um modelo "poderoso demais" para ser disponibilizado ao público —o Claude Mythos seria, de acordo com a companhia, capaz de explorar falhas de segurança de qualquer sistema com enorme rapidez.

O anúncio levou o governo Donald Trump a entrar em discussões sobre a limitação do modelo, e a Anthropic tornou pública uma versão do Mythos com restrições a temas sensíveis no último dia 9. Na sexta-feira (12), entretanto, a empresa foi forçada a retirar o modelo de IA do ar por ordem da Casa Branca.

Enquanto a disputa continua e autoridades dos Estados Unidos se reúnem com líderes da Anthropic, países como o Brasil ficam sem saber como seriam afetados por uma ferramenta como o Mythos.

"Não temos conhecimento aprofundado do que contém esse modelo, e não podemos nos defender de algo que não sabemos o que é", afirma Ayres. "Estudamos outros modelos e estamos muito preparados para lidar com vulnerabilidades. Mas se não temos acesso [ao Mythos] e não sabemos como ele funciona, vamos nos defender com base nos padrões que temos."

Para ela, não se trata de acreditar cegamente nas afirmações da Anthropic de que o Mythos é mesmo tão perigoso assim: "O avanço tecnológico abre espaço para que isso seja possível". "Eu confiaria no que [a empresa] diz sobre a própria ferramenta. Gostaria que ela fosse compartilhada com o mundo para que pudéssemos entender as vulnerabilidades e discutir seu uso", diz.

Ainda assim, Ayres, que participa da 23ª Conferência de Segurança Internacional do Forte, no Rio de Janeiro, avalia que a posição do Brasil na questão de segurança da informação é sólida. "Mas isso não é um problema brasileiro, é um problema mundial. A velocidade com que as transformações tecnológicas ocorrem nos desafia diariamente, então estamos constantemente nos renovando."

"O Estado brasileiro não é um Estado frágil, muito pelo contrário. Como todos os países do mundo, estamos em constante aprimoramento, mas o ecossistema protetivo é muito bom", diz a diretora, que também é professora de Política Internacional e Segurança da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Ayres afirma ainda que o GSI pretende criar uma linha de crédito no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para que pequenas e médias empresas possam investir em cibersegurança. "Empresas como a Embraer já são muito qualificadas em segurança, mas dependem muitas vezes de cadeias de suprimentos que não necessariamente são tão bem protegidas. Se o pequeno e o médio empreendedor estão protegidos, a tendência é que toda a cadeia [fique mais segura]."

A diretora diz também que trabalha para tornar mais seguros os serviços oferecidos pelo governo, como o portal Gov.br —"um dos melhores sistemas públicos do mundo", afirma.

"Nosso desafio é proteger todos esses sistemas. E eles estão protegidos, mas dez dias atrás o mundo mudou porque uma empresa decidiu, por ordem de um país, que não poderíamos ter acesso a uma determinada ferramenta, mas esse governo pode. É com essa questão que estamos lidando."

Por fim, Ayres expressa apoio ao desenvolvimento de alternativas nacionais aos modelos estrangeiros. "A imensa maioria das ferramentas de inteligência artificial no mundo hoje pensa em inglês. Mas nós somos falantes do português, então as nossas ferramentas têm que pensar da maneira como nós pensamos."

"Não se trata de disputar com os grandes produtores internacionais, porque isso é difícil —não impossível, mas difícil e não é uma prioridade. A prioridade é dar ao cidadão [uma ferramenta] dentro das características que ele possui, da nossa cultura, da nossa realidade e das nossas demandas."

O jornalista viajou a convite da Konrad-Adenauer-Stiftung Brasil.

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