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Cena retratada em 'Ainda Estou Aqui' foi rápida, e eu não sabia ao certo o peso histórico de foto

23 de fevereiro de 1996. Há quase 29 anos, recebi a pauta para cobrir a entrega da certidão de óbito do ex-deputado Rubens Paiva à sua mulher, Eunice Paiva, em um cartório na Sé, no centro de São Paulo.

A repartição apertada, com prateleiras lotadas de arquivos de cor bege e iluminada por luz fria fluorescente, estava repleta de repórteres, alguns poucos cinegrafistas e talvez mais um ou dois fotógrafos. Sentimos de perto a ansiedade de Eunice, acompanhada de seu filho Marcelo Rubens Paiva. A cena foi rápida: Eunice recebeu da escrevente a certidão de óbito, colocou seus óculos de grau e leu em silêncio. Logo depois, exibiu o documento, tão esperado pela família, para as câmeras. Do outro lado do balcão, as funcionárias sorriram ao ver a alegria e o alívio de mãe e filho.

A cena e a foto que fiz de Eunice, Marcelo e a certidão de óbito aparecem no filme "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles. Como dizia João Bittar, editor de fotografia da Folha na época, "não é a gente que tira a fotografia. A fotografia é dada para a gente".

Naquele 23 de fevereiro, não sabia ao certo o peso do momento histórico que registrei. Mas não era apenas mais uma pauta para mim. Sofri na pele, como filho de um perseguido pela ditadura militar, os danos que os anos de chumbo causaram na vida de centenas de famílias. Meu pai, o publicitário Carlos H. Knapp, nasceu no mesmo ano de Rubens Paiva, em 1929, e teve melhor sorte: conseguiu fugir sem ser torturado, se exilando na Argélia. Só retornou ao Brasil em 1980, depois da anistia.

Na cena da blitz no túnel, o filme de Walter Salles mostra um cartaz com fotos de "terroristas" procurados. Me lembrou o rosto de meu pai estampado nos mesmos cartazes espalhados pelo país quando eu tinha cinco anos de idade. A repressão deixou cicatrizes e duras consequências até hoje.

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