O Datafolha, fundado em 1983, questiona desde 1987 se os eleitores consideram o governo do presidente da República ótimo ou bom, regular, ruim ou péssimo. Desde então, a avaliação dos mandatários flutuou principalmente de acordo com o desempenho na economia, escândalos de corrupção e crises de segurança pública.
O ambiente de polarização e as mudanças na dinâmica de consumo de informações também são apontados como fatores que achataram o limite de aprovação de um presidente. Há, agora, mais eleitores convictos contra ou a favor de um mandatário, o que dificulta o avanço a índices muito altos de popularidade, como os vistos entre 2010 e 2013.
"Após 2014 nenhum presidente conseguiu atingir índices de avaliação positiva superior a 42%. Certamente a polarização contribui", diz Luciana Chong, diretora do Datafolha.
Ela explica que as pesquisas de avaliação de governo permitem comparação ao longo do tempo por seguirem metodologia semelhante desde a redemocratização, com exceção dos levantamentos iniciais do governo Sarney, restritos a capitais.
Para o cientista político Creomar de Souza, professor da Fundação Dom Cabral e fundador da consultoria política Dharma, a cacofonia informacional produzida pelas redes sociais é um fator relevante para entender a dificuldade de governos como o do presidente Lula (PT) de ampliar a avaliação positiva.
Se o fluxo de informação é muito rápido, afirma, os ganhos decorrentes de ações do governo também tendem a se dissipar com mais rapidez, fenômeno que afeta o processo eleitoral.
Ele aponta o papel do PT na polarização e na mudança da forma como o eleitor avalia um presidente. Para Creomar, a lógica do nós contra eles, estimulada pela sigla de Lula, provoca dificuldades para o diálogo do governo com aqueles que não são seus eleitores fiéis.
O manejo de crises políticas, econômicas e institucionais também aparece como fator recorrente na oscilação da popularidade presidencial ao longo da série histórica.
"E hoje essa dinâmica está em seu ápice: na administração Lula, aqueles que votaram em Bolsonaro vão avaliar o governo muito mal, e os lulistas vão tendencialmente avaliar o governo muito bem, numa dinâmica em que tudo é justificável, em determinado sentido. Os acertos são sempre justificáveis pelos apoiadores, os erros são sempre superlativizados pelos opositores", diz Cremoar.
A seguir, leia a cronologia das taxas de aprovação e rejeição medidas pelo Datafolha.
A hiperinflação era um dos principais problemas do país no início da redemocratização. José Sarney, primeiro civil a governar o país após 21 anos de militares, criou planos econômicos para tentar conter a subida de preços e reorganizar economicamente o Estado em cenário de descontrole das contas públicas e dívida externa crescente.
Os planos Cruzado, Bresser e Verão não tiveram sucesso, e a trajetória de popularidade do presidente, que já começou baixa, seguiu assim até o fim do mandato. Nem a promulgação da Constituição de 1988 conseguiu alavancar Sarney.
Nesse contexto de frustração com a economia e com a política tradicional, ganha força o discurso de combate à corrupção. O então governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello (à época no PRN), foi eleito presidente em 1989 prometendo acabar com a inflação e moralizar a administração pública.
Além de não ter conseguido controlar o processo inflacionário, Collor passou a ter maior reprovação conforme os escândalos em seu governo apareciam.
Com Itamar Franco (PMDB), mais uma vez a pauta econômica voltou a ganhar protagonismo na avaliação de governo. Persistiu a inflação, e a rejeição do mineiro aumentou até a implementação do Plano Real, em 1994.
A rejeição de Itamar aferida pelo Datafolha mostra uma trégua no aumento do índice ruim ou péssimo a partir do cruzeiro real, moeda implementada na etapa inicial do plano, e uma virada na popularidade após o lançamento do real e a queda da inflação.
O sucesso do plano levou à eleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ministro da Fazenda de Itamar.
A popularidade inicial do novo governo refletiu a confiança no Plano Real, mas passou a oscilar diante de crises externas e do desemprego.
O colapso do sistema financeiro na Rússia impactou o mundo todo no fim do primeiro mandato de FHC, que desvalorizou o Real a partir de janeiro de 1999. A aprovação caiu e ficou em níveis mais baixos do que os primeiros quatro anos do governo.
A melhor avaliação do tucano no segundo mandato ocorreu entre fevereiro e julho de 2002, perto da eleição presidencial. O governo ainda viveu as consequências da crise econômica da Argentina e uma megarrebelião da facção criminosa PCC.
O tucano não conseguiu alçar José Serra (PSDB) ao Palácio do Planalto. Lula (PT) foi eleito com a promessa de manter as bases econômicas construídas pelo Real e focar o combate à pobreza.
O petista manteve avaliação estável da posse, em 2003, até o surgimento de escândalos de corrupção, como o dos bingos e o mensalão, em 2004 e 2005, que derrubaram a aprovação. Ainda assim, conseguiu garantir a reeleição em 2006.
O petista terminou o mandato com 83% de ótimo ou bom, 13% de regular e 4% de ruim ou péssimo. Elegeu Dilma Rousseff (PT) como sua sucessora.
No primeiro mandato, ela reagiu a escândalos de corrupção com o que prometeu ser uma "faxina ética" e alcançou seu pico de aprovação em março de 2013, com 65% de ótimo ou bom, segundo o Datafolha.
Os protestos de junho de 2013, porém, derrubaram a popularidade em 27 pontos percentuais, levando a 30% de avaliação positiva, e, após novas oscilações, a petista foi reeleita por margem estreita.
A partir do segundo mandato, inicia-se nova fase no governo Dilma. Com a recessão econômica, o governo corta gastos e faz pente-fino em benefícios sociais, e o pessimismo com a economia aumenta. Agosto de 2015 é o pior momento para a presidente, que registra sua menor aprovação e sua maior reprovação.
A situação seguiu ruim para a petista após a abertura do processo de impeachment pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (MDB). O impedimento encerrou o segundo mandato de Dilma e abriu um novo ciclo político no Planalto.
Com Michel Temer (MDB), a crise econômica persistiu, e divulgação de gravação de conversa com Joesley Batista quase levou o então presidente a renunciar. Em 2018, a paralisação dos caminhoneiros e o avanço da polarização, impulsionada pelo antipetismo e pela pauta anticorrupção, marcaram o período.
O mandato de Jair Bolsonaro (PL) foi caracterizado pela postura negacionista na pandemia de Covid-19 e pela série de ataques aos Poderes, especialmente o Supremo Tribunal Federal.
A reprovação ao então presidente teve pico após a divulgação de reunião ministerial em 2020, na esteira da demissão do então ministro Sergio Moro do Ministério da Justiça, sob a justificativa de que Bolsonaro havia tentado interferir na Polícia Federal.
A avaliação negativa voltou a aumentar diante da crise da falta de oxigênio em Manaus e seguiu em alta com a CPI da Covid e com o 7 de Setembro de 2021, quando ameaçou não cumprir decisões do Supremo.
Os índices voltaram a melhorar apenas a partir de março de 2022, quando a vacinação no país contra o coronavírus avançou. A recuperação, porém, não foi suficiente para garantir a reeleição de Bolsonaro.
De volta ao Planalto para um terceiro mandato, Lula manteve avaliação estável durante os dois primeiros anos de governo, mas perdeu popularidade diante da crise do Pix, quando o governo se viu forçado a revogar uma normativa da Receita Federal sobre monitoramento de transações financeiras.
O petista foi lentamente recuperando a popularidade após utilizar o discurso de soberania para responder às sanções dos Estados Unidos ao Brasil. Mais recentemente, a recuperação da avaliação foi freada com a megaoperação policial no Rio de Janeiro.

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