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Maduro, meios e fins

"Os fins justificam os meios." A máxima vulgar assenta-se sobre uma inconsistência conceitual: a cisão entre os dois elementos. Tudo se passa como se meios abomináveis pudessem produzir fins virtuosos. A operação imperial dos EUA na Venezuela desfaz tal ilusão.

Os meios qualificam os fins. A violação das leis internacionais, pela intervenção militar contra uma nação soberana, não conduz à democracia. Trump optou por Delcy Rodríguez –ou seja, pelo regime de Maduro sem Maduro– porque a ferramenta ideal para a imposição de um protetorado é uma ditadura desmoralizada e submissa. O cálculo solicita a marginalização de María Corina Machado e de Edmundo González, o candidato vitorioso nas eleições fraudadas de 2024.

O poder militar de uma potência estrangeira não é um meio viável para realizar as esperanças dos venezuelanos no retorno à democracia. Os EUA, que não reconheceram a vitória espúria de Maduro, agora estabelecem um pacto com sua vice. Na síntese de Charles Shapiro, antigo embaixador americano em Caracas: "Eles preferiram a estabilidade à democracia. Os jagunços continuam lá".

Nos planos de Trump, uma indefinida transição democrática surge como promessa nebulosa, em futuro imprevisível. É que um governo escolhido pelo povo teria que dar satisfação aos eleitores, ao contrário de uma ditadura. A anulação da soberania nacional implica a rejeição da soberania popular.

"Isso não é uma mudança de regime, mas uma demanda por mudança de comportamento do regime", esclareceu Mike Johnson, o republicano que lidera a Câmara. O regime marionete deve inscrever a Venezuela na órbita geopolítica e econômica dos EUA, por um acordo de exclusividade petrolífera e pelo rompimento das alianças com China, Rússia, Irã e Cuba. Dele, contudo, os EUA não demandam a plena vigência das liberdades públicas e políticas.

"Eu estou no comando", gabou-se Trump. Descortina-se, porém, um cenário de instabilidade. O regime anunciou a libertação de alguns dos 806 presos políticos. Amanhã ou depois, Corina Machado reivindicará de Delcy Rodríguez garantias de segurança para retornar à Venezuela. Se a repressão afrouxar, a encarnação fantoche do chavismo enfrentará ondas de manifestações populares. Caso contrário, a Casa Branca torna-se sócia do arbítrio, um preço alto demais para os republicanos.

"Não há agente externo no governo da Venezuela", proclamou Delcy Rodríguez, face à incredulidade geral. A capanga de Maduro supervisionou a polícia política assassina do chavismo e arquitetou a transição recente do socialismo da miséria para um capitalismo de máfias. Por isso, a CIA identificou nela o "agente" perfeito para exercer a função de títere. Os meios sempre qualificam os fins.

O Brasil acumula fracassos diplomáticos na questão venezuelana. No passado, Lula operou como cabo eleitoral de Chávez e Maduro, celebrando a "democracia" chavista. Diante da fraude eleitoral de 2024, recusou-se a chancelar a vitória espúria de Maduro, mas também não reconheceu o triunfo de González, condenando-se à irrelevância.

Nossa diplomacia –"altiva e ativa", segundo Celso Amorim– só recuperará credibilidade pela exigência da restauração da soberania popular no país vizinho, via eleições livres. A liberdade da Venezuela, um fim virtuoso, depende da escolha de meios apropriados.

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