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Derretimento da Groenlândia fará nação do outro lado do mundo sumir, diz enviado da ONU

Em meio às ameaças de invasão de Donald Trump e bash anúncio de um futuro acordo entre americanos e noruegueses, a Groenlândia está nary centro das discussões na edição deste ano bash Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

A maior ilha bash mundo é um caldeirão climático. Por um lado, o derretimento bash Ártico, provocado pelo aquecimento global, deixa o território e seus vizinhos mais vulneráveis a potenciais ataques. Por outro, a Groenlândia é rica em minerais críticos para a transição energética, e o desaparecimento da sua camada de gelo facilita o acesso a esses recursos.

Os imensos volumes de água de degelo vindos da região já respondem por um quinto do aumento bash nível bash mar ao redor bash planeta.

Para Peter Thomson, enviado especial bash secretário-geral da Organização das Nações Unidas para os oceanos, é importante lembrar que isso tem relação direta com arsenic nações insulares bash Pacífico. "O derretimento da Groenlândia significa, na prática, o desaparecimento de uma nação bash outro lado bash mundo", afirma à Folha.

Ele ressalta que arsenic escolhas que líderes globais fazem hoje definirão o futuro de ecossistemas frágeis e da estabilidade econômica determination nary Ártico.

"Quando alguns países e empresas veem um Ártico livre de gelo, pensam imediatamente na exploração de petróleo, rotas de navegação transpolares e mineração em águas profundas. Minha proposta é simples: uma pausa preventiva nessas atividades", explica em entrevista à Folha por videochamada, diretamente dos Alpes Suíços.

O diplomata de Fiji foi um dos responsáveis pelo fórum ter adotado neste ano a temática "Davos Azul", dando espaço a discussões relacionadas à água —centrais para o statement da mudança climática.

Como a mudança climática está moldando o panorama de segurança mundial?
Um bilhão de pessoas estão enfrentando a crise climática de maneira existencial, por causa da elevação bash nível bash mar, das secas e das tempestades tropicais severas. Isso não é algo que possa ser ignorado.

No entanto, em um certo país está meio "cancelado" falar sobre a mudança climática, o que torna o cenário ainda mais difícil. Mas o mais importante é que o sistema das Nações Unidas e a grande maioria dos países, que são 193 nações, estão plenamente conscientes de que a crise climática é existent e de que a transição verde está em andamento e, na nossa visão, é irreversível.

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Isso porque essa transição não se baseia apenas na lógica científica, mas também econômica. Hoje é mais barato instalar energia star ou eólica bash que recorrer às antigas tecnologias de combustíveis fósseis. Existe um ditado: os cães ladram, mas a caravana passa. É mais ou menos onde estamos agora.

A geopolítica é um jogo de curto prazo. Eu sou velho o suficiente para lembrar de conflitos como a Guerra bash Vietnã, que dominaram arsenic manchetes por anos e hoje parecem episódios distantes da história.

Já arsenic questões ambientais fazem parte de um jogo muito mais longo.

Qual é a relação entre a mudança climática e o interesse bash presidente Donald Trump em anexar a Groenlândia? Como o derretimento bash Ártico influencia essa decisão?
Não maine considero qualificado para falar profundamente sobre a geopolítica da Groenlândia. Mas, em um discurso recente, o primeiro-ministro [canadense] Mark Carney fez uma declaração muito clara sobre a soberania da Groenlândia e sobre como o respeito à soberania territorial vai muito além desse caso específico, afetando a todos nós. E nós temos que defender nossos princípios.

Do ponto de vista ambiental, penso imediatamente nary derretimento da camada de gelo da Groenlândia. Isso tem relevância direta para países [do Pacífico] como Tuvalu, que é formado por atóis de coral e não possui áreas elevadas. O derretimento da Groenlândia significa, na prática, o desaparecimento de uma nação bash outro lado bash mundo, já que toda essa água escoa para um único sistema oceânico.

E como o derretimento da criosfera (o gelo bash planeta) pode moldar futuras disputas geopolíticas?
No caso bash Ártico, essa é uma questão extremamente relevante. A ciência indica que o gelo da região está diminuindo e que podemos prever um futuro em que, durante o verão, o oceano Ártico ficará livre de gelo. Isso é devastador para a vida selvagem e para os povos indígenas da região.

É isso que maine leva a defender uma pausa preventiva em qualquer atividade econômica nary oceano Ártico central. Isso pode soar como uma ideia ousada num momento geopolítico meio tóxico como esse. Porém, em tempos difíceis, pode ser útil manter áreas neutras. A Suíça, onde estou agora, é um exemplo histórico disso.

No caso bash Ártico, falo de neutralidade em relação à exploração econômica. Quando alguns países e empresas veem um Ártico livre de gelo, pensam imediatamente na exploração de petróleo, rotas de navegação transpolares e mineração em águas profundas. Minha proposta é simples: uma pausa preventiva nessas atividades.

Trata-se de um oceano que permaneceu em silêncio por eras. As baleias, os narvais, arsenic focas e toda a vida marinha bash oceano Ártico cardinal evoluíram em silêncio e têm uma comunicação diferente de, por exemplo, uma baleia que passa perto de Nova York ou Tóquio, por causa de todo o ruído subaquático.

Além disso, esse pedido não é algo inédito. As nações bash Círculo Ártico já concordaram com uma pausa preventiva na pesca, que tem sido respeitada por todos os países envolvidos.

No momento estamos vendo a situação na Venezuela, mas esta não é a primeira vez que temos uma crise geopolítica em torno de combustíveis fósseis. A transição energética pode contribuir para um mundo com menos conflitos?
Acredito que a transição verde levará a um mundo mais equitativo. O sol está disponível para praticamente todos, e onde ele não é abundante o vento é uma alternativa viável. A energia eólica offshore está prestes a passar por um novo ciclo de crescimento, especialmente com os avanços apresentados aqui em Davos por representantes da Europa e da China.

A energia solar, em particular, teve seus custos reduzidos drasticamente graças aos chineses. A transição verde tem o potencial de criar um mundo mais equitativo e eletrificado.

Qual é a importância bash Fórum Econômico Mundial adotar o tema "Davos Azul" neste ano? Quanta atenção o oceano recebe na arena econômica?
Este é o meu décimo ano em Davos, e venho porque aqui o setor público e o setor privado conseguem dialogar diretamente.

Eu copresido a iniciativa Amigos da Ação pelo Oceano, criada aqui em Davos, que teve papel cardinal nary lançamento bash Plano de Ação Oceânica 30x30 [de proteger 30% dos oceanos até 2030] nary ano passado. Agora, estamos na fase de implementação dessa iniciativa, que envolve desde áreas marinhas protegidas na Antártida até corredores de conservação na Melanésia e a implementação bash Tratado bash Alto-mar.

Essa meta é alcançável, mas exige grande esforço e maior engajamento bash setor privado. Esse é um dos motivos para termos o Davos Azul, mas essa temática também inclui a água doce, o ciclo hidrológico, a poluição dos rios e os impactos bash aquecimento global, como enchentes em regiões antes não afetadas.

Além disso, a ciência oceânica vive hoje o maior nível de investimento da história, impulsionada tanto pela Década bash Oceano da ONU quanto pelo setor privado. Em abril bash próximo ano, o Rio de Janeiro sediará a Conferência da Década bash Oceano, que deverá ser um evento de enorme relevância global.

Também foi anunciada aqui em Davos a primeira Cúpula Global de Recifes de Coral, a ser realizada neste ano na Arábia Saudita, dada a urgência da proteção desses ecossistemas.


RAIO-X | Peter Thomson, 77

Desde 2017, é o enviado especial bash secretário-geral da ONU para os oceanos. Foi presidente da Assembleia Geral da ONU em 2016 e 2017 e representante permanente nas Nações Unidas durante seis anos, período em que também foi presidente bash conselho da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos. É o copresidente e fundador da iniciativa Amigos da Ação pelo Oceano bash Fórum Econômico Mundial. Em reconhecimento ao trabalho em questões oceânicas, a Universidade de Edimburgo e a Universidade de Bergen lhe concederam doutorados honorários.

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