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Desfile pró-Lula com 'família em conserva' divide pastores e inflama debate eleitoral

A ala que satirizou "neoconservadores" no desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Lula (PT) dividiu opiniões entre líderes evangélicos alinhados a diferentes ideologias ouvidos pela Folha. A escola foi rebaixada nesta quarta (18) após a apuração do desfile da Marquês de Sapucaí, em sua estreia no grupo Especial.

Na publicação da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) que compila as descrições dos desfiles enviadas por cada agremiação, a escola de Niterói justifica a ala "neoconservadores em conserva" como uma sátira a um grupo "que atua fortemente em oposição a Lula, votando contra a maioria das pautas defendidas por ele, como privatizações e o fim da escala de trabalho 6x1".

As fantasias, segundo a agremiação, se diferenciam em quatro grupos: os representantes do agronegócio, uma mulher de classe alta, os defensores da Ditadura Militar e os grupos religiosos evangélicos. Pesquisa do Datafolha de dezembro sobre avaliação do governo Lula mostra que os evangélicos são um dos grupos com maior opinião negativa do desempenho do presidente, com 49% de reprovação.

Nas redes sociais, políticos conservadores e alguns grupos religiosos demonstraram incômodo com a sátira. Figuras como os senadores Flávio Bolsonaro (PL/RJ) e Damares Alves (Republicanos/DF) e o deputado Sóstenes Cavalcante (PL/RJ), líder do partido da Câmara, publicaram imagens que exaltam famílias conservadoras dentro de latas.

O pastor Pedro Barreto, da Igreja Comunidade Batista do Rio, no Rio de Janeiro (RJ), afirma que, ao contrário da maioria dos pastores e conservadores, sentiu-se "profundamente feliz" em ser tachado de conservador. "A Bíblia fala que temos que ser diferentes. A sociedade nos vê como pessoas que lutam por seus ideais. Não me senti ofendido porque sou conservador", disse.

Ele também afirma ser contrário a grupos evangélicos que buscam confrontar manifestações de Carnaval. "O crente está deixando de ser crente para ser belicoso, tudo é confronto, tudo é briga. Será que Jesus faria isso?", questiona.

Já o pastor Oliver Costa Goiano, coordenador nacional dos Evangélicos do PT e ministro na Igreja Batista da Lagoa, em Maricá (RJ), vê o desfile como uma sátira que partiu da agremiação e se excedeu. "É um ambiente marcado pela ironia, também houve sátira com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas os petistas e o presidente Lula não falariam dessa forma", afirma.

Apesar da crítica à ala do desfile, Goiano diz acreditar que as fantasias não influenciam o voto evangélico. "A maioria dos evangélicos é conservadora e não acompanha o Carnaval", afirma.

Para o pastor Alexandre Gonçalves, da Igreja de Deus no Brasil, o desfile teve uma repercussão "muito ruim" para a maioria dos evangélicos, especialmente em ano eleitoral. "Não é só culpa da escola de samba, porque o presidente estava ali, apoiando. Ele não é mal assessorado, ele está apostando no tudo ou nada", afirma.

Diretor do sindicato da Polícia Rodoviária Federal em Santa Catarina e ex-membro do Movimento Cristãos Trabalhistas, do PDT, ele afirma que o desfile inflamou emoções num momento de polarização política. "Isso acaba alimentando narrativas de bolsonaristas, e temos que escolher um lado e apagar o fogo", afirma o pastor, que postou paródias das manifestações de políticos de direita nas redes sociais, associando suas postagens que mostram famílias "em conserva" a hipocrisia e acusações de corrupção.

Os três pastores concordam que a fé evangélica não deve se misturar ao Carnaval, visto por eles como uma festa hedonista. "A gente aproveita o feriado para ir a retiro espiritual. Agora, não dá para impor isso aos outros. O país é diverso", diz Gonçalves.

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