A um ano das eleições de 2026, o Jornal do Comércio abre o espaço das entrevistas de segunda-feira para ouvir pré-candidatos ao Palácio Piratini. O presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Edegar Pretto — pré-candidato ao governo do Estado pelo PT — é um dos nomes na disputa.
O petista acredita que uma nova renegociação da dívida do Estado com a União será necessária em 2027. O Rio Grande do Sul deve retomar o pagamento das parcelas da dívida com a União.
Edegar Pretto também critica o projeto da Lei Orçamentária Anual (LOA) para 2026 apresentado pelo governador Eduardo Leite (PSD) à Assembleia Legislativa. Para o petista, a previsão de déficit de R$ 3,8 bilhões, apesar das receitas extraordinárias oriundas da privatização de empresas estatais e suspensão da dívida com a União, seria uma evidência de que a política implementada pelo governo Leite deu errado.
Além disso, nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Pretto explica o que a Conab tem feito para controlar o preço dos alimentos, especialmente após as tarifas de 50% impostas pelo presidente estadunidense, Donald Trump, ao Brasil.
Ele comenta ainda que espera que o PDT e PSB construam uma chapa junto com os petistas para o Palácio Piratini ainda no primeiro turno das eleições de 2026.
Jornal do Comércio - Nos últimos anos, o preço dos alimentos aumentou 162% de 2012 a 2024 no Brasil, segundo a Fundação Getulio Vargas. No mundo, os preços de commodities também subiram bastante. O que a Conab pode fazer para conter a alta?
Edegar Pretto - A Conab tinha a missão de diminuir o preço dos alimentos. E, para isso, precisávamos ter mais oferta. Então, o primeiro passo foi a decisão do presidente Lula de recriar o Ministério da Agricultura Familiar (MDA), para viabilizar o Plano Safra da Agricultura Familiar, que ofereceu juros subsidiados para produzir comida. Quem optar por fazer um financiamento para produzir arroz, feijão, hortaliças, frutas, o juro será de 3% ao ano. Se produzir de forma agroecológica, o juro é de 2% ao ano. Uma clara demonstração de que produzir comida tem que ser um bom negócio para o produtor.
JC - E onde entra a Conab?
Pretto - A Conab estava indo para a extinção, o governo passado já tinha fechado 27 unidades armazenadoras (um terço do total) e finalizaram quase todas as políticas públicas (voltadas ao controle do preço dos alimentos). O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que é o nosso carro-chefe hoje, um dos grandes instrumentos para erradicar a fome no Brasil, foi extinto no governo passado. Então, após o subsídio à produção de alimentos, a Conab foi revitalizada para voltar a fazer estoques públicos, realizar compras públicas, controlar preços para os consumidores, pagar preços melhores para os produtores.
JC - As tarifas de 50% impostas pelos EUA exigiram ações específicas da Conab?
Pretto - A Conab sabe quanto o País colhe em grãos, diz ao governo para onde exportar, de onde importar, como está o mercado nacional, o mercado internacional. O governo delineou a política de "apoiamento" aos setores impactados pelo tarifaço, baseado nos dados agropecuários produzidos pela Conab. Então, a Conab entrega os dados ao governo para que, na hora de sentar à mesa de negociação, tome medidas mais assertivas sobre o pescado, as frutas exportadas aos Estados Unidos.
JC - Várias commodities estão com preços em alta no mercado internacional, o que indica forte demanda. A Conab trabalha na abertura de novos mercados?
Pretto - Recentemente, fui junto com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para o México, onde promovemos a reunião de mais de 300 empresários brasileiros e mexicanos em reuniões bilateriais. O México não quer só comprar e vender, quer ser complementar à nossa economia. Historicamente, eles tiveram uma dependência muito grande dos Estados Unidos. Então, eles querem que o Brasil ajude a garantir a soberania alimentar e energética. Só nessa missão para o México, foram credenciados 14 novos frigoríficos para carne bovina. Então, se abre um mercado novo. O Brasil e o México respondem por 70% de toda a exportação na América Latina.
JC - Falando agora do RS, o projeto da Lei Orçamentária Anual, enviado pelo governo Eduardo Leite à Assembleia Legislativa prevê R$ 3,8 bilhões de déficit em 2026. Como vê essa projeção?
Pretto - Esse é o maior exemplo de que o projeto do governo Leite é inviável para nossa economia. O Estado vendeu praticamente todo o patrimônio público, empresas públicas muito importantes para garantir serviços essenciais, como água, energia etc. Venderam baratíssimo. Diziam que não era mais necessário, que não é obrigação do Estado...
JC - No caso da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), o governo Leite argumentou que as contas da empresa estavam precárias...
Pretto - Obviamente, (a CEEE) precisaria ser reestruturada, porque os governos dessa turma que está no Palácio Piratini, tanto a gestão (José Ivo) Sartori (MDB, 2015-2018) quanto a gestão Leite, deixaram a CEEE se inviabilizar economicamente. A empresa deixou de pagar o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviço), ficou com uma dívida acumulada. Essa foi uma decisão política da direção das empresas, que foram nomeadas pelo governo do Estado. Depois de fazer isso, o que eles disseram? Essa empresa não é mais viável.
JC - Alguns parlamentares afirmam que, mesmo com receitas extraordinárias, como a das privatizações e da suspensão da dívida com a União, não foi possível as contas públicas fecharem no azul. O senhor acha que esses recursos extraordinários deveriam ter garantido uma projeção de superávit?
Pretto - Com todas as vendas feitas, com todos os ajustes feitos, com toda a penalização dos servidores públicos e a precarização dos serviços públicos, o Estado está com déficit. Com tudo isso, o governador entrega a LOA com déficit de quase R$ 4 bilhões. Ou seja, esse projeto que eles defenderam deu errado. E o Rio Grande do Sul precisa de um projeto novo, no qual o governo aja como parceiro dos setores produtivos que são importantes, que podem dar respostas para que o Estado volte a ser superavitário.
JC - Quais seriam esses setores no Rio Grande do Sul?
Pretto - A indústria do nosso Estado é uma potência grande, tanto que 65% das máquinas agrícolas do Brasil são fabricadas no Rio Grande do Sul. E, de todas as máquinas exportadas para fora do País, 46% vão para os Estados Unidos. É uma área bastante afetada pelas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump...
JC - Falando nas tarifas de 50% às importações de produtos brasileiros, quais os setores afetados que necessitam mais atenção no RS, além da indústria de máquinas agrícolas?
Pretto - Outros setores importantes são o coureiro-calçadista, de armas e munições, tabaco e a própria carne. Mas, na indústria fomos altamente penalizados por essa imposição do presidente dos Estados Unidos. Por isso, é incompreensível certos deputados, lideranças que foram eleitas pelo povo gaúcho, saudarem as tarifas do Trump e a bandeira estadunidense. A indústria gaúcha pode muito mais se tiver um governo apoiando, ajudando, buscando saídas, olhando para além das nossas divisas aqui do Rio Grande do Sul, fazendo uma boa sintonia com as políticas do governo federal, abrindo novos mercados no mundo.
JC - Em 2027, o Rio Grande do Sul volta a pagar a dívida com a União. Ou seja, esse tema vai ser tratado pelo próximo governador. Como vê isso? Vai ser necessário mais uma renegociação da dívida?
Pretto - Espero que o (presidente Luiz Inácio) Lula (da Silva, PT) esteja governando esse país em 2027, porque o PT já demonstrou que sempre fez bem para o Rio Grande do Sul, quando se trata dessas negociações. Veja o caso do governo Tarso Genro (PT, 2011-2014). Tarso e outros 14 governadores entraram na Justiça contra a União, exigindo uma recomposição da dívida, questionando o que a Lei Kandir tinha previsto de ressarcimento aos estados. O resultado foi uma mudança no indexador da dívida e dos juros. O juro passou de 6% para 4% e o indexador deixou de ser o IGP-DI e passou a ser o IPCA. Isso diminuiu em R$ 22 bilhões o estoque da dívida do Estado com a União, no estoque geral dessa dívida. Depois, já no governo atual do Lula, em função de tudo que aconteceu no Rio Grande do Sul (como a enchente), o pagamento da dívida foi suspenso por três anos, além de um congelamento total dos juros. Com isso, o Rio Grande do Sul economiza R$ 32 bilhões.
JC - Vai ser necessária uma nova negociação?
Pretto - Com certeza. Ou o Estado dá passos importantes na nossa economia, para fazer frente ao acordo que foi feito com a União sobre a dívida. Ou será necessário sentar à mesa com o governo federal de novo, para estudar uma recomposição, uma nova forma, um novo caminho. Isso é muito possível pela compreensão que o presidente Lula tem da relação federativa com os estados.
JC - O senhor é o nome mais cotado do PT para concorrer ao governo do Estado. Mas há uma ala no partido que defende uma aliança com o PDT. Como enxerga a construção de uma chapa com esses dois partidos e eventualmente outros aliados?
Pretto - Olha, eu me apresento como pré-candidato para o PT. Agora, o PT tem um calendário de diálogos com outros partidos, que está sendo conduzido pelo presidente Valdeci Oliveira. Ele tem se reunido com alguns partidos do nosso campo. Parece que já tiveram uma reunião com a direção do PDT, com essa disposição de ter um palanque potente para o presidente Lula e configurar uma frente dos partidos do nosso campo democrático em torno de um projeto para o Rio Grande do Sul.
JC - O senhor abriria mão da cabeça de chapa em eventual construção dessa chapa com o PDT, que tem como pré-candidata a ex-deputada Juliana Brizola?
Pretto - Essa decisão é do partido. Sou pré-candidato a governador. Obviamente, quando se senta em uma mesa de negociação, se leva em conta o peso de cada um dos partidos. Na minha última eleição (em 2022), comecei a campanha com 4% nas pesquisas e terminei com 27%. A última pesquisa, na sexta-feira antes da eleição, dizia que eu ia fazer 17%. Ou seja, produzimos um movimento para além dos partidos políticos, um movimento com a sociedade que nem os institutos de pesquisa conseguiram captar. Demonstramos a força do nosso partido junto com o PSOL, a Rede, o PV, o PCdoB. Fiquei atrás do atual governador por 2.441 votos. Não tínhamos o PDT nem o PSB. Ou seja, demonstraram que fazem falta. Desta vez, queremos tê-los conosco nesta frente, se possível, já no primeiro turno.
JC - Se não estiverem no primeiro turno, contaria com esses partidos no segundo turno?
Pretto - Queremos ter o PSB e o PDT conosco, de preferência, já no primeiro turno. Mas, se não for no primeiro, que seja no segundo turno. O PDT tem uma complexidade: está no governo Eduardo Leite, apesar de a pré-candidata Juliana Brizola ter demonstrado uma vontade recíproca de estar conosco. Mas o PT é quem vai tomar essa decisão e fazer essa reflexão. Nós temos um tamanho importante: 11 deputados estaduais, de oito fomos para 11, temos a maior bancada individualmente na Câmara Federal e aqui do Rio Grande do Sul. Além disso, o PT já governou o Estado por duas vezes. Obviamente queremos com solidariedade construir a nossa chapa ao Executivo. Tem duas vagas para o Senado...
JC - Quem o PT pode oferecer como candidato para o Senado?
Pretto - Temos como um dos pré-candidatos ao Senado o deputado federal Paulo Pimenta, que já demonstrou vontade, tem trabalhado para isso. O senador Paim está cumprindo o seu mandato, ele fez uma declaração ao partido tempos atrás de que tem um desejo de não concorrer mais. Agora, ele tem dito que é um soldado do partido. Se não for para concorrer, não concorre, se tiver que concorrer, concorre. Também temos a companheira Manuela d'Ávila, que ainda não definiu o seu partido. Temos outras lideranças aqui no RS, como o presidente da Assembleia Pepe Vargas, o líder da bancada Miguel Rossetto e outros. Visualizo o nome do companheiro Paulo Pimenta, que tem demonstrado disposição para ocupar esse cargo. O PT tem um encontro dia 29 de novembro, quando os escolhidos serão apresentados formalmente. Enquanto isso, dialoga com outros partidos desse campo.
JC - Recentemente, Paim demonstrou intenção de concorrer, a pedido de diversos sindicados...
Pretto - O senador Paim é uma grande referência para o Brasil, em direitos dos idosos, dos negros, dos aposentados. Tanto o senador Paim quanto o deputado Pimenta, honrariam o PT e o Estado com um mandato no Senado.

German (DE)
English (US)
Spanish (ES)
French (FR)
Hindi (IN)
Italian (IT)
Portuguese (BR)
Russian (RU) 




:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/l/g/UvNZinRh2puy1SCdeg8w/cb1b14f2-970b-4f5c-a175-75a6c34ef729.jpg)










Comentários
Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro