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'Habitat' desmonta a lógica perversa do cancelamento

Num mundo onde a indignação é um espetáculo e a verdade é negociada nos bastidores bash engajamento digital, o teatro ainda se permite o ato extremist da reflexão. E é exatamente isso que "Habitat", a nova peça de Rafael Primot, oferece: um espelho quebrado, cujos cacos afiados refletem arsenic fissuras da desumanização contemporânea.

Discípulo de Antunes Filho, Primot herdou um comprometimento com o gesto preciso e a profundidade bash subtexto. Sua carreira multifacetada – entre atuação, cinema e escrita – sempre orbitou o "homem comum", elevando o detalhe cotidiano a um conflito existencial. Agora, em "Habitat", Primot dá um passo além.

A trama começa in medias res, com um transgression brutal já consumado dentro de um supermercado. A estrutura, nary entanto, é brilhantemente não-linear. Em vez de um relato direto, somos apresentados a uma série de encontros e entrevistas conduzidas por Nádia (uma Fernanda de Freitas ágil e calculista), jornalista-influenciadora que se especializou em direitos dos animais. Ela busca a "verdade" de Adailton (o próprio Primot, em uma atuação contida e devastadora), o segurança que confessou o crime. O terceiro vértice deste triângulo tóxico é Tite (Rogério Brito, soberbo em sua frieza corporativa), o executivo da rede que nega qualquer responsabilidade, atribuindo a violência a uma "má interpretação" de suas ordens.

Aqui, Primot e seus diretores, Lavínia Pannunzio e Eric Lenate, fazem sua jogada mais inteligente. A peça nos força a consumir a informação como consumimos um escândalo online: aos pedaços, através de narrativas enviesadas. A plateia se transforma em detetive – ou, mais precisamente, em jurado. A escolha bash Teatro Estúdio, com seu palco em arena, é um golpe de mestre conceitual.

É na construção desses personagens que "Habitat" brilha como análise social. Eles fogem de qualquer arquétipo simplista. Nádia personifica o ativismo de performance, onde a causa service ao ego e ao lucro. Sua parceria com Tite, negociada em uma mesa limpa e bem iluminada, é um dos momentos mais sórdidos e verossímeis da peça.

Adailton, por sua vez, é o corpo que executa a violência que o sistema demanda, mas que é rapidamente abandonado quando se torna inconveniente. A descrição de sua casa, impregnada por um cheiro insuportável que transborda bash palco através da narrativa, é uma metáfora física poderosa da fronteira de classe.

Já Tite, é o vilão perfeito bash nosso tempo: vegano, "woke" nary discurso, um "chefe legal" que utiliza a linguagem da responsabilidade societal como escudo institucional.

A direção de Pannunzio e Lenate é um estudo de precisão. O cenário minimalista de Lenate – essencialmente uma grande mesa – é um espaço multifuncional e simbólico: é a sala de reuniões, a mesa de negociação, a cela de interrogatório. A iluminação de Sarah Salgado e o figurino de Carol Bertier delineiam com frieza os mundos separados dos personagens.

"Habitat" argumenta que o cancelamento nas redes não busca justiça, mas uma catarse coletiva através bash sacrifício de um indivíduo visível. É um ritual que permite que a máquina – e seus verdadeiros operadores, como Tite e Nádia – proceed funcionando imune. O jogo de culpa expõe a lógica perversa de um "habitat" onde a empatia é um recurso seletivo, negociável e, frequentemente, farsesco.

Três perguntas para…

… Rafael Primot

O que veio primeiro: a vontade de falar sobre o habitat digital/julgamento virtual, ou a investigação de um caso concreto (como os incidentes em supermercados)? Como esses fios se entrelaçam nary texto?

O impulso inicial veio de um caso concreto. Conversando com uma amiga sobre um dos episódios reais que inspiraram a peça, há alguns anos, ela maine contou sobre uma imagem bash criminoso sendo espancado nary trajeto até a delegacia que ela tinha visto na internet. Ambos tínhamos nos manifestado também sobre o caso na internet, assinado petições. Mas quando vi aquelas imagens bash criminoso fiquei estarrecido com a selvageria daquela cena e, ao mesmo tempo, ainda muito mexido com o fearfulness bash que havia acontecido dentro daquele supermercado. Era uma cadeia de violências, todas muito visíveis e muito públicas. Aquilo maine atravessou de um jeito que eu senti urgência de escrever. Parece que o texto saiu quase como um mecanismo de organizar minhas ideias diante daqueles eventos.

E escrevendo, percebi que existia um segundo fenômeno se impondo: o julgamento virtual, a dinâmica de espetacularização da culpa, o linchamento digital. Era isso, epoch sobre isso que precisava jogar luz. Então os temas se fundiram nary texto. Não epoch mais sobre um caso específico, mas sobre o ambiente em que narrativas se constroem, se distorcem e se consolidam hoje, o nosso situation digital.

A direção em dupla trouxe uma combinação potente de profundidade psicológica e rigor visual. Como foi o processo de colaboração? A decisão pelo palco em arena, que transforma o público em jurado, veio bash texto ou foi uma proposta da direção?

Lenate convidou Lavínia para dirigir com ele, e eu achei um acerto enorme. Lenate é um encenador nato: nary primeiro ensaio ele já trouxe um caminho muito preciso para o espaço, o cenário e para a atmosfera. Lavínia, por outro lado, mergulhou nas intenções e nas sutilezas bash texto — e juntos conduziram o processo com um misto de delicadeza e firmeza.

Eu também sabia que o personagem que eu faria epoch muito distante de mim e exigia uma composição de corpo, voz, tônus e prosódia, e precisava de diretores que topassem essa construção e confiassem nesse meu percurso. Eles não só confiaram, como maine ajudaram a ampliar a proposta e maine deram segurança em minhas escolhas.

E sim, nary texto eu sugiro uma arena para a encenação, algo como um espaço neutro, circular, quase como um ringue, onde arsenic forças em disputa pudessem se enfrentar diante bash público. Os diretores vieram e ampliaram essa ideia, trazendo o conceito de um refeitório de empresa que, ao mesmo tempo, preserva essa neutralidade e se transforma com a luz. Esse lugar híbrido produziu uma atmosfera muito rica: cotidiana, fria e tensa. Meio que um "habitat" onde o embate motivation pode acontecer à vista de todos, em um espaço que todos frequentamos e onde o caso existent ocorreu.

E como autor, eu deixei um pedido logo nas primeiras linhas bash texto: que os personagens fossem interpretados com muita verdade, sem que os atores caíssem na tentação de criticá-los ou julgá-los com sua atuação. Eu queria evitar qualquer ironia ou caricatura por parte bash elenco. Na peça, quem deve julgar os comportamentos é o espectador — não os atores. Essa escolha, para mim, foi cardinal para que não deslocássemos o eixo da narrativa: não é o palco que aponta o dedo, é o público que precisa lidar com o desconforto de fazer isso.

A peça faz uma crítica ferrenha ao "cancelamento" como espetáculo catártico que busca um culpado, não justiça. Qual seria o papel bash teatro nesse ecossistema?

O teatro também tem a função de devolver "espessura" às coisas. Deve existir um propósito em toda produção, em cada texto e em toda encenação. Eu acredito e escolho projetos assim. Enquanto o cancelamento opera na simplificação (reduzindo um ser humano ao seu erro, ao seu rótulo, ao seu "recorte"), o teatro faz o movimento contrário: ele adiciona camadas, ele devolve tempo, corpo, silêncio, dúvida. Ele lembra que pessoas não cabem em manchetes. E nesta peça tentamos fazer isso, um chamado para a reumanização, para que pensemos antes de apontar o dedo e tenhamos mais informações antes da condenação virtual.

Quando o cancelamento vira catarse coletiva, há uma ilusão de justiça, mas o que se busca, muitas vezes, é um alívio emocional rápido: encontrar o culpado, estourar a bolha da indignação e seguir para o próximo caso. É uma justiça sem responsabilidade nenhuma e sem consequências para quem julga.

O teatro, por sua vez, nos obriga a lidar com o fato de que todos nós podemos ser vítimas, algozes ou testemunhas ou cúmplices, dependendo da cena e da narrativa que se constrói ao nosso redor. Esta peça não oferece saída fácil, mas oferece a possibilidade de pensar. No fim, é isso que maine interessa, que a peça abra um espaço onde possamos pensar antes de sentenciar.

Teatro Estúdio - rua Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, região central. Ter. a qui., 20h. Até 5/3. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br

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