Espaço estreito para cortes
Num horizonte um pouco mais amplo, até o fim de 2026, analistas e operadores no mercado financeiro avaliam que o espaço para cortes da Selic se estreitou, com possibilidade de mais uma ou, no máximo, duas reduções da taxa básica em 0,25 ponto. O ano encerraria com a Selic entre 13,5% e 14%.
No ambiente em que essas expectativas estão se disseminando, a anunciada trégua na guerra entre Estados Unidos e Irã, com a reabertura, na sequência, do Estreito de Hormuz, ainda é considerada incerta e não está "fazendo preço" para alterar as expectativas pouco favoráveis de redução da Selic.
Em relatório a clientes, a consultoria 4intelligence lembra que a existência de uma diferença significativa entre a taxa real de juros de uma economia e a estimativa da taxa neutra de juros é argumento forte para a adoção de um ciclo de cortes dos juros básicos. No Brasil, neste momento, a taxa neutra é estimada em torno de 5%, enquanto a taxa real vai a 9%.
Expectativas mais desancoradas
Assim, uma trajetória de cortes da Selic faria sentido, mas só se o desvio entre as expectativas de inflação e o centro do sistema de metas não for expressivo nem sinalize viés de alta. Esse desvio se acentuou na economia brasileira depois das oscilações para cima nas cotações internacionais de petróleo, em resposta ao fechamento de Hormuz.
O que está dando suporte à perspectiva de uma política de juros mais rígida são, em primeiro lugar, os efeitos do choque de oferta produzido pela guerra sobre uma cadeia enorme de preços, a começar dos combustíveis e dos alimentos, os dois itens com maior peso no IPCA.
Além do descolamento entre expectativas de inflação e centro da meta, outros fatores dificultam acelerar o ciclo de cortes da Selic. Um deles são os programas de estímulo à demanda — transferências de renda, subvenções e subsídios de preços, políticas de crédito favorecido etc. — que a taxa básica mais elevada tenta neutralizar.
Também opera para refrear trajetórias de cortes na Selic o fato de que, ao redor do mundo, economias avançadas estejam enfrentando pressões inflacionárias, o que leva a altas ou interrupções nas reduções de suas respectivas taxas básicas de juros, como acabou de ocorrer no Japão.
O diferencial entre os juros brasileiros e os externos determina tendências para a taxa de câmbio, estimulando ou refreando o "carry trade", o movimento de sair de posições em mercados externos para aplicar no mercado brasileiro, afetando a cotação do dólar e, em consequência, uma larga lista de preços domésticos.
Trégua incerta
Apostas em novo corte na Selic no Copom de junho, crescentemente minoritárias nos últimos dias e até a véspera da decisão, mantêm-se de toda forma e ganharam reforços com a queda das cotações de petróleo para o nível de US$ 80 por barril.
O alívio trazido pela trégua entre Estados Unidos e Irã e a anunciada reabertura de Hormuz, por onde passam 20% do petróleo e do gás distribuídos ao mundo, ainda é tido como incerto, mas as cotações do petróleo, embora se mantenham acima dos US$ 60 a US$ 70 por barril de antes do conflito, recuaram fortemente do pico de US$ 130 por barril, no auge da crise.
A trégua, enfim, para os que ainda acreditam em corte de juros básicos no Copom de junho, indicaria a vantagem de esperar até o Copom de agosto para decidir por uma suspensão dos cortes.
Mas a alta nas expectativas de inflação para mais de 5% em 2026, acima do teto do intervalo de tolerância do sistema de metas, já decretou que o atual ciclo de cortes não terá vida longa nem acelerada.
Reportagem
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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