
Crédito, Reuters
- Author, Max Matza
- Role, Da BBC News
- Author, Norberto Paredes
- Role, Da BBC Mundo em Caracas
Há 1 hora
Tempo de leitura: 7 min
A líder da oposição venezuelana María Corina Machado disse à repórteres que ela entregou a medalha de seu Prêmio Nobel da Paz ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma reunião privada na Casa Branca nesta quinta-feira (15/1).
"Eu acho que hoje é um dia histórico para nós, venezuelanos", afirmou após reunião com Trump, na primeira vez em que os dois se encontraram pessoalmente. O encontro aconteceu semanas depois de as forças americanas prenderem o líder venezuelano Nicolás Maduro em Caracas e o acusarem de tráfico de drogas.
Trump expressou sua gratidão em uma publicação nas redes sociais, dizendo que receber o prêmio foi "um gesto maravilhoso de respeito mútuo".
O presidente dos EUA se recusou a apoiar Machado — cujo movimento afirmou ter vencido as eleições amplamente contestadas de 2024 — como nova líder da Venezuela.
Mas ele disse que conhecer Machado foi uma "grande honra", chamando-a de "uma mulher maravilhosa que passou por tanta coisa".

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Depois de deixar a Casa Branca, Machado falou com apoiadores reunidos nos portões do lado de fora, dizendo, em espanhol, segundo a Associated Press: "Nós podemos contar com o presidente Trump".
"Eu entreguei ao presidente dos Estados Unidos a medalha do Prêmio Nobel da Paz", disse mais tarde a jornalistas em inglês, chamando o gesto de um reconhecimento do "compromisso único" de Trump com a liberdade dos venezuelanos.
Não está claro se Trump aceitou a medalha. O presidente americano, que com frequência fala sobre seu desejo de receber o Prêmio Nobel da Paz, expressou descontentamento quando a premiação foi concedida a Machado e ela decidiu aceitar a honraria no ano passado.
A BBC entrou em contato com a Casa Branca para comentários.
Machado disse na semana passada que dividiria a medalha com Trump, mas o comitê do Nobel esclareceu, posteriormente, que o prêmio era intransferível.
"Uma vez que o Prêmio Nobel é anunciado, ele não pode ser revogado, dividido ou transferido para outros", afirmou o comitê em um comunicado na última semana. "A decisão final é definitiva."
Questionado pela BBC sobre as declarações de Machado, o comitê manteve sua declaração anterior.
Antes da reunião na Casa Branca na quinta-feira, o Centro Nobel da Paz publicou no X que "uma medalha pode mudar de dono, mas o título de laureado com o Prêmio Nobel da Paz não".
Em suas declarações, Machado descreveu como o Marquês de Lafayette, que lutou na Guerra da Independência Americana, presenteou Simón Bolívar, um dos pais fundadores da Venezuela moderna, com uma medalha com a efígie de George Washington.
O presente foi "um sinal da irmandade" entre seu país e os EUA "em sua luta pela liberdade contra a tirania", disse Machado.
"E, 200 anos depois, o povo de Bolívar devolve ao herdeiro de Washington uma medalha, neste caso, a medalha do Prêmio Nobel da Paz, como reconhecimento por seu compromisso único com a nossa liberdade."

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Durante sua visita a Washington, Machado também visitou o Congresso para se encontrar senadores americanos. No local, suas declarações à imprensa foram abafadas por apoiadores que gritavam "María, presidente" e balançavam bandeiras venezuelanas.
Esperava-se que Machado aproveitasse seu tempo com Trump para tentar convencê-lo de que apoiar o governo interino de Rodríguez foi um erro, e que sua coalizão de oposição deveria estar no comando dessa transição.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse aos repórteres enquanto a reunião estava em andamento nesta quinta, que Machado é "uma voz notável e corajosa para muitos venezuelanos" e que Trump "estava ansioso por essa reunião e esperando por uma discussão franca e positiva" sobre as realidades atuais da vida na Venezuela.
Trump já descreveu Machado como uma "lutadora pela liberdade", mas rejeitou a ideia de nomeá-la para liderar a Venezuela após a prisão de Maduro, argumentando que ela não possui apoio interno suficiente.
Desde que Maduro foi detido em 3 de janeiro, o governo Trump agiu rapidamente para reformular o setor petrolífero da Venezuela, que estava sob sanções dos EUA. Na quarta-feira, um funcionário americano disse que os EUA concluíram sua primeira venda de petróleo venezuelano, avaliada em US$ 500 milhões (R$ 2,685 bilhões).
Petroleiros suspeitos de transportar petróleo venezuelano sancionado também foram detidos pelos EUA, com as forças americanas afirmando que abordaram um sexto petroleiro na quinta-feira.
Um enviado do governo venezuelano deve viajar a Washington na quinta-feira para encontrar com oficiais americanos e dar os primeiros passos para reabrir a embaixada do país, afirmou o jornal americano New York Times.
O enviado é considerado um aliado próximo e amigo de Rodríguez, que foi descrita como "extremamente cooperativa" pela Casa Branca.
Rodríguez fez o discurso anual "Mensagem à Nação" em Caracas nesta quinta-feira, e disse estar disposta a participar também de reuniões em Washington.
"Se eu tiver que ir a Washington como presidente interina, irei de pé, caminhando, e não rastejando", disse, pedindo ao país para "não ter medo da diplomacia" com os EUA.
Trump e Rodríguez também conversaram por telefone na quarta-feira. Nas redes sociais, Trump descreveu a presidente interina da Venezuela como "uma pessoa fantástica". Rodríguez, por sua vez, descreveu a ligação como "produtiva e cortês" e caracterizada por "respeito mútuo".
Encontro pode mudar algo na Venezuela?
Trump é famoso por ser imprevisível em seus relacionamentos pessoais com outros políticos, mas a forma como ele enxerga o papel de Machado provavelmente dependerá menos do encontro do que o que Rodríguez fizer nas próximas semanas — e se isso atender à aprovação de Trump.
Embora muitos apoiadores da oposição tenham ficado chocados quando Trump deixou Machado de lado em favor de Rodríguez, alguns agora começam a entender o que pode ter motivado essa decisão.
Machado é uma figura polarizadora. Embora amada por seus apoiadores – que, entre outras coisas, admiram sua habilidade em unir uma oposição anteriormente fragmentada – ela é odiada pelo regime e seus partidários justamente por esse motivo. Para eles, ela é uma oponente formidável e, acima de tudo, franca.
Embora o governo agora conte apenas com apoio popular minoritário, de acordo com pesquisas e analistas, ele mantém controle sobre as instituições do Estado, incluindo as Forças Armadas.
Grupos civis armados, conhecidos como colectivos, financiados pelo Estado, continuam sendo parte integrante do movimento pró-governo. Neste clima político e de segurança, expressar apoio público a Machado, ou à intervenção dos EUA, é arriscado.
Até mesmo alguns opositores de Maduro temem o que poderia acontecer se Trump instalasse um líder da oposição sem realizar novas eleições.
Os venezuelanos estão divididos quanto às ações de Trump, mesmo aqueles que se opuseram a Maduro.
Enquanto alguns expressam apoio em voz baixa, outros discordam particularmente de suas declarações que sugerem que os EUA poderiam controlar a Venezuela e seu petróleo.

Crédito, AFP via Getty Images
A divisão sobre quem deve liderar o país é ainda mais profunda.
Muitos venezuelanos admiram Machado. Em Caracas, algumas pessoas entrevistadas pela BBC disseram que, ao contrário do que Trump afirma, ela tem forte apoio no país.
Elas apontam para sua vitória esmagadora nas primárias da oposição antes da eleição presidencial de 2024 e para sua capacidade de mobilizar milhares de venezuelanos para protestar quando Maduro declarou vitória na eleição — mesmo que apurações independentes tenham mostrado que o candidato apoiado por Machado havia vencido.
Esse grupo vê Rodríguez como uma das arquitetas do governo Maduro e de seus abusos.
Eles querem que Machado pressione Trump sobre como os EUA planejam "governar" a Venezuela e tente convencê-lo de que, embora sua promessa de "Tornar a Venezuela Grande Novamente" controlando a indústria petrolífera do país possa atrair alguns apoiadores do Make America Great Again (Torne a América Grande Novamente) nos EUA, ela pouco contribui para restaurar a democracia.
Outros, no entanto, concordam com Trump e acreditam que Rodríguez deveria supervisionar a transição. Eles a veem como a melhor opção para evitar a instabilidade que poderia ser desencadeada por uma reação negativa dos apoiadores do governo atual e dos coletivos.
Eles não gostariam que a oposição assumisse o poder após uma operação militar dos EUA na qual Maduro foi preso e enviado a Nova York para responder por acusações de tráfico de drogas e porte de armas.
Atualmente, é improvável que o exército e os coletivos aceitem ordens da oposição e, pelo menos no curto prazo, alguns acreditam que o status quo é mais seguro.
Um proeminente analista político venezuelano – que preferiu não ser identificado – disse à BBC que muitas pessoas acreditam que a capacidade de Trump de derrubar Maduro foi possibilitada em grande parte pelos esforços de Machado para enfraquecer o regime.
"Pessoalmente, duvido que Trump acredite plenamente no que disse. Se ele realmente achasse que Machado não tinha apoio na Venezuela, por que a receberia na Casa Branca?", questionou.
"Mais de 80% dos venezuelanos querem mudança política", acrescentou.
"Eles acreditam que a oposição é a única capaz de conduzir um processo de retorno à democracia na Venezuela. E a maioria desses venezuelanos que querem mudança não acredita que isso aconteceria sob o governo de Delcy Rodríguez."

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