Se há coisa que me irrita é a soberba com que alguns portugueses ainda olham para os brasileiros e o Brasil. Essa arrogância (não vamos fugir das palavras) nota-se no dia a dia, na forma como muitos tratam a maior comunidade imigrante em Portugal e nos preconceitos que insistem em nutrir.
Há, claro, uma raiz histórica para esse sentimento. Falta, por aqui, fazer contas com o passado, arrumar na prateleira o lusotropicalismo que perdura em algumas cabeças tacanhas e inaugurar uma nova era em que deixamos de olhar o Brasil com a conversa gasta do "país irmão" —expressão carregada de eurocentrismo— para passarmos a vê-lo como a grande potência económica, política e cultural que é.
O Brasil não é para principiantes, terá dito Jobim. É a (in)definição perfeita. O Brasil é intenso, é louco, é ciclotímico, é contraditório… Sim, é complexo. Mas, nesta sua imensa complexidade, em matéria política tem muito para ensinar a Portugal e à Europa.
Desde logo, na robustez que a sua democracia mostrou quando esteve sob ameaça. Em menos de três anos, a Justiça brasileira investigou, acusou, julgou e prendeu Jair Bolsonaro. Em Portugal, arrasta-se há mais de 11 anos um processo contra o ex-primeiro-ministro José Sócrates, acusado de 22 crimes, entre os quais corrupção, mas o julgamento só começou no ano passado e é quase certo que muitos crimes prescreverão.
Firme e exemplar foi também o modo como o Brasil fez frente a Trump, quando este exigiu o fim do julgamento de Bolsonaro. Sem sucesso. "O Brasil desafiou Trump e ganhou", titulou o New York Times.
O caso contra Elon Musk é outra situação paradigmática. O tecnopopulista recusou-se a cumprir a lei brasileira, e a Justiça não hesitou em suspender o X por 39 dias. Musk acabou por pagar as multas e obedecer. Já a União Europeia, enredada na sua infernal burocracia, anda há anos a tentar pôr ordem nas plataformas. As averiguações contra Musk decorrem desde 2022, mas só no mês passado uma delas resultou na multa de R$ 747 milhões —um valor tão ridículo (cerca de 0,02% da sua fortuna) que nem dá para notar.
Agora, foi o histórico acordo Mercosul-UE, assinado depois de 26 anos de impasse. O Brasil, impulsionador fundamental, emergiu como grande ganhador. O agronegócio e a indústria brasileira saem em vantagem com esta zona livre de comércio. A previsão é de ganhos de 0,46% no PIB até 2040, com aumentos nos investimentos e saldo comercial positivo.
A Europa, dividida, atordoada e sem saber qual é o seu lugar num mundo tripolar liderado pelos EUA, Rússia e China, só não foi trapaceada porque teria mais a perder se ficasse de fora. Vai ter de lidar com a forte contestação interna, sobretudo de agricultores e soberanistas, mas não tem alternativa —as ameaças de Trump ajudaram que caísse nos braços da América Latina. Mais uma vez, o Brasil forçou a barra, sem medo, e ganhou. É isto que faz falta à Europa, e ainda mais a este Portugal atávico e enquistado na ponta do continente: firmeza e arrojo.
PS: Esta é a minha primeira coluna na Folha. Acuso a responsabilidade e prometo rigor, independência e compromisso inabalável com os valores democráticos. Obrigada por me receberem a bordo deste enorme porta-aviões de bom jornalismo!

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