2 horas atrás 3

O empurrão da história

O modelo abaixo, de maneira simples e sintética, permite captar as variáveis que descrevem esquematicamente a maior parte dos movimentos relevantes de nossas vidas. Ele foi idealizado por Rodrigo Hübner Mendes, cuja história ilustra a força da mudança por imposição: um tiro em uma tentativa de assalto, quando tinha 18 anos, resultou em grave comprometimento de seus movimentos, encerrando seus planos de uma carreira médica.

Hoje, mais de 30 anos após o acidente, o Instituto Rodrigo Mendes, fundado e dirigido por ele, dedicado à melhoria das condições de educação para as pessoas com deficiência, já beneficiou mais de 2 milhões de alunos em escolas públicas.

Acredito que todos prefiramos nos situar no hemisfério superior da imagem, seja para preservar uma situação que nos agrada, seja para conduzir projetos de forma planejada e refletida. Isso não impede que evoluções importantes em nossas vidas estejam relacionadas a fatos imprevistos que obrigaram a alterações de rota.

O mesmo que se aplica a indivíduos é também válido para empresas e mesmo nações. O modelo me veio à mente ao refletir sobre os impactos da crise energética provocada pela guerra no Irã e imaginar que —assim como ocorreu com Rodrigo— a alteração de planos possa ter resultados muito positivos.

A escassez de energia provocada pela guerra do Irã tem alcance global e seus efeitos serão duradouros —quando não definitivos—, ainda que o conflito venha a ser encerrado brevemente.

Vale lembrar que cerca de 75% da população mundial vive em países importadores de petróleo e gás, nos quais a elevação dos preços e, muito pior, o espectro do racionamento provocam disfunções profundas na vida econômica. Isso é verdade especialmente na Ásia, destino de mais de 80% das exportações de óleo e gás natural liquefeito (GNL) através do estreito de Hormuz.

A reação imediata dos países asiáticos é recorrer a energias mais baratas e disponíveis, especialmente o carvão, e dar início a medidas que antecipam um racionamento mais radical —como limitar a presença física no trabalho e o uso de ar-condicionado— que fazem lembrar a situação que vivemos no "apagão" de 2001.

Os impactos da crise não se limitam naturalmente à Ásia. Na União Europeia, a Autoridade de Energia declara que "a crise será longa e os preços permanecerão elevados por muito tempo" e "todas as medidas, inclusive racionamento, estão sob análise".

O petróleo e o gás são commodities cujo preço é determinado nos mercados internacionais. Assim sendo, mesmo nos países produtores, detentores de amplos estoques e reservas, o impacto no preço se faz sentir. É o caso dos EUA, onde a gasolina acima de US$ 4 por galão provoca insatisfação generalizada. Mesmo no Brasil, onde a política de preços da Petrobras procura proteger os consumidores dos aumentos (à custa também dos acionistas minoritários, é bom lembrar), a crise tem graves reflexos, como os que afetam presentemente os setores dependentes de óleo diesel.

Como visto, os efeitos imediatos da crise —como costuma ocorrer após acidentes— são uma espécie de "salve-se quem puder", com cada país procurando conter os danos imediatos da maneira que for possível. Difícil encontrar beneficiários imediatos nesse cenário, a não ser as empresas produtoras de petróleo. Mas, mesmo nesse caso, os efeitos não têm a dimensão que se poderia imaginar; as ações dos principais grupos petrolíferos subiram nos 30 dias após o início da guerra, de 10% a 40%, enquanto os preços do petróleo aumentaram de 50% a 75%.

Houve, porém, um outro tipo de empresa cujas ações parecem ter se beneficiado da crise; as ações da BYD, produtora chinesa de carros elétricos, subiram cerca de 15% enquanto o valor de mercado das três maiores empresas chinesas de baterias elevou-se em cerca de 20% 30 dias após o início do conflito.

Se a apreciação das petroleiras é atribuível à elevação do preço do petróleo a curto prazo, cuja duração é, porém, incerta, a valorização das empresas chinesas deve-se à perspectiva de um vigoroso aumento na demanda por energia limpa, a curto, médio e longo prazo.

A crise evidencia mais uma vez e para além de qualquer dúvida os riscos da dependência de energia importada de outras regiões. Nada disso é novo.

A novidade potencialmente transformacional é que esta é a primeira crise global energética a ocorrer quando há ampla disponibilidade de equipamentos ligados à energia renovável —como painéis solares, baterias e turbinas eólicas— a preços acessíveis, possibilitando aos países importadores a superação de sua vulnerabilidade.

Assim como um terrível acidente levou à criação de um instituto exemplar, uma guerra resultante da iniciativa isolada de um único país poderá determinar uma aceleração definitiva na adoção global das energias renováveis, com benefícios significativos para todos. No que um articulista do New York Times chamou de "ironia trágica", terá sido o governo mais favorável aos combustíveis fósseis na história recente dos EUA a apontar esse caminho.

Retornando ao princípio, observo que graves rupturas nos abatem e nos desviam do caminho; mas não nos dizem para onde ir. Trilhar um novo percurso, especialmente um que seja virtuoso, depende de clareza de pensamento, valores, coragem e determinação.

Concluo manifestando ao Rodrigo minha grande admiração.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro