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Para onde vão seus eletrônicos velhos? O papel da economia circular

Todos os anos, o Brasil gera milhões de toneladas de resíduos eletrônicos, que raramente têm um destino adequado. Celulares, computadores, eletrônicos e eletrodomésticos quebrados ou obsoletos acabam muitas vezes em lixões, sem tratamento e sem reaproveitamento dos materiais valiosos. Esse cenário preocupa especialistas e aponta para a necessidade de mudanças estruturais.

O modelo de economia circular tem ganhado espaço como alternativa para enfrentar tal desafio. A proposta vai além da reciclagem: busca manter produtos e componentes em uso pelo maior tempo possível, por meio do reparo, reuso e reaproveitamento. Essa lógica se contrapõe ao modelo linear de consumo, em que se produz, utiliza e descarta rapidamente.

 Reprodução/Freepik Economia circular: modelo que promete reduzir impactos do lixo eletrônico e criar novos mercados — Foto: Reprodução/Freepik

O TechTudo conversou com três especialistas para entender os caminhos possíveis para o lixo eletrônico no país. A cientista e ambientalista Karin Brüning, o economista e gestor de empresas Gabriel Senna e Marcus Oliveira, fundador e CEO da Circular Brain, analisam o cenário atual e apontam soluções que unem inovação, sustentabilidade e oportunidades de mercado. No índice abaixo, veja tudo o que será abordado:

  1. Panorama do lixo eletrônico no Brasil e no mundo
  2. O conceito de economia circular aplicado a eletrônicos
  3. Atuação de circular techs
  4. Benefícios sociais e econômicos
  5. Sucessos internacionais
  6. Os desafios do setor
  7. O importante papel do consumidor

1. Panorama do lixo eletrônico no Brasil e no mundo

Segundo relatório da Global E-waste Monitor, da ONU, o Brasil é o quinto maior gerador de lixo eletrônico do planeta. No país, a coleta e o reaproveitamento ainda estão muito aquém do volume produzido. Grande parte desse material contém substâncias tóxicas, como chumbo e mercúrio, que podem contaminar o solo e a água quando descartados de forma inadequada.

Para Karin Brüning, a situação expõe um desafio global que se reflete no contexto brasileiro. Ela lembra que os resíduos eletrônicos não são apenas um problema ambiental, mas também social, já que a falta de destinação correta gera riscos à saúde de comunidades vulneráveis e impede a criação de cadeias produtivas sustentáveis.

 Reprodução/Unsplash/John Cameron Obsolescência programada gera mais lixo eletrônico — Foto: Reprodução/Unsplash/John Cameron

Gabriel Senna acrescenta que o volume crescente de equipamentos obsoletos é resultado do consumo acelerado e da rápida inovação tecnológica.

“A cada dois ou três anos, muitos aparelhos são substituídos, mesmo que ainda tenham vida útil. Isso cria um passivo enorme que não está sendo absorvido pelo sistema atual”, explica.

2. O conceito de economia circular aplicado a eletrônicos

A economia circular aplicada aos eletrônicos propõe que os equipamentos sejam pensados desde a sua concepção para durar mais, serem reparados e, ao fim do ciclo, voltarem à cadeia produtiva. Isso inclui desde a fabricação até o descarte, passando pela coleta e separação de componentes.

"Não basta reciclar depois do descarte. É preciso projetar produtos com materiais reaproveitáveis, desmontagem facilitada e logística reversa estruturada. Só assim teremos um ciclo realmente sustentável”, Karin Brüning reforça a necessidade de uma mudança de mentalidade.
 Reprodução/Freepik Lixo eletrônico cresce em ritmo acelerado e ameaça o meio ambiente globalmente. Milhões de aparelhos viram resíduos a cada ano, mas apenas uma fração é reaproveitada. — Foto: Reprodução/Freepik

Marcus Oliveira, da Circular Brain, garante que o setor já conta com tecnologias capazes de tornar esse ciclo viável. Plataformas digitais, por exemplo, conectam empresas, consumidores e recicladores, criando redes que ampliam o reaproveitamento. “O desafio é expandir essas soluções para que deixem de ser pontuais e alcancem escala nacional”, diz.

3. Atuação de circular techs

As circular techs são startups e empresas que desenvolvem soluções digitais para facilitar a logística reversa e o reaproveitamento de equipamentos. Elas atuam como pontes entre consumidores, fabricantes e recicladores, criando processos mais ágeis e transparentes.

Marcus Oliveira explica que essas iniciativas vêm ganhando espaço no Brasil. “A tecnologia permite rastrear eletrônicos, identificar componentes aproveitáveis e garantir que nada se perca. É um modelo que alia inovação à sustentabilidade”, ressalta.

Para Gabriel Senna, esse movimento pode abrir novas oportunidades de mercado. Ele destaca que empresas que aderem a esse ecossistema conseguem reduzir custos, ganhar eficiência e ainda fortalecer sua imagem junto ao consumidor. “É um setor em ascensão e que pode gerar grande impacto econômico e social”, avalia.

 Reprodução/Engadget A economia circular pode gerar empregos, inovação e democratizar o acesso à tecnologia. Além disso, o setor sustentável movimenta a economia e reduz riscos à saúde pública — Foto: Reprodução/Engadget

4. Benefícios sociais e econômicos

Os impactos positivos da economia circular não se limitam ao meio ambiente. O setor tem potencial para gerar empregos em diferentes áreas, desde o reparo e manutenção até o processamento e reaproveitamento de materiais.

Gabriel Senna lembra que a economia circular pode movimentar bilhões de reais no Brasil, criando oportunidades para novos negócios. “Trata-se de um mercado que ainda está em desenvolvimento, mas com capacidade de transformar cadeias produtivas inteiras”, afirma.

Karin Brüning complementa que há também um benefício direto para a sociedade. A destinação correta dos resíduos reduz riscos à saúde pública e amplia o acesso a equipamentos reformados, que podem ser vendidos a preços mais acessíveis, democratizando a tecnologia.

Apesar do potencial, a economia circular aplicada aos eletrônicos enfrenta obstáculos importantes. A falta de infraestrutura para coleta e reciclagem é um dos maiores entraves. Em muitas cidades, não há pontos de entrega ou sistemas eficientes de logística reversa.

 Divulgação/G1 É muito importante reaproveitar eletrônicos para que o descarte não seja realizado deliberadamente. Sem incentivos, economia circular no Brasil segue restrita a poucas iniciativas — Foto: Divulgação/G1

Outro desafio é a baixa conscientização da população. Para Karin Brüning, a mudança de hábitos é fundamental. “Ainda prevalece a ideia de descartar no lixo comum. Precisamos de campanhas educativas contínuas para mostrar que o destino correto gera benefícios coletivos”, diz.

Marcus Oliveira acrescenta que o setor também precisa de incentivos públicos. Ele defende políticas que estimulem a inovação e a criação de cadeias produtivas. “Sem um arcabouço regulatório sólido, a economia circular continuará limitada a iniciativas isoladas”, alerta.

6. Sucessos internacionais

No cenário internacional, há casos de sucesso que podem servir de inspiração para o Brasil. A União Europeia, por exemplo, possui diretrizes rígidas de responsabilidade compartilhada, obrigando fabricantes a recolher e reaproveitar parte dos equipamentos que colocam no mercado.

Gabriel Senna observa que esses modelos mostram como a legislação pode impulsionar práticas mais sustentáveis. “Nos países que avançaram, o Estado assumiu um papel central de coordenação, estabelecendo metas claras e fiscalizando o setor”, explica.

Karin Brüning reforça que o Brasil pode adaptar essas experiências à sua realidade. Ela defende uma abordagem gradual, que combine regulação, incentivos e conscientização da sociedade. “O importante é iniciar o processo e criar uma cultura de circularidade que se mantenha ao longo do tempo”, afirma.

 Divulgação/Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo Paraná Iniciativas como pontos de coleta ajudam no processo de economia circular — Foto: Divulgação/Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo Paraná

7. O importante papel do consumidor

O consumidor também desempenha um papel decisivo no avanço da economia circular. Pequenas atitudes, como doar, reparar ou entregar aparelhos em pontos de coleta, ajudam a reduzir o descarte inadequado e a prolongar a vida útil dos produtos.

Para Marcus Oliveira, a tecnologia pode facilitar essa participação. Plataformas digitais já permitem que o usuário encontre locais de descarte próximos ou até mesmo solicite a retirada de equipamentos em casa. “É uma forma de engajar as pessoas e mostrar que cada um tem responsabilidade nesse processo”, destaca.

Karin Brüning finaliza lembrando que a transformação depende de um esforço coletivo. “Não é apenas uma questão de empresas ou governos. O consumidor tem poder de escolha e pode cobrar práticas mais sustentáveis. Esse engajamento é essencial para consolidar o modelo”, conclui.

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