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Paula Mascarenhas quer disputar sucessão de Leite ao governo do RS

O Jornal do Comércio dedica o espaço da sua entrevista especial desta semana para mais uma pré-candidata ao governo do Estado: a secretária de Relações Institucionais do Rio Grande do Sul e presidente do diretório estadual do PSDB, Paula Mascarenhas. Ela defende que os partidos que apoiam o atual governo escolham o sucessor de Eduardo Leite (PSD) através de pesquisas e critérios objetivos. Embora saiba que, nesse processo, alguns pré-candidatos terão que abrir mão da cabeça da chapa, ela afirma que não entra na disputa apenas para “figurar”.

“Essa escolha deve ser baseada em quem tem mais capilaridade, mais possibilidade de vencer a eleição, mas também mais capacidade de juntar o grupo e liderar o processo depois da eleição”, pondera Paula. Além do PSDB, as principais siglas governistas que lançaram pré-candidaturas são o PP, que trabalha com o nome do deputado federal Covatti Filho; e o MDB, com o nome do vice-governador Gabriel Souza.

Paula Mascarenhas avalia que o próximo governador do Rio Grande do Sul terá grandes desafios, por conta da volta do pagamento da dívida com a União, o aumento das despesas com saúde e educação e o déficit previdenciário. Por esses motivos, a ex-prefeita de Pelotas não acredita que o Rio Grande do Sul consiga reverter o déficit de R$ 3,8 bilhões para 2026, conforme estimativa do projeto da Lei Orçamentária Anual (LOA) do Executivo que tramita na Assembleia Legislativa. Contudo, apesar do cenário difícil, acredita que os investimentos em obras em resiliência, educação, segurança e a concessão de rodovias devem garantir crescimento econômico para o Estado nos próximos anos.

Jornal do Comércio – O projeto da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, protocolado na Assembleia Legislativa, tem uma projeção de R$ 3,8 bilhões de déficit. O que pensa sobre esse déficit? É possível revertê-lo?

Paula Mascarenhas – Não acho que, em 2026, se consiga zerar esse déficit. É um trabalho de longo prazo, mas que já começou a ser feito com profundo respeito à responsabilidade fiscal. O governo quando decidiu assinar o Regime de Recuperação Fiscal (RRF) assumiu um compromisso com a austeridade. Acho que o Estado tem condições de manter a austeridade? Sim, tem condições, mas vai passar por momentos difíceis. O próximo governo vai ter um desafio grande do ponto de vista fiscal, porque agora não está sendo paga a dívida com a União. Além disso, vai haver um aumento de gastos na saúde e educação nos próximos anos...

JC – Refere-se ao acordo com o Ministério Público para aumentar os investimentos na Saúde e Educação, para atingir os investimentos mínimos constitucionais de 12% e 25% da Receita Corrente Líquida, respectivamente?

Paula -  Só até o ano que vem, isso significa mais de R$ 1 bilhão na saúde, além de todos os repasses normais, por causa do acordo com o Ministério Público. O acordo também envolve educação, então também vai ter um aumento de despesas nessa área também. Ao mesmo tempo, não temos mais ativos para privatizar, praticamente não temos mais, portanto, não há mais receitas extraordinárias. Muitos ativos já foram privatizados e esses recursos reinvestidos no Estado em infraestrutura, em questões que vão certamente também gerar receita aos cofres públicos estaduais.

JC – Está dizendo que, apesar de todas as reformas feitas nos últimos anos, o Estado ainda tem desafios...

Paula - O Estado saiu de uma condição fiscal e financeira muito grave, virou o jogo, mas as pessoas confundem. “Ah, agora está tudo resolvido no Estado.” Não, a situação é muito desafiadora. Além da volta da dívida e do aumento dos investimentos na saúde e educação, o Estado tem o déficit previdenciário que foi reduzido com as reformas que foram feitas (na gestão José Ivo Sartori, MDB, 2015-2018; e no primeiro mandato de Eduardo Leite). O déficit previdenciário seria em torno de R$ 12 bilhões e foi reduzido para R$ 9 bilhões. Ainda assim, é um déficit pesadíssimo para os cofres do Estado. O governo Eduardo Leite tem esse mérito, como o governo Sartori também teve, de não esconder a situação fiscal do Rio Grande do Sul. Afinal, os déficits orçamentários aparecem se o governo decidir que apareçam, porque há formas de esconder esse déficit, incluindo receitas extraordinárias etc. Inclusive, tem um grupo de técnicos que defendem isso, que se sentem mal enviando um orçamento desequilibrado (à Assembleia Legislativa).

JC – Nesse cenário de volta da dívida, aumento das despesas com saúde e educação e déficit previdenciário, os deputados estaduais aprovaram o projeto do Executivo que limita os saques do Caixa Único do Estado. Alguns deputados, tanto de direita quanto de esquerda, reclamaram que isso pode engessar demais o próximo governo. Como vê isso?

Paula - Na verdade, isso é um passo importante que vem sendo dado, porque esse tipo de procedimento (saques do Caixa Único) era feito só aqui no Rio Grande do Sul. Foi uma forma de enfrentar os déficits, mas usando recursos vinculados, o que é inadequado. Se deixarmos em aberto essa possibilidade, podemos retornar a uma situação gravíssima: o uso do Caixa Único não de forma eventual, mas de maneira sistemática, o que prejudica o Estado brutalmente. Por exemplo, o Porto do Rio Grande não tinha investimento nenhum, porque o dinheiro (do fundo destinado ao porto) ficava no Caixa Único e era usado para pagar salário e outras despesas correntes. Hoje, o porto está tendo os maiores investimentos da sua história, porque os recursos do fundo estão sendo reinvestidos na infraestrutura, dragagem. A gente tem que se lembrar do seguinte, a CEEE e Corsan não estão mais aí para serem privatizadas. De onde o Estado vai tirar recursos para cobrir outro rombo no Caixa Único? Então, essa é uma conquista que precisa ser mantida.

JC – A secretária estadual da Fazenda, Pricilla Santana, tem mencionado que o Rio Grande do Sul precisa de crescimento econômico. Com os desafios fiscais que a senhora mencionou, como fica a questão dos investimentos no Estado?

Paula - Uma das alternativas é o Funrigs, que viabilizou investimentos não só na reconstrução do Estado, mas também na resiliência e na preparação para o Rio Grande do Sul prevenir os efeitos nefastos das mudanças climáticas. Isso é colocar o Estado em uma vanguarda de enfrentamento a essas mudanças climáticas, que vai trazer também benefícios econômicos indiretos. Outra é a segurança pública. O fato de termos um Estado que avança em segurança pública, que criou condições de uma vida mais pacífica, que reduziu índices criminais, isso é um diferencial na competitividade. Também tenho muita expectativa com o futuro da educação no Estado. É um estado que já forma mão de obra qualificada, mas que está investindo na educação básica de forma muito diferenciada. Periodicamente, o governador se reúne com a equipe da Secretaria da Educação, os coordenadores regionais de educação e alguns diretores de escolas para compartilhar boas práticas. Acompanhamos alguns indicadores, como frequência e desempenho, para monitorar as áreas com maiores dificuldades. Não tenho dúvida que isso, somado às melhorias na infraestrutura das escolas, uniforme, estímulo às equipes escolares para o alcance de metas, tudo isso vai trazer um diferencial ao Estado. E, finalmente, tem a questão dos blocos de concessão da malha rodoviária do Estado. Eu sei que o pessoal resiste ao pedágio, mas esses blocos de concessão são fundamentais para o nosso futuro. O Estado não vai ter dinheiro para fazer essas obras. Estamos usando o Funrigs para fazer obras em áreas atingidas pela enchente, o que deve reduzir o valor do pedágio (nas estradas geridas por concessionárias). E essas empresas (concessionárias de rodovias) vão fazer investimentos bilionários nos próximos anos, o que vai nos colocar num outro patamar.

JC - O que vislumbra para o seu próprio horizonte político?

Paula - Fui lançada como pré-candidata pelo PSDB. Essa pré-candidatura, que me honra muito, se insere em um cenário de governo do PSDB e outros partidos no Rio Grande do Sul. O governador era do PSDB quando se elegeu e reelegeu. Trabalhamos para construir o plano de governo, eleger o governador e executar o plano de governo junto com outros partidos. Minha pré-candidatura se insere neste contexto de apoio a esta gestão e de trabalho pela sua sucessão.

JC – Outros partidos, como o MDB e o PP, também lançaram pré-candidatos para a sucessão do governador...

Paula - Entendemos que alguns partidos também lançaram pré-candidaturas, que eu respeito profundamente. Inclusive, acho natural que os partidos deem visibilidade para as suas lideranças a um ano das eleições. Agora o caminho natural é fortalecer esse grupo (de partidos que apoiam o governo Leite) até chegarmos a um consenso sobre quem serão os candidatos que vão representar esse projeto que enfrentou dificuldades extremas na situação fiscal do Estado, dificuldades políticas para construir uma maioria na Assembleia Legislativa, para a implementação das reformas mais profundas do Brasil. Além disso, essa gestão enfrentou momentos históricos como a pandemia de Covid-19 e a enchente.

JC – Os partidos que ajudaram a construir o governo Leite devem escolher um candidato em conjunto...

Paula – Os partidos precisam ter maturidade, responsabilidade e diálogo para definir quem será o candidato desse projeto. Essa escolha deve ser baseada em quem tem mais capilaridade, mais possibilidade de vencer a eleição, mas também mais capacidade de juntar o grupo e liderar o processo depois da eleição. É importante fazer pesquisas quantitativas e qualitativas, para entender isso. Mas isso é um processo. Fico feliz de ver que o governador também pensa assim. Ele reuniu os partidos da base na semana passada. Eu não estava aqui, mas a Paula Ioris (PSDB), vice-prefeita de Caxias do Sul, me representou. Ela levou essa visão e é a visão que o governador colocou a todos ali. Foi um movimento muito importante de parte do governador para fortalecer esse grupo, respeitar as peculiaridades de cada partido, mas entender que somos um time que tem uma responsabilidade com o Estado.

JC – Só que, nesse processo de articulação, alguém vai ter que abrir mão em algum momento...

Paula - Mais do que uma pessoa.

JC - A senhora estaria disposta a ser uma dessas pessoas? Estaria disposta a abrir mão da cabeça de chapa pelo projeto?

Paula - Se eu disser que estou disposta a abrir mão, pode parecer que a Paula está apenas figurando. A questão é que a gente precisa de um grupo de partidos para governar o Rio Grande do Sul e para ganhar a eleição. Até porque vai ser mais uma eleição muito polarizada.

JC - E agora com oposição de esquerda e direita...

Paula - Exatamente. Então, a gente precisa ter a responsabilidade de entender que, sozinhos, não temos nenhuma chance. E isso pressupõe recuar (de uma pré-candidatura, eventualmente). Agora, eu não entro com esse espírito, o PSDB não vai entrar com esse espírito de recuar. É ruim falar sobre mim mesmo, mas temos um nome com capacidade, que está participando do governo, que já teve experiências de gestão em uma cidade desafiadora como Pelotas, que também passou por pandemia, enchente, dramas fiscais e, mesmo assim, conseguiu muitas realizações. Não é fácil, quem passou por lá sabe, não é à toa que o governador também é de Pelotas. Mas temos um nome que é do diálogo, que valoriza o grupo, que considera que o compromisso com o Rio Grande do Sul está acima das siglas e dos nomes.

JC - O governador Eduardo Leite saiu do PSDB e, há poucos meses, vários prefeitos o seguiram ao seu novo partido, o PSD. O que está acontecendo com o PSDB? Como enxerga a saída dessas lideranças?

Paula - O PSDB vem sendo uma vítima da polarização no Brasil, e da sua própria coerência também. O PSDB é um partido do centro democrático. O Brasil viveu pelos polos, de direita e esquerda. O PSDB pagou o preço de não se entregar para nenhum dos polos. Então, é um partido de centro democrático que não participou do governo (do ex-presidente Jair) Bolsonaro (PL, 2019-2022), que não participa do governo (do presidente Luiz Inácio) Lula (da Silva, PT). A não ocupação de espaços de poder acaba enfraquecendo as lideranças e o partido. Também não tivemos candidato a presidente na última eleição, o que foi muito negativo para o PSDB a nível nacional. Então, o PSDB perdeu força. Foi o maior partido do Congresso, hoje é um partido menor.

JC – E a saída do governador e dos prefeitos...

Paula - Eu respeito muito o governador. Certamente, não foi fácil para ele tomar a decisão de sair do partido. Mas ele tomou a decisão buscando alternativas para um projeto maior, que lhe exigia isso. Um projeto que não é pessoal, é um projeto para o desenvolvimento da nação. Claro que isso foi um baque muito grande para nós, aqui no Rio Grande do Sul. Perder uma liderança da qualidade do Eduardo é algo que impacta um partido. A possibilidade de deputados acompanharem o governador e a saída de prefeitos também impacta. Agora o grande desafio para o PSDB é como lidar com isso.

JC – E como o partido deve lidar com isso, na sua avaliação...

Paula - Espero que isso não afaste o PSDB do governo. Hoje, para mim, está muito claro que o PSDB faz parte do governo. E a saída do governador não muda o fato de que este governo representa a agenda que construímos e acreditamos. Meu mandato como presidente estadual do PSDB termina dia 31 de outubro. Todos os mandatos estaduais terminam nessa data no Brasil e a executiva nacional decidiu instalar comissões provisórias em todos os estados. Então, não vai haver convenção. Um novo presidente vai assumir com a sua visão particular, que eu não sei qual será, não sei quem será o presidente. O futuro do PSDB no Estado vai depender se o partido vai manter a sua agenda, os seus compromissos históricos. Ou se vai querer se tornar algo que não é, algo que nunca foi. Então, eu espero com toda a força que o PSDB se mantenha coerente.

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