É difícil não admirar a cantora britânica de origem albanesa. Ela não é só uma popstar milionária que resolveu casar bem. Aos 30 anos, ela vem consolidando um império cultural que ultrapassa o palco e os streamings: conectando música, moda, ativismo e negócios com autenticidade radical.
A lista é longa, e vale percorrer. Ela idealizou o Sunny Hill Festival, criado em 2018 em Kosovo, terra natal dos seus pais, que já recebeu nomes como Miley Cyrus e Calvin Harris, e já é o maior evento musical do país autodeclarado independente. Parte da arrecadação vai para uma fundação que apoia jovens talentos e pessoas em situação de vulnerabilidade na região. Katy Perry é a headliner deste ano.
O Service 95, que nasceu como clube de leitura em forma de newsletter, virou plataforma de cultura e ativismo, com jornalistas pagos para cobrirem causas que vão de refugiados a direitos humanos.
Ela ainda possui a DUA, marca de skincare desenvolvida com o laboratório suíço Augustinus Bader, e é uma das sócias da Frate Fitness, máquina de pilates com tela. Tipo uma Peloton. Ainda por cima é embaixadora de marcas como YSL Beauty, Bulgari e virou o novo rosto da Nespresso. Não é fama: é construção deliberada de um império.
E o amor também foi construído direitinho. Ela e o ator Callum Turner se conheceram num restaurante em Los Angeles, quando o ator perguntou o que ela estava lendo. Os dois liam o mesmo livro e ao mesmo tempo. "Training Season", o single onde ela emana que procura um amor verdadeiro, foi lançado por acaso no dia do aniversário dele. Como não invejar?
Todo mundo quer ser a Dua Lipa porque ela representa, em 2026, tudo o que as redes sociais vendem como inatingível e inalcançável. Na única vez que ela foi cancelada, por não saber dançar direito, ela transformou a piada em meme. Nem a própria opulência da cerimônia a chamuscou.
No coquetel de boas-vindas, ela fechou o trânsito, literalmente, de Palermo. Mas pagou 5 mil euros para os locais que se sentiram afetados, desde que assinassem cláusulas de confidencialidade. Quem não aceitou, pichou pela cidade: "a cidade não está para alugar" e "nossa praça não é sua sala de estar".
Vale lembrar que Jeff Bezos fez algo parecido quando fechou Veneza para o seu casamento. A imprensa cancelou e o bilionário virou símbolo de soberba. Dua Lipa fez algo estruturalmente semelhante, só que foi celebrada.
A diferença entre Bezos e Dua Lipa não é o ato: é a estética de quem o pratica. Ela tem bom gosto; ele não tem. E bom gosto, em 2026, é a nova moeda moral. Ostentação com curadoria é lifestyle; já a ostentação sem curadoria é arrogância.
Dua Lipa merece todos os créditos. Ela construiu um império com talento, visão e muito trabalho. Mas existe uma narrativa perigosa que flutua em volta da vida dela: a de que basta ter autenticidade, propósito e bom gosto para ter uma vida assim.
O meme diz que o melhor dia da vida da Dua Lipa é sempre o próximo porque ela entendeu algo que poucos artistas entenderam: nas redes sociais, autenticidade é o produto mais valioso. E ela é a melhor fabricante de autenticidade do mercado.
Basta lembrar da recente passagem da artista pelo Brasil, marcada por ela circulando livremente por São Paulo e Rio de Janeiro, chegando até a comer petisco e tomar cerveja na calçada de um bar em Botafogo, enquanto jogava baralho com a família e fumava um cigarro atrás do outro.

Dua é a antítese viva do que o algoritmo deveria premiar. Fuma, bebe, come fritura, mas vende bem-estar. É do povo, vai a estádio de futebol e boteco na calçada, mas fez um casamento blindado ao extremo. É acessível, mas também inalcançável.
Ela não decifrou o algoritmo. Ela entendeu que o algoritmo premia quem parece não estar jogando o jogo. E ela joga melhor que todo mundo. Com a Dua, ninguém sabe ao certo o que é real e o que é construído. Essa dúvida não é um problema: é o maior ativo dela.
Não é cinismo, é estratégia. Dua Lipa lê livros reais, apoia causas reais, come em restaurantes reais, faz pilates de verdade. E documenta tudo com o filtro certo, na hora certa, para o público certo. O resultado é uma persona que parece espontânea demais para ser calculada — e calculada demais para ser espontânea. É o paradoxo perfeito.
Num mundo onde todo mundo desconfia de tudo, ela conseguiu o feito mais raro: parecer genuína. E quando alguém combina isso com talento real, boa música, bom gosto e um casamento de US$1,73 milhão. A internet não resiste, e até passa pano.
Todo mundo quer ser a Dua Lipa. Porque ela transformou uma vida cara em algo que parece, por um segundo, ao alcance de todos. Só por um segundo.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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