Entre estas duas carteiras de jornalista vão 28 anos e há um mundo de diferenças. Quando comecei a trabalhar, em 1998, os jornalistas eram vistos como os guardiões da democracia e da verdade e desfrutavam de uma grande credibilidade junto do público.
Hoje, muito mudou. A imprensa está debaixo de fogo de todos os lados, e a sua imagem sofreu uma grande erosão, causada por erros próprios, certamente, mas sobretudo pelo efeito da digitalização e das redes sociais, pela polarização política e pelos ataques dos populistas, que veem os jornalistas como "inimigos do povo".
Há dias, a organização Repórteres Sem Fronteiras anunciou que a liberdade de imprensa global está em deterioração acentuada - no nível mais baixo dos últimos 25 anos. Portugal está em 10º lugar, o Brasil subiu na classificação para 52º, os Estados Unidos estão na posição 64º.
O Presidente dos Estados Unidos popularizou a expressão fake news, apelida a imprensa de referência de "desonesta, corrupta ou falida" e faz acusações pessoais permanentes a repórteres.
Na semana passada, o governo de Javier Milei revogou o acesso de todos os jornalistas credenciados à Casa Rosada, uma medida inédita na democracia argentina, que põe em causa o acesso à informação. No Brasil, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro também segue o padrão do pai de hostilidade à imprensa, acusando-a de "mentiras" e "viés ideológico". Em Portugal, a ultra-direita difundiu a expressão "jornalixo".
Este ataque concertado e global faz parte, obviamente, de uma estratégia política deliberada. Com a internet, os políticos perceberam que podem atalhar caminho, ultrapassar estes guardiões e falar diretamente com os eleitores, sem ter de passar pelo filtro jornalístico.
É que o papel dos órgãos de imprensa é, por definição, incômodo para os poderosos, todos eles: são os jornalistas que escrutinam a vida pública, que colocam as perguntas difíceis e que apontam as incongruências e falsidades.
Reparem: é claro que os jornalistas também cometem erros, mas procuram obedecer a um código deontológico que os compromete com princípios éticos e com os fatos. Desacreditar e descredibilizar a imprensa é uma das primeiras formas de minar por dentro as democracias.
Mas, como um familiar de um paciente com Alzheimer continua a cuidar dele mesmo sabendo que este não é reconhecido, cabe aos jornalistas continuar a fazer o seu trabalho, apesar do reconhecimento que recebem por ele ser, nesta altura, desproporcionalmente menor do que a importância que têm para a defesa do bem comum.

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2 horas atrás
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