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Professor de Economia, Cunha vê Mercosul como alternativa de desenvolvimento para o Brasil

Professor de economia da Ufrgs, André Cunha acredita que, diante das tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros, o País pode buscar alternativas de desenvolvimento no Mercosul. Uma política de crédito na modalidade "Buyer's Credit" por parte de bancos públicos como o BNDES poderia financiar a reindustrialização brasileira. Entretanto, um dos principais desafios dessa estratégia seria a negociação com os vizinhos argentinos, uma vez que a segunda maior economia do continente é governada por Javier Milei, que tem divergências com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Quanto às tarifas impostas pela gestão Donald Trump ao Brasil, Cunha acredita que as motivações vão além da tentativa de beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por tentativa de golpe no País. O economista da Ufrgs acredita que o tarifaço é uma ferramenta para pressionar Brasília a se alinhar aos interesses da Casa Branca no cenário geopolítico - em detrimento dos Brics. Entre esses interesses, estariam a cessão de direitos exploratórios de minerais raros, água doce e a abertura às empresas de tecnologia estadunidenses.

Nessa entrevista ao Jornal do Comércio, André Cunha não descarta ainda a escalada das sanções ao Brasil - o que poderia levar inclusive ao congelamento das reservas internacionais brasileiras em dólares.  

Jornal do Comércio - O que os EUA ganham com as tarifas de 50% aos produtos brasileiros?

André Cunha - O governo Donald Trump dificulta o acesso ao mercado consumidor estadunidense com barreiras tarifárias, ou retira certos países aliados do guarda-chuva de proteção militar dos EUA, para atingir certos objetivos. Há um documento publicado pelo conselheiro econômico de Trump, Stephen Miran, conhecido como Acordo de Mar-a-Lago, que expõe a necessidade de um reposicionamento estratégico dos EUA no mundo por conta de alguns problemas estruturais, como o risco de o dólar deixar de ser a principal moeda internacional e o fato de a dívida pública estadunidense estar muito elevada. Então, esse documento desenha uma espécie de nova ordem internacional, em que os Estados Unidos pressionariam os seus parceiros a se adequarem a um conjunto de objetivos estratégicos...

JC - Por exemplo?

Cunha - O Brasil é um credor dos Estados Unidos. Não estamos entre os maiores, mas somos um importante credor. Temos cerca de U$ 250 bilhões em reservas internacionais. Desse total, 80%, 85% são títulos do Tesouro dos EUA. Bem, ele (o economista Stephen Miran) chega a desenhar a ideia de uma reestruturação voluntária da dívida pública norte-americana. O que isso significa? Dar um calote, trocar a dívida atual por uma dívida de título perpétuo, que não tem um prazo fixo de vencimento, inclusive com taxas de juros zero. Ele chega a esboçar isso.

JC - As tarifas são uma maneira de pressionar os países a comprarem esse tipo de título, por exemplo...

Cunha - Trump enxerga o comércio global como um jogo de soma zero: para alguém ganhar, alguém tem que perder. Ele avalia que os EUA perderam com a globalização, e os déficits estadunidenses seriam o maior resultado disso. Então, ele tem usado as tarifas como uma arma, como uma espécie de um chute no adversário para que o adversário responda de uma certa maneira.

JC - No caso do Brasil, o que ele busca com as tarifas?

Cunha - No Brasil, tem essa questão do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (condenado pela tentativa de golpe de estado). Mas não me parece o elemento central. Creio que a questão central é fazer pressão sobre o Brasil, dado que o governo atual no Brasil é desalinhado com os interesses de maior submissão aos EUA. Do ponto de vista econômico, o que interessa aos EUA? Que o Brasil se desalinhe de países considerados inimigos estratégicos da Casa Branca, como a Rússia e a China. Os Estados Unidos não veem com bons olhos o fato de o Brasil estar no Brics, onde se manteve mesmo durante o governo Bolsonaro. Atualmente, o Brasil ocupa a presidência do bloco, trazendo a pauta do comércio internacional sem o dólar, por exemplo. Tudo isso mostra um Brasil muito autônomo, muito independente, muito desgarrado de Washington. Do ponto de vista estratégico internacional, as tarifas são uma tentativa de reenquadramento.

JC - Nas negociações das tarifas, a China chegou a interromper o fornecimento dos minerais raros aos EUA, o que acendeu o sinal de alarme na Casa branca. O Brasil poderia ser um fornecedor dessa matéria-prima também?

Cunha - O Brasil é um país rico em recursos minerais. Nem toda essa riqueza não está clara para nós mesmos. Talvez os norte-americanos, com tecnologia superior, tenham um mapeamento mais preciso desses minérios estratégicos para as novas tecnologias. O setor petroleiro dos EUA, que é uma base de sustentação do governo Trump, tem interesse no petróleo da Margem Equatorial brasileira. Também tem a água na Amazônia, que é de mais longo prazo. Há uma série de coisas que são importantes estrategicamente para os EUA a médio e longo prazo. Os recursos naturais são um deles...

JC - Há outros?

Cunha - Existem mais dois interesses estratégicos que não são muito mencionados: financeiro e tecnológico. No que diz respeito às medidas de natureza financeira, um representante do que seria o Ministério do Comércio Exterior dos EUA já entrou em contato formalmente com o Brasil, pedindo informações para tentar caracterizar o Brasil como um país com práticas desleais no comércio internacional. O Pix seria uma dessas práticas desleais. Entretanto, não estão conseguindo demonstrar cabalmente que o Brasil é uma ameaça para a economia estadunidense.

JC - E o interesse tecnológico?

Cunha - Envolve a indústria de alta tecnologia, particularmente os segmentos de mídia. A Justiça brasileira tem adotado decisões que constrangem, limitam a atuação plena das empresas de redes sociais. Essas empresas sentem que os seus interesses estão sendo prejudicados por decisões do governo brasileiro, e muito mais pelo Judiciário, no que tange ao que eles consideram uma agressão às liberdades individuais. E essa pressão não é só sobre o Brasil, é sobre a Europa, que tem decisões judiciais com multas bastante elevadas (às chamadas big techs).

JC - No mundo multipolar, autonomia por ser uma ameaça...

Cunha - A  América Latina é um continente estratégico para Washington, porque eles vislumbram um cenário multipolar. Os EUA não estão imaginando que vão conseguir ter o mesmo arbítrio que tinham sobre o mundo no século XX, especialmente após a queda da União Soviética. Dada a ascensão da China, Índia, uma certa recuperação de Rússia, eles querem manter um certo núcleo de influência e retardar o processo de perda da hegemonia global.

JC - Uma vez que o comércio com os EUA tende a diminuir, o Mercosul pode oferecer soluções?

Cunha - O Mercosul, ou os outros vizinhos da América Latina, é o principal mercado dos nossos produtos industriais. O mercado estadunidense para exportação de bens industrializados é um mercado importante, mas temos déficit com os EUA e com a Europa. No caso dos nossos vizinhos latino-americanos, temos superávit. Então, seria muito benéfico um conjunto de medidas de comércio, de abertura de mercado, de criação de condições com os nossos vizinhos. Qual é o problema aqui? O principal vizinho é a Argentina, governada por Javier Milei, com quem fica difícil negociar pelas divergências políticas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

JC - O que Brasil buscaria nessa negociação com o Mercosul?

Cunha - O Brasil podia ter uma política mais agressiva de usar o BNDES, naquelas modalidades de Buyer's Credit (crédito para compradores). O Brasil chegou a utilizar essa política no primeiro e no segundo governo do Lula, o que gerou um monte de confusão política e até legal. Isso resultou em uma investigação do BNDES, e, inclusive, durante o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB, 2016-2018), foi feita uma auditoria desses financiamentos que teria atestado que estava tudo na normalidade.

JC - Como funcionaria essa estratégia de Buyer's Credit?

Cunha - Como é que a gente constrói Itaipu? O EximBank, um banco dos EUA, foi um dos financiadores da hidrelétrica. Ele emprestou dinheiro com a exigência de o Brasil comprar equipamentos fabricados nos EUA. Aqueles grandes geradores que estão na usina vieram de lá. Os financiamentos de Buyer's Credit que o BNDES tem feito ao longo da história seguem o mesmo modelo. Estou financiando o meu comprador para ele comprar uma coisa da Embraer, uma coisa de alguma empresa brasileira, que é uma forma de estimular a nossa indústria. O Brasil deveria retomar mais agressivamente essa política. O problema é que o BNDES está muito tímido, não tem dinheiro, porque a base de capital dele está frágil. Hoje, o BNDES é menor que na época de Fernando Henrique Cardoso (PSDB, 1995-2002). Os empréstimos do BNDES estão um pouco acima de 1% do PIB brasileiro.

JC - Se, por um lado, as tarifas pressionam o Brasil e outros países a cederem; por outro, geram reações na própria economia estadunidense e em outros países. Até onde essa pressão pode ir?

Cunha - As tarifas são um mecanismo de pressão, mas também podem gerar efeitos complicados, negativos (aos EUA). Não estão gerando muitos benefícios políticos no curto prazo. O tiro saiu pela culatra no caso de vários países que sofreram o "bullying" de Washington. Por exemplo, as forças políticas de extrema-direita em países como o Canadá e a Austrália, que teriam um maior alinhamento com Trump, perderam as eleições. Esses países têm até boicote de consumidores (a produtos dos EUA). Além disso, há uma pressão inflacionária e um menor dinamismo econômico aparecendo nos EUA. Então, os últimos dados do PIB, mercado de trabalho, vieram mais fracos nos últimos meses

JC - Acredita que as sanções ao Brasil podem escalar ao ponto de, por exemplo, termos nossas reservas internacionais em dólares congeladas pelo Tesouro dos EUA, como foi com a Venezuela?

Cunha - No contexto atual, é uma coisa que precisamos manter no radar. Note que o Brasil não está reagindo. O governo não adotou nenhuma medida recíproca, porque está tentando manter uma discussão mais técnica com o US Trade Representative, que é o órgão que trata do comércio internacional dos EUA. Não vejo um escalonamento por parte do Brasil. Além disso, a Venezuela não é uma democracia normal, é um país com processos complicados, a comunidade internacional enxerga a Venezuela como algo estranho. O Brasil vive uma realidade completamente diferente, não há nada até o momento que poderia justificar o congelamento. Os países que sofreram essas sanções estavam em um contexto de guerra, sofrendo críticas na ONU. O Brasil não se enquadra nisso, mas não posso descartar que as armas financeiras venham a ser utilizadas, porque não estamos vivendo mais em um período de normalidade.

JC - O que o Brasil poderia fazer para se proteger?

Cunha - Uma medida como essa equivale a um ataque nuclear sem que o Brasil tenha feito qualquer ameaça. E é muito difícil a gente se prevenir de um ataque nuclear de uma hora para a outra.

JC - Como amenizar os efeitos?

Cunha - Uma forma de proteção é diversificar reservas. A Rússia, mesmo antes da invasão da Ucrânia, vinha mantendo reservas em ouro. Nos últimos 20 anos, o dólar representava pouco mais de 70% das reservas cambiais no mundo. Hoje, essa proporção deve estar 56%, 57%. E a tendência é cair mais.

JC - O Brics podem oferecer alguma vantagem que nos projeta de eventuais sanções?

Cunha - O Brics certamente vai acelerar os trabalhos em torno de pagamentos em moedas locais no comércio entre os países-membros. Se o Brasil tivesse suas reservas congeladas em dólares, teríamos que pedir mais apoio via swaps de câmbio da China, por exemplo. Talvez tivéssemos que utilizar o Brics para criar o ativo de reserva que muitos economistas estão falando teoricamente, para lastrear uma moeda do Brics. Se os EUA escalarem as sanções, esse projeto da moeda do Brics poderia ganhar velocidade. Mas, se um país como o Brasil tivesse suas reservas congeladas, qual seria a mensagem que Washington enviaria aos demais países do mundo? Que estar vinculado ao dólar é um risco muito grave. Isso seria ruim na medida que outros países poderiam buscar essas alternativas (como a do Brics).

JC - Foi adequada a resposta do Brasil ao tarifaço? E quanto ao socorro aos setores afetados?

Cunha - De modo geral, tem sido uma resposta positiva. No fronte externo, deve-se seguir a tentativa de retomada das bases legais do comércio internacional via OMC (Organização Mundial do Comércio). Além disso, o tom político é adequado, porque também não se pode simplesmente não reagir. Mas, ao mesmo tempo, não é um tom belicoso.  Por outro lado, o Brasil está tentando buscar alternativas. Então, o próprio acordo do Mercosul com a União Europeia avançou. Em condições normais de temperatura e pressão, esse acordo ficaria emperrado nas questões agrícolas, meio ambiente. Agora, talvez saia.

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